Fiscais do Plantão do Centro de Recursos Ambientais estão monitorando diariamente as praias de Acupe, Itapema, Saubara, Cabuçu e Bom Jesus dos Pobres, no Recôncavo baiano, atentos ao maior acidente ambiental da região. Peixes mortos continuam aparecendo e as coletas já feitas foram encaminhadas aos laboratórios do Senai/Cetind. Ainda não será hoje (19) que os laudos dos primeiros resultados serão divulgados.
Nesta madrugada – de domingo (18) para segunda-feira (19) – foi realizada nova coleta de amostras de peixes e, desta vez, encaminhadas aos laboratórios do Instituto de Biologia, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), quando serão investigados outros parâmetros de contaminação, segundo informou o coordenador de Avaliação Ambiental, Wilson Rossi.
A prefeitura de Saubara já decretou estado de calamidade pública e a população está em estado de alerta. A recomendação principal é que as praias da região não sejam utilizadas para banho de mar e que peixes e mariscos não sejam consumidos.
A reunião programada para o último domingo (18), na Colônia dos Pescadores Z-16, de Saubara, foi adiada para sexta-feira (23). Para o encontro, serão convidados representantes de órgãos como o CRA, Ibama, Coopa, Petrobrás, Polícia Civil além dos prefeitos de Santo Amaro e Saubara. ""Nessa reunião, a expectativa é que o CRA já tenha os laudos para que as causas da mortandade sejam conhecidas"", afirmou o presidente da Z-1 e da Federação dos Pescadores e Aqüicultores do Estado da Bahia, José Carlos Rodrigues.
O encontro foi adiado porque o comparecimento de um elevado número de pessoas inviabilizou a realização do evento no pequeno espaço da colônia. Além disso, segundo Rodrigues, os ânimos estavam muito exaltados entre os pescadores que estão sendo prejudicados com a situação do local. O objetivo da reunião era de orientar os 1.500 associados quanto às medidas de emergência e também sobre as precauções, além de propor soluções alternativas para viabilizar a pesca em outros pontos onde não haja mortandade de peixes.
O dano que causou a mortandade de peixes, em uma quantidade de mais de 20 mil toneladas, conforme dimensionou a prefeitura de Saubara, não só foi causado apenas pela pesca com bombas e explosivos, segundo já constataram o CRA e a Polícia Civil do município. No início da semana passada, foram identificados novos indícios de outros agentes do desequilíbrio ambiental, como a coloração avermelhada e barrenta no mar, na localidade de Ponta de Saubara, o que constata a possibilidade de fonte contaminante. Este atenuante sinalizou ao órgão de meio ambiente do Estado que são necessárias novas e mais investigações e monitoramentos de maneira diária e sistemática.
Laboratório
Amostras da água, dos peixes e crustáceos foram encaminhadas para análise no Laboratório do Centro de Tecnologia Industrial Pedro Ribeiro (Cetind/Senai), que ainda não divulgou o laudo técnico. A expectativa é que o resultado indique o contaminante ou resíduo químico causador da mortandade. Ao chegar no CRA, o documento ainda terá que ser estudado e analisado pela equipe do setor de Avaliação Ambiental para depois ser divulgado para a imprensa e população de modo geral.
Segundo a bióloga e coordenadora de Fiscalização Ambiental do CRA, Carla Fabíola Ribeiro, toda a área afetada pelo dano ambiental já foi sobrevoada por duas vezes e, na primeira, dia 13 de março, foram verificados os locais de onde estaria vindo o líquido avermelhado.
No último sábado (17), novo sobrevôo aconteceu na região porque o CRA está trabalhando com três hipóteses: mortandade por pesca com bomba, contaminação química e o aparecimento de algas que também são condutoras de substâncias tóxicas.
Em paralelo à fiscalização e ao monitoramento, as areias das praias estão sendo limpas. A concentração maior da fauna marinha morta está distribuída entre o distrito de Acupe, em Santo Amaro e Cabuçu, em Saubara. Tainhas, xaréus, xangós e robalos apareceram mortos aos milhares. “Até baiacus e nikins, considerados peixes mais duros, ou seja, menos sensíveis, como o xangó, por exemplo, estão morrendo”, lamentou o pescador Eduardo Santos Conceição, na localidade de Acupe. As diligências para coibir a ação dos bombistas, iniciadas na semana passada, continuam.
José Carlos Rodrigues acha que é necessária a intervenção da Marinha. Ele confirma que a pior situação está concentrada em Cabuçu. Apenas em Saubara são 1.500 pescadores associados que não sabem como vão sobreviver este mês sem a da pesca, ainda mais com a proximidade da Semana Santa, quando a receita foi sempre esperada e positiva.
Sem perspectiva
O olhar perdido no mar e, nas mãos, uma rede por remendar. Assim estava na tarde de sexta-feira (16), o pescador Aderbal Francisco, o Fan, 53 anos, desencantado com toda esta situação. “Nessa época, quando a maré estava para peixe, chegávamos e pescar 3 toneladas, o que dava para abastecer a comunidade e manter o sustento da nossa família. Isso que aconteceu é de uma malvadeza sem tamanho”, disse lamentando.
Também na sexta à tarde, as marisqueiras Gildete Santos Machado, Jovelina da Conceição Santos e Antonia Santos foram à Colônia de Pesca Z-16 saberem que providências estão sendo tomadas para que elas possam garantir o sustento das suas famílias. “Nesse período tínhamos uma renda de R$ 200 por semana e agora estamos sem este ganho,” reclamaram.
Os proprietários de pousadas e restaurantes das praias do recôncavo também estão apreensivos. É o caso de Lúcia Santana, dona do restaurante Mais Você, em Saubara. Ela disse que o movimento caiu muito na região e, na Semana Santa, quando sempre registrava um excelente fluxo de turistas, agora estava sem esperanças devido ao episódio. ""Ninguém quer comer peixe e mariscos da região. Vou a Salvador comprar esses produtos e guardar a nota fiscal, como precaução, para mostrar aos clientes"", disse.