Aulas gratuitas de esporte transformam a vida da população de baixa renda

16/09/2007

O esporte é de fundamental importância para a saúde e ganha uma relevância maior quando é responsável, também, pela elevação da auto-estima, reabilitação física e mental, superação e inclusão social. Estes são exemplos presentes no dia a dia de 5,5 mil crianças, adolescentes, adultos e idosos, incluindo pessoas com necessidades especiais, integrantes das escolinhas de esporte da Superintendência dos Desportos do Estado da Bahia (Sudesb), que oferece gratuitamente 18 modalidades esportivas para a população baiana de baixa renda.


A alegria que o estudante Iuri Salvador, 14 anos, tem por praticar basquete fica evidente assim que ele dá as primeiras quicadas na bola correndo pela quadra. O motivo, como o jovem mesmo conta, “é uma mistura de prazer por estar fazendo o que gosto e felicidade por estar conseguindo aliviar as freqüentes dores nas costas”.


Iuri disse que quando procurou a Sudesb, há cinco meses, pensava em fazer futebol. Como as vagas já estavam todas preenchidas, ele optou pelo basquete. “Nunca imaginei que fosse me identificar tanto. Descobri um novo talento em mim e estou adorando. Meu sonho é fazer parte do time até chegar à categoria profissional. Sem falar que meus problemas na coluna estão desaparecendo, estou mudando a minha postura, ou seja, o esporte melhorou muito a minha vida”.


A dedicação do garoto, que faz basquete junto com o irmão, Ilgner, 13 anos, pode ser percebida também pela assiduidade e esforço que ele faz para comparecer às aulas. Sai de casa, na Fazenda Grande do Retiro, bem cedo, duas vezes por semana, e vai de ônibus até o núcleo da Sudesb da Fonte Nova, num percurso de mais de 1 hora.


O sonho do estudante José Luís Silva do Sacramento virar um jogador de futebol já recebeu o pontapé inicial. Desde pequeno, com cerca de 5 anos, ele pede aos pais para matriculá-lo numa escola para treinar e aprender mais o esporte. A vontade foi feita há um mês, assim que seu pai soube da oferta de vagas na Sudesb. “Sei que levo jeito para a coisa. Sempre que jogo baba com meus amigos, as pessoas comentam que jogo direito, que tenho o dom para o futebol. Quero ser um craque”, conta José Luís.


“Meu pai demorou um tempão para procurar um local para eu treinar porque achava que todos eram pagos”, completou o estudante. José Luís, que mora no Calabetão, com os pais e mais quatro irmãos, pratica também natação, no núcleo Fonte Nova da Sudesb.


A dona-de-casa Maria José Oliveira Oliveira Limoeiro inscreveu o filho, Edilson, 7, na natação, pensando em melhorar a hiperatividade do garoto, mas não imaginava que ele fosse gostar tanto do esporte. “Queria também que ele perdesse o medo de nadar, e o resultado está sendo ótimo nas duas situações. Ele tem ficado mais tranqüilo tanto em casa quanto na escola, e já está adorando entrar na piscina”, revela a orgulhosa mãe.


“Fiquei surpresa com o trabalho da Sudesb. Além de ser gratuito, ajudando muitas famílias que não têm condições de pagar um esporte, ainda permite fazer duas modalidades”, ressaltou Maria José. Além da natação, Edílson faz também judô. “Estou gostando muito dos dois. Quero continuar a fazer até ficar adulto”, disse o garoto.


O esporte é sinônimo de prazer, ressocialização e auto-estima também para a terceira idade. A aposentada Ana Maria de Jesus, 74, não perde uma aula da dança de salão que pratica na Sudesb. “Isso aqui para mim é uma maravilha. Só me traz coisas boas: conheço novas pessoas, faço amigos, exercito meu corpo e minha mente, tenho uma ocupação saudável. O curso me dá alegria e me deixa feliz. Participar de uma atividade como essa é um conselho que dou para todos da melhor idade”, declarou, animada.


Espaço aberto para atletas especiais


A deficiência física não foi empecilho para Lucas Barbosa, 52 anos, praticar natação e disputar dezenas de competições. Desde que passou a competir nas maratonas da Federação Baiana de Desportos Aquáticos, nas provas em mar aberto, há cinco anos, é campeão em sua categoria, de deficiente médio. “Esporte para mim, acima de tudo, representa aumento da auto-estima e terapia para a saúde. Me ajuda a desenvolver a locomoção e o psíquico”, ressaltou.


Membro da Associação Baiana dos Atletas Deficientes (Abade), Lucas destacou que a Sudesb tem o diferencial da inclusão social. “Aqui há muita interação das pessoas não deficientes com portadores de deficiência, e você começa a se enxergar como pessoa de igual para igual. Não há um distanciamento, como se vê em outras instituições”, observou.


Atualmente, os atletas da Abade estão participando do Circuito Brasil Paraolímpico, que serve como seletiva para o Parapanamericano 2007, marcado para agosto, no Rio de Janeiro. Os competidores estão em clima de comemoração pelos resultados das etapas regionais do circuito, que reúnem atletas de todo o país: na região Sul, os atletas baianos conquistaram oito medalhas, todas de ouro; na etapa Nordeste, que aconteceu este mês em Natal (RN), a Bahia garantiu 35 medalhas.


Agora eles se preparam para a etapa Norte, que será de 31 de maio a 3 de junho, em Belém (PA). No dia 5 de junho sai a lista definitiva dos baianos que vão para o Parapanamericano. Na Bahia já estão selecionados Marcelo Collet e Ronaldo Santos. “É um orgulho para nós ver que o desempenho da Bahia está cada vez melhor. É motivo de estímulo e superação ainda maior”, disse a presidente da Abade, Mônica Veloso, que já disputou 110 travessias internacionais, e saiu vitoriosa em nove delas.


Sudesb inaugura novo núcleo esportivo


A oportunidade de fazer parte das escolinhas será ampliada com o início do funcionamento do Núcleo Esportivo Armando Oliveira, instalado em Pau da Lima, mais um espaço para realizar as aulas, juntamente com os núcleos da Fonte Nova e ACM Brasil, na Liberdade.


O equipamento será ativado oficialmente domingo (27) pela manhã. Serão ofertadas mais 600 vagas, entre basquete, handebol, futebol de salão, futebol de campo e voleibol. As matrículas poderão ser feitas do dia 4 a 22 de junho, das 9h às 16h.


No total, a Sudesb conta com as modalidades de natação, ginástica artística rítmica, atletismo, canoagem, full contact, judô, karatê, capoeira, boxe, handebol, basquete, futebol de campo, futsal, voleibol, ginástica geral, dança
de salão, tai-chi-chuan e yoga, sendo as quatro últimas direcionadas para o público da terceira idade. As aulas são ministradas diariamente, por profissionais graduados em educação física.


“As escolinhas da Sudesb preenchem uma lacuna dentro da área esportiva baiana, de clubes e escolas que não fazem esse trabalho gratuito para pessoas que não teriam condições de arcar com esse tipo de despesa. Com isso, possibilitam a integração das pessoas e elevam a auto-estima. E acredito que a abrangência seja ainda maior pelo fato de os núcleos estarem localizados em regiões que abrigam a classe baixa da cidade”, declarou o coordenador do setor de Educação Esportiva da Sudesb, Álvaro Gonçalves de Oliveira Filho.


Para o professor de basquete Jorge Augusto dos Santos, o esporte se reflete em toda a vida de uma pessoa. “A partir do momento em que uma criança começa a praticar um esporte, ela passa a ter disciplina, melhora sua alimentação, dorme mais cedo, tem mais força para se desvencilhar do caminho das drogas. Isso se reflete nas amizades, na relação com a família, na vida como um todo. E se a pessoa conseguir ser um grande esportista, parabéns. Se não, certamente já é um grande homem”, declarou ele, com a experiência de quem ensina há 15 anos na Sudesb.


“Assumimos a Sudesb com o compromisso de dar continuidade ao projeto com uma abrangência maior. Agora queremos levar as escolinhas de esportes para o interior do estado. Para isso, estamos buscando parceiros"", disse o diretor geral do órgão, Raimundo Nonato (Bobô).