Plásticos, papel, metais, alumínio, isopor. José Ivo dos Santos, 59 anos, resume em números o tamanho da contribuição dos catadores de materiais recicláveis para a sustentabilidade: só a Cooperfitz, em Juazeiro, retira, por ano, das ruas, entre 400 e 470 toneladas de resíduos sólidos que voltam para a indústria e deixam de agredir o meio ambiente. “Quando coletamos o plástico, evitamos a extração de petróleo; quando reciclamos papel, preservamos árvores; no alumínio e no ferro, reduzimos a mineração. É um serviço que fazemos para hoje e para as futuras gerações, mas ainda sem o reconhecimento devido”, afirma o catador, que atuou por anos nos lixões de Petrolina e hoje dirige a cooperativa em Juazeiro, na Região do Vale do São Francisco.
A atuação desses profissionais foi discutida durante o II Encontro Estadual dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis da Bahia, iniciado nesta terça-feira (30), em Salvador, e que segue até esta quarta (1º). Com o tema “3Rs do Catador/a para os Direitos Humanos e Cidadania: Respeitar, Reconhecer e Remunerar”, o encontro reuniu trabalhadores cooperados e autônomos de mais de 40 municípios, representantes do governo estadual,ministério público, tribunal de justiça, tribunal do trabalho, defensoria pública e de organizações da sociedade civil.
O evento contou com a presença de nove estruturas de Estado enviados pelo governador Jerônimo Rodrigues, entre eles Wenceslau Júnior, superintendente de Economia Solidária da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (Setre), representando o chefe do Poder Executivo estadual.
O coordenador-executivo do Centro de Arte e Meio Ambiente (CAMA), Joilson Santana, conta que o encontro simboliza o fortalecimento de uma luta histórica: “É um evento que já conta com a parceria do Governo do Estado desde a sua primeira edição, lastreado em diálogos para construção de políticas públicas que garantam os direitos desses homens e mulheres que, no dia a dia, preservam o meio ambiente e fortalecem a cidadania de suas famílias”.
Santana ressaltou o caráter integrador da mobilização, que reúne tanto catadores que ainda atuam nas ruas quanto aqueles já organizados em cooperativas, e lamentou a ausência do prefeito de Salvador, Bruno Reis, que não respondeu ao convite, mesmo sendo a gestão de resíduos sólidos uma atribuição municipal.
Compromisso do Bahia Sem Fome
O coordenador-geral de Ações Estratégicas de Combate à Fome, Tiago Pereira, também destacou a prioridade do governo ao segmento. “Queremos pactuar ações, monitorar o quanto as políticas têm chegado a esse segmento e reafirmar o compromisso do governo para que os/as catadores/as sejam cada vez mais priorizados no acesso a direitos. O Bahia Sem Fome desenvolve ações de distribuição de alimentos, cozinhas comunitárias e apoio social em diálogo com o CAMA e as cooperativas.”
Mesmo com avanços, os números ainda revelam contradições. Segundo José Ivo, enquanto a Cooperfitz recicla cerca de 40 toneladas por mês, Juazeiro enterra 100 toneladas de lixo por dia em aterros, sem uma coleta seletiva estruturada. Para ele, a contratação de cooperativas pelos municípios seria a solução para ampliar a reciclagem e reduzir custos com a coleta convencional. “O catador não pensa só no hoje, pensa no amanhã, nos filhos e netos. Mas precisamos ser reconhecidos por esse trabalho grandioso que fazemos”, reforça.
O encontro segue até esta quarta-feira (1º), com grupos de trabalho, a apresentação do projeto “Cidadão do Meio, Cidadão do Mundo” e a elaboração de propostas conjuntas. A expectativa é que, ao final, seja publicada uma carta de compromissos com metas para ampliar o reconhecimento e o apoio ao segmento em toda a Bahia.
Repórter: Camila Fiúza
Fotos: Thassio Ramos