Como parte da programação da Pré-Jornada de Cinema da Bahia, volta a cartaz, na Sala Walter da Silveira, em cópia restaurada, um clássico do cinema político italiano: Queimada! (EUA/FRA/ITA, 1969), de Gillo Pontecorvo. Com sessões às 15 e 20h, de hoje (29) a 5 de julho, o filme resgata um dos momentos de militância do lendário ator norte-americano Marlon Brando, que abandonou Hollywood para filmar uma produção independente, de forte cunho social.
Completa a programação da sala, nesta semana, o não menos político Imperativo – À Beira da Loucura (ALE/POL, 1981), do polonês Krzysztof Zanussi, em sessão única às 17h30. O filme acompanha a história de Augustin, um cientista que fracassa nas conclusões lógicas de seu projeto de um mundo artificial. Trata-se de uma parábola político-filosófica de influência dostoiweskiana.
Na obra de Pontecorvo, Marlon Brando vive um representante inglês, Sir William Walker, que é enviado ao Caribe, na intenção de incentivar a revolta de uma ilha sob o governo português. Tudo isso, com o objetivo de favorecer os interesses da Coroa Britânica.
O diretor italiano lançou Queimada! quatro anos após ter sido consagrado mundialmente com A Batalha de Argel (1965), vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, e novamente apresentou uma obra engajada, em sintonia com o contexto histórico da época, muito fértil para o cinema político.
Entre o final dos anos de 1960 e a década de 70, foram produzidos importantes obras como Z, A Confissão (ambos de Costa-Gravas) e Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri. No Brasil, Glauber Rocha polemizava com Terra em Transe e Hollywood contribuía com o libelo pró-Woodstock Sem Destino.
Queimada! é um ilustre representante desta safra e como em A Batalha de Argel, ultrapassou a barreira da ficção e criou uma obra realista, num estilo documental: câmera na mão, imagem trêmula e granulada (similar à de uma Super-8), ângulos propositalmente amadorísticos para conferir força e autenticidade às cenas. Além do mais, o filme é recheado de elementos jornalísticos, desde as festas folclóricas africanas até massacres, imagens de cadáveres mutilados e de um povo flagelado pela fome.
Imperativo
No outro filme em exibição na Sala Walter da Silveira, Imperativo – À Beira da Loucura, o polonês Zanussi destaca cada estágio do drama pessoal do cientista Augustin. O conflito se desenrola principalmente na discussão com as diferentes propostas de orientação possíveis.
Aparentemente exemplar, o professor reúne em si os dois princípios – o do pensamento racional e da ação emocional – associados com a necessidade de uma realidade de fé. Ele é a prova viva de que, isoladamente, a ciência, a racionalidade e o progresso não são suficientes para explicar o mundo, pois sempre sobra algo, que só pode ser preenchido pela fé, a humildade e o sagrado.
Para Augustin, a postura do sacerdote ortodoxo que confessa acreditar na existência da santidade no mundo, que independe do querer humano, torna-se um desafio. Mas a manifestação da existência de Deus não é algo que se possa desafiar – ela não é previsível como o ganho de um estudante na roleta, conseguido após longos anos de cálculos empíricos.
O diretor polonês, Krzysztof Zanussi, é um daqueles cineastas que se fixam obstinadamente em seu tema central, que sempre voltam a abordar questões filosóficas e, com isso, também levam adiante a sua própria história. Na ótica do físico e filósofo Zanussi, a busca de sentido num mundo materialista esvaziado de sentido está sempre em primeiro plano. Em segundo lugar, está a busca de uma orientação ideal e da necessidade de uma responsabilidade moral.