ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL A TARDE - COLUNA OPINIÃO
01/07/2009 - Crise e desenvolvimento
As estatísticas econômicas publicadas recentemente devem ser interpretadas como o início de uma reversão de cenário e expectativas. O indicador de desempenho macroeconômico da OCDE, publicado neste mês, aponta uma retomada do crescimento na Inglaterra, Itália, França, Canadá e China. O relatório identifica também que, em relação ao mês anterior (março), sinais positivos foram identificados na Alemanha, Japão e Estados Unidos. No Brasil, a crise contaminou principalmente o desempenho da produção industrial, mas, apesar disso, em 2009, na comparação mês a mês, apresentou quatro variações positivas seguidas. Os números mais recentes divulgados pelo IBGE colocam o Brasil, tecnicamente, na situação de recessão (dois trimestres consecutivos de variação negativa do PIB). Todavia, a queda verificada no primeiro trimestre de 2009 (-0,8%) é inferior à verificada no quarto trimestre de 2008 (-3,6%). Isso nos leva a crer que estamos diante de uma desaceleração da queda nos níveis de produção e emprego, atestada pelas variações positivas do comércio varejista e pelo saldo de empregos formais que, desde fevereiro, voltou a ser positivo, atingindo em abril o montante de 106.205. O que significam esses bons indicadores? Que, se ainda não estamos no ponto de inflexão rumo à saída da crise, estamos muito próximos dele. E isso se deve a um modelo de crescimento com desenvolvimento inaugurado pelo governo do presidente Lula, que colocou o mercado interno como a locomotiva da nossa expansão. Não é mera obra do acaso o fato de que a despesa de consumo das famílias manteve uma trajetória de vinte e dois trimestres consecutivos de crescimento. Na Bahia, os fatos mostram que o novo modelo de desenvolvimento concretizado pela condução do nosso timoneiro - o governador Jaques Wagner - está protegendo a economia e a população baianas dos efeitos mais nocivos da crise. Como resultado, o PIB da Bahia cresceu 0,6% no primeiro trimestre de 2009, em relação ao mesmo período de 2008, e os números do Caged colocam a Bahia como o único Estado do Nordeste com saldo positivo de empregos formais em 2009 (7.919). Os novos investimentos, a exemplo da Ferrovia de Integração Oeste- Leste, propostos pelo governo estadual, irão manter a nossa economia na rota do crescimento com geração de emprego, inclusão social e desconcentração geográfica. Soma-se a isso o esforço do governo estadual em ampliar os serviços sociais essenciais, a exemplo da construção, reforma e ampliação de 18 hospitais, a contratação de 3.200 policiais militares, o investimento de R$ 250 milhões na reforma e construção de escolas e a abertura de oito centros estaduais de educação profissional até 2011, sendo que dois já estão em funcionamento. Na crise, é preciso revisar conceitos e práticas. Durante várias décadas, a ciência econômica acreditou que a capacidade intrínseca de crescimento do capitalismo seria um processo natural, automático, sem a necessidade de intervenções públicas. O crescimento dos negócios geraria riqueza em abundância para o conjunto da população. Venho insistindo nas teses que questionam a naturalidade e a universalidade do binômio “crescimento = desenvolvimento”. Não podemos acreditar que desenvolvimento possa ser resumido apenas pelo aumento percentual da população com acesso a celulares, computadores e TVs. Herbert Marcuse, filósofo famoso nos anos 60, afirmava que “nas condições de uma existência verdadeiramente humana, a diferença entre sucumbir à doença aos dez, trinta, cinquenta ou setenta anos de idade e morrer de uma morte natural depois de uma vida plenamente realizada poderá muito bem ser uma diferença digna de que nos batamos por ela com toda a nossa energia instintiva”. A lógica preconizada nas teses neoliberais, que apregoaram que o Estado deveria se manter distante da economia e que o “deus mercado” seria capaz de promover o desenvolvimento dos países e a justiça social, mostra-se falida ante os estragos desta crise. Desenvolvimento não é somente um problema de política econômica. É, antes de tudo, uma questão existencial: precisamos construir as condições a fim de que a vida - no trabalho, na política, na esfera privada - seja cada vez mais autônoma para cada um e para toda a sociedade.