Começa amanhã (29) a distribuição, pelo Governo do Estado, de duas mil cestas básicas à população prejudicada pela contaminação química das águas da Baía de Todos os Santos, responsável pela mortandade de 50 toneladas de peixes desde o início do mês. Desde hoje (28), a fila já era grande na Colônia de Pescadores Z-16, em Saubara, onde ocorria a entrega de senhas que dão direito ao benefício. Nos próximos dias, existe a possibilidade de elevar o número de cestas distribuídas, diante dos enormes prejuízos verificados por pescadores e marisqueiras de municípios como Santo Amaro, Salinas da Margarida, Madre de Deus e São Francisco do Conde.
Nas praias da região, como Cabuçu e Bom Jesus, o quadro é bem parecido. Alguns pescadores continuam indo ao mar, enquanto outros aproveitam para fazer a manutenção dos barcos ancorados na areia e esperam o resultado do laudo técnico referente à contaminação. Nas cidades, as equipes da Vigilância Sanitária estão desenvolvendo um trabalho educativo nas feiras, orientando os consumidores a não comprar os produtos e pedindo a colaboração dos feirantes para não vender os peixes e mariscos que podem estar contaminados. O Centro de Recursos Ambientais (CRA) também está adotando a mesma orientação junto às comunidades.
A população, por sua vez, sofre as conseqüências de não poder vender seus produtos. Em Saubara, na casa da marisqueira Cátia Regina da Silva, 40 anos, os mariscos catados estão acumulados em bacias ou estocados na geladeira. Na tentativa de vendê-los, ela já levou uma parte para Feira de Santana, mas o material retornou por falta de compradores, receosos diante da contaminação. Mesmo sabendo dos riscos para a saúde, Cátia e sua família continuam consumindo os produtos. “Ou comemos ou morremos de fome”, diz ela, alegando não ter tido nenhum problema de saúde até o momento.
Para obter uma renda extra e enfrentar a crítica situação, Cátia da Silva está lavando roupas e realizando serviços domésticos. Seu marido, o pescador Antônio Honorato Pimentel, 39 anos, afirmou que nunca passou por uma situação parecida antes e que a reserva monetária da família, obtida com a pesca, está acabando. “É justamente na Semana Santa que as pessoas procuram mais os nossos produtos e nós conseguimos um dinheiro a mais. Como estamos sem poder vender, o jeito é esperar para ver como vão estar as coisas até o feriado”, desabafa Antônio.
Na fila de entrega das senhas para o benefício da cesta básica, o também pescador Armando Paulo de Souza, 55 anos, diz estar passando necessidade desde que os peixes começaram a ser encontrados mortos na praia. “Se não podemos vender nada, o que iremos comer, se muitas vezes nem temos farinha em casa?”, questiona ele, que tem dois filhos. Para contornar a situação, seu Armando já catou piaçava, utilizada na fabricação de vassouras, para vender. “Quando acho comprador, dá para conseguir uns R$ 15 por dia”.
Com dois filhos e quatro netos, a marisqueira Marisa Gonzáles, 47 anos, relata o seu drama. “Sempre vendi tira-gostos e mariscos na feira de Santo Amaro. Com as pessoas com medo de comprar, não dá para viver”, afirma. Casada com um pescador e sem nenhum outro tipo de renda, Marisa conta que teve que comprar carne fiado para ter o que comer em casa.
Igualmente apreensiva está dona Carmelita Sousa de Oliveira, 64 anos, marisqueira desde menina. Na fila da Colônia Z-16 de Pescadores desde 5 horas, ela está sem alimentos em casa e sem nada para preparar a comida de seu filho de 22 anos, que é deficiente físico e vive numa cadeira de rodas. “Tive que pedir para a minha outra filha conseguir algum alimento para ele”, contou.
No outro lado da questão, ficam os consumidores, acostumados a comprar os produtos. É o caso de Edmilson Macedo Pires, 26 anos, morador de Saubara. Com a orientação de não consumir os mariscos e peixes, ele afirma que é difícil lidar com a realidade. “A renda da população é muito baixa e nós não temos como comprar outro tipo de alimento, como carne, por causa do preço. Também temos outras contas para pagar e somos levados a continuar comprando mariscos, mesmo sabendo do risco à saúde”, diz Edmilson.