ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL A TARDE - COLUNA OPINIÃO
19/12/2008 - Brasil e Bahia na crise: aposta necessária
Os significados da palavra crise estão dispostos em dois grandes grupos: a economia e a vida emocional. A crise emocional é a externalização de um conflito, outrora latente, entre o que o indivíduo pensa ser e o que ele realmente é. A crise econômica, entendida como descompasso entre produção e consumo, carrega a mesma estrutura de significado: o aumento do desemprego e a queda da taxa de crescimento são o reflexo externo do conflito entre o que a economia capitalista realmente é (busca incessante por lucros) e aquilo que ela poderia ser (equilíbrio entre a produção e o consumo). As crises são partes constitutivas do funcionamento da economia capitalista e servem para ajustar a produção e a demanda necessária à realização dessa produção. O problema se resume em como garantir lucros crescentes dada a complexidade do trinômio produção, distribuição e consumo num determinado período. A presente crise da economia capitalista global teve início em meados de 2007, acelerando-se a partir de setembro de 2008. Sua origem está na concessão facilitada de crédito para famílias com baixa capacidade de pagamento, que posteriormente tornam-se inadimplentes, resultando em uma queda no valor das hipotecas em poder dos bancos. A formação e o estouro dessa bolha imobiliária se irradiou para o restante do sistema bancário e se transformou em um quadro de insolvência generalizada, reduzindo a liquidez da economia global. O estopim da crise reside no fato de que a produção de empreendimentos imobiliários (habitacionais e empresariais) só pôde ser realizada no passado recente e no presente através do endividamento futuro das famílias. A crise deflagrada é o ajuste de contas entre uma produção em excesso e um consumo realizado com crédito de elevado risco na mesma janela temporal. Nesse cenário crítico, tudo é incerteza. Se, em uma economia capitalista, “os capitalistas ganham o que gastam e os trabalhadores gastam o que ganham”, conforme afirmava o economista Michael Kalecki, na crise, ambos ficam receosos de gastar: os capitalistas não sabem se os seus investimentos gerarão o lucro esperado e os trabalhadores não sabem se estarão empregados e recebendo salário. Portanto, cabe ao governo sustentar a demanda global, realizando os investimentos necessários (em serviços sociais e infra-estrutura), mantendo o crescimento e evitando a continuidade da crise. É exatamente isso que o governo do presidente Lula tem feito e continuará fazendo, ao garantir a continuidade dos investimentos do PAC e das despesas com serviços sociais, ao manter a taxa de juros e ao reduzir os depósitos compulsórios do sistema bancário (o que evita o enxugamento do crédito). Somam-se a isso medidas que estimularão o consumo privado, a exemplo da redução do IOF para pessoas físicas, da isenção do IPI para carros populares e da correção da tabela do Imposto de Renda juntamente com a criação de mais duas faixas de contribuição. Estas medidas minimizarão os impactos da crise e o resultado dos indicadores macroeconômicos de 2008 não sofrerão grandes inflexões. Como afirmou o presidente Lula, para 2009, a aposta necessária é manter vivo o “espírito do desenvolvimento” no governo, nos empresários e nos trabalhadores. O governo da Bahia, seguindo os mesmos trilhos do governo federal, já se antecipou com um conjunto de medidas para estimular os investimentos produtivos e o consumo privado. Serão R$ 110 milhões que o Desenbahia liberará em linhas de crédito para capital de giro e aquisição de capital fixo. A Proposta Orçamentária de 2009 prevê R$ 2,3 bilhões em investimentos do governo: isso representa um crescimento de 47,5% em relação à Proposta Orçamentária de 2008. Desta forma, espera-se que a economia baiana possa continuar apresentando bons indicadores econômicos e sociais, a exemplo do que atestam os números da Pnad 2007: redução das desigualdades, melhoria nas condições de vida domiciliar, redução do desemprego e aumento da renda. Com essas e outras medidas, o governo segue, com inteligência estratégica, afastando para bem longe as expectativas negativas que, em momentos de crise, precipitam o seu recrudescimento. O ano de 2009 será de difícil travessia, mas com a manutenção das conquistas do governo Lula e do governo Wagner.