O programa Bahia Sem Fome já apresenta resultados expressivos no combate à insegurança alimentar no estado e se consolida como uma das principais agendas sociais do governo baiano. Em entrevista à Tribuna, o coordenador da iniciativa, Tiago Pereira, destacou que a Bahia saiu do Mapa da Fome em 2025, antes do prazo inicialmente previsto, e conseguiu retirar 1,3 milhão de pessoas dessa condição ao longo de três anos. Segundo ele, o avanço é fruto da articulação entre União, Estado e municípios, aliada a investimentos que somam R$ 5 bilhões do governo estadual e recursos federais voltados à transferência de renda, produção de alimentos e políticas estruturantes. O programa também foi reconhecido com prêmios nacionais por boas práticas de combate à fome e gestão da segurança alimentar. Apesar dos avanços, Pereira ressaltou que ainda existem cerca de 700 mil pessoas em situação de fome, concentradas principalmente nos grandes centros urbanos. Para 2026, a prioridade será ampliar cozinhas comunitárias, fortalecer a agricultura familiar e manter a presença do Estado em territórios de maior vulnerabilidade, com o objetivo de retirar definitivamente a fome do mapa da Bahia.
Tribuna: Quais são os principais resultados alcançados pelo Programa Bahia Sem Fome desde o seu lançamento até o balanço mais recente?
Tiago Pereira: Em três anos de gestão nós temos muito a celebrar nessa agenda de combate à fome no estado da Bahia. Nós saímos, em 2025, do Mapa da Fome. A prospecção era só que isso acontecesse a partir de 2026 ou até 2030. Então, eu não sei se você lembra, mas na reportagem anterior a gente trouxe até essa referência aí de 2030, saindo do mapa da fome. Então, em 2025, segundo dados da ONU, o Brasil saiu pela segunda vez do Mapa da Fome. Então, esse é um dos principais legados, porque o Bahia Sem Fome se estrutura dentro de uma relação federativa, que envolve a parceria com a União, o Estado e os municípios, dentro de algo que é prioritário, que é o direito humano à alimentação. Então, a principal conquista é a saída pela segunda vez do Mapa da Fome. No ano de 2025 também, a Bahia, segundo o IBGE, do acúmulo do período de três anos, conseguiu retirar 1,3 milhão de pessoas do mapa da fome. Nós tínhamos, em 2022, quase 2 milhões de pessoas no Mapa da Fome no estado, dos 33 milhões que tinha no Brasil. E tiramos, segundo o IBGE, 1,3 milhão. Ou seja, ainda temos 700 mil pessoas que passam fome, mas já conseguimos alcançar, através do Bahia Sem Fome, 1,3 milhão de pessoas.
Tribuna: O Bahia Sem Fome foi recentemente reconhecido nacionalmente com o Prêmio Brasil Sem Fome. O que esse reconhecimento significa para vocês e para o futuro do programa?
Tiago Pereira: Ao mesmo tempo, nós fomos reconhecidos no ano passado com dois importantes prêmios do governo federal. Então, nós recebemos um prêmio pelas boas práticas de combate à fome no âmbito do Bahia Sem Fome. Só foram cinco estados selecionados, e a Bahia foi um desses cinco estados. E nós recebemos também um prêmio pelas boas práticas de funcionamento, gestão e governança do sistema de segurança alimentar e nutricional, o sistema SISAN. Na saída pela segunda vez do Mapa da Fome, além da retirada de 1,3 milhão de pessoas, nós recebemos esses dois prêmios do governo federal. Foram mais estados analisados, mas premiados só cinco, e, portanto, nós fomos também contemplados. O quarto grande legado do Bahia Sem Fome é um investimento, em três anos de gestão do governo Jerônimo, de 5 bilhões de reais, só do Governo do Estado. Ou seja, nós estamos não só com ações emergenciais de alimentos, de refeição, de cozinha comunitária, mas também com ações estruturantes, de acesso à água, de inclusão produtiva, de territórios urbanos, de qualificação profissional, de sistemas de produção, de agroindústria. Tudo isso ajuda nessa agenda de combate à fome, porque as pessoas não querem só o peixe, elas querem aprender a pescar, elas querem dignidade, cidadania, o exercício pleno da vida. Então, a quarta grande conquista, legado, é esse investimento de 5 bilhões. Se a gente contabiliza o investimento do Governo Federal nesse período para essa agenda social, são 86 bilhões de reais só do Governo Federal, mais 5 bilhões da Bahia, vai para 91 bilhões. Só o Bolsa Família, por ano, injeta no Estado da Bahia 20 bilhões de reais. Nós não estamos falando só de política de transferência de renda. Nós estamos falando também de produção de alimentos, de acesso à educação, de alimentação escolar, porque todas essas ações articuladas e integradas ajudam, de fato, a gente, cotidianamente, a tirar a fome do mapa da Bahia.
Tribuna: Quais são os principais desafios que o programa ainda enfrenta na sua avaliação, especialmente em áreas rurais e territórios de maior vulnerabilidade?
Tiago Pereira: Eu diria que nós temos três grandes desafios. O primeiro é que hoje, diferente dos demais estados da federação, na Bahia a maior concentração de fome é nos centros urbanos. Então, quanto maior o município, quanto maior a cidade, mais tem gente passando fome. Nós temos hoje 59 cidades em situação de alerta na Bahia. Salvador é a capital que mais tem pessoas passando fome. Então, o primeiro desafio é esse: como é que a gente adentra os centros urbanos, os guetos, as periferias, os rincões extremos de muita vulnerabilidade. A política pública, por mais que ela exista, por mais que tenha orçamento público, não é tão simples. Então, o primeiro desafio é adentrar os centros urbanos, tendo em vista que lá tem a maior predominância de famílias e pessoas em situação de insegurança alimentar.
Tribuna: Quais os outros?
Tiago Pereira: O segundo grande desafio é a equidistância do nosso estado. Nós temos hoje 417 municípios. A Bahia é maior, por exemplo, que a França, maior que a Alemanha. Então, a equidistância é muito difícil. Por isso, a importância da parceria com as prefeituras, com as organizações sociais. A política pública estadual tem que chegar no município, porque é lá que a vida acontece, mas essas distâncias acabam, em alguns momentos, dificultando a presença maior e mais intensa do Estado. O terceiro grande desafio é encontrar essas 700 mil pessoas que ainda passam fome. Porque se a gente já achou 1 milhão e 300 mil, chegar até essas 700 mil pessoas que faltam é mais difícil. São pessoas que, na maioria das vezes, não têm acesso à documentação, não têm RG, não têm CPF, não têm registro de nascimento. São pessoas que pouco têm relação com equipamentos públicos, pouco têm relação com alguma política pública. Então, estão embaixo de pontes, em rodovias, em sinais, em situação de rua. Não é uma tarefa simples. Em 2026, a determinação do governador Jerônimo é não arredar o pé, porque ainda temos esse número significativo de pessoas que passam fome no nosso estado. Celebramos os avanços, mas não basta só isso. Governo não é saliva, governo é entrega, governo é política pública, governo é presença. A determinação do governador é que a gente não arrede o pé enquanto tiver pessoas passando fome no estado.
Tribuna: A agricultura familiar desempenha algum papel no alcance dos objetivos do programa, principalmente no interior do estado?
Tiago Pereira: Veja, a concepção do Bahia Sem Fome, construída no âmbito do Governo do Estado, a partir da relação com o governo do presidente Lula, com o plano Brasil Sem Fome, é que a gente não vai conseguir vencer a fome só distribuindo alimentos. Nós precisamos ensinar
as pessoas a terem condição de vida digna, acessar oportunidades. Nesse quesito, a clareza do Bahia Sem Fome é que nós vamos vencer a fome com produção de alimentos. Essa é uma grande demanda da sociedade contemporânea, uma demanda global, mundial. Não só para consumir, mas para gerar excedentes e vender, movimentando a economia, a renda e as condições de vida. Por isso, essa agenda de combate à fome dialoga diretamente com a política da agricultura familiar. Nós temos cerca de 700 mil unidades da agricultura familiar no estado, propriedades, roças, que, na sua maioria, já recebem algum tipo de apoio do Estado, e nós estamos potencializando isso com recursos para produção, acesso à água e assistência técnica.
Tribuna: Como é a assistência técnica e extensão rural?
Tiago Pereira: O Bahia Sem Fome criou uma chamada de assistência técnica e extensão rural, atuando com as famílias mais pobres dos 27 territórios. A gente não está com aquela família que já recebeu assistência técnica do Estado. A gente procurou aquelas famílias que nunca receberam assistência técnica. É um investimento de 230 milhões de reais. Criamos o projeto Comida no Prato, as cozinhas comunitárias solidárias, as cozinhas comunitárias municipais, a assistência técnica Bahia Sem Fome, o Alimenta SUAS, que é a transferência de recursos para os municípios comprarem cestas básicas localmente. Criamos também editais de acesso à água, porque dois terços do estado da Bahia estão no semiárido, quase 300 municípios que ainda carecem de estruturas de armazenamento e distribuição de água. A centralidade disso tudo é o Sistema Nacional de Segurança Alimentar. Antes da gestão do governador Jerônimo, a Bahia só tinha sete municípios com adesão ao sistema. Hoje são 189 municípios. Quando assumimos, em 2023, só tinha sete. Isso tem nos ajudado muito na promoção da alimentação saudável, da segurança alimentar e do direito humano à alimentação.
Tribuna: O programa prevê algum tipo de expansão em 2026 e, se sim, quais vão ser as prioridades nesse ano?
Tiago Pereira: A determinação do governo é não arredar o pé, porque ainda temos 700 mil pessoas passando fome na Bahia. O programa Bahia Sem Fome é uma das grandes inovações do governo. No final do ano passado, lançamos dois importantes editais e estamos fazendo parcerias com 118 prefeituras e 29 organizações da sociedade civil para abrir aproximadamente 300 cozinhas comunitárias, principalmente nos grandes centros. A cozinha comunitária é uma isca. A família em vulnerabilidade chega, seja em situação de rua, seja sem trabalho, e ali ela é cadastrada e inserida nas políticas públicas, no CadÚnico e na ação do Estado. Estamos investindo mais de 100 milhões de reais nessa ação. Também estamos colocando mais 15 milhões de reais no Alimenta SUAS, fortalecendo a agricultura familiar com projetos como o Bairro que Produz e Alimenta e o Sertão Vivo. Nós temos uma pobreza estrutural de mais de 500 anos e combater a fome é um dos caminhos para romper, gradativamente, com essa realidade.
Tribuna: Por fim, como a população e as organizações podem se engajar ou colaborar com o programa Bahia Sem Fome?
Tiago Pereira: O Bahia Sem Fome é uma política pública com orçamento garantido, mas o Estado não vence a fome sozinho. É preciso mobilizar a sociedade, fazer um grande pacto com organizações sociais, empresas e governos. Precisamos do apoio de parlamentares, prefeitos, vereadores, senadores, com recursos, iniciativas e fomentos. Continua sendo prioritária a arrecadação de alimentos. O Estado arrecada, doa e compra cestas básicas todos os anos. Mas seguimos conclamando a sociedade para esse pacto. Já avançamos muito, os números mostram isso. Com o Estado cumprindo seu papel, a sociedade envolvida, as empresas apoiando e o Governo Federal injetando recursos, é possível romper esse passivo social. É uma política de reparação. Temos investimentos nas escolas, na educação integral, na alimentação escolar, e tudo isso ajuda a diminuir o flagelo da fome no nosso estado.