A trajetória bem-sucedida do Colégio Estadual Maria Anita, através de projetos inovadores e da capoeira, fizeram com que a escola fosse selecionada para integrar a obra fotográfica Escolas de Valor, do fotógrafo espanhol Carlos Polanco. Organizado pela Fundação Santillana, o livro será lançado em Salvador amanhã (24), às 18h, no Instituto Cervantes. A obra retrata experiências de sucesso de seis escolas de diferentes estados e regiões brasileiras que vêm rendendo bons resultados na educação.
Cada uma das selecionadas foi associada a um valor, facilitando assim a identificação da essência do trabalho transformador que realiza. Dentre os valores foram destacados solidariedade, auto-estima, harmonia, perseverança, identidade e resistência. Este último caracteriza bem as ações do Colégio Maria Anita. Além de investir na pedagogia de projetos, a direção e toda a equipe de professores estão engajadas na construção de uma escola diferente, que envolva os alunos em seus projetos e, consequentemente, eleve o aprendizado.
“A resistência está associada a nossa história. Estamos no subúrbio, longe do centro, temos dificuldades, mas não desistimos. No livro somos retratados através de um parâmetro entre capoeira e cotidiano escola. Em um meio repleto de adversidades estamos aqui fazendo este movimento de forma segura”, avalia a diretora do colégio, Heronita Silva Passos.
A capoeira atrelada à educação passou a fazer parte do cotidiano do colégio em 1998. A estratégia era usar a arte como forma de despertar o interesse para o aprendizado em alunos indisciplinados e tri-repetentes. Para isso, a escola contou com a colaboração de um vigilante, mestre de capoeira, que passou a ministrar as aulas gratuitamente no turno oposto ao trabalho.
“Selecionamos alunos que precisavam de limites e aos poucos fomos fazendo um trabalho visando atraí-los para a sala de aula”, recorda a diretora. Esse foi apenas um dos inúmeros passos dados pelo colégio no intuito de seduzir o aluno para o aprendizado. Desde então, não existe mais sala vazia. Com 11 salas e 33 turmas, o colégio atende a 1.500 alunos distribuídos nos três turnos da 3ª série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio.
As salas vivem abarrotadas de alunos e, diariamente, dezenas de pessoas buscam vaga. Os índices de aprendizado aumentaram e a evasão caiu consideravelmente. “Atualmente evasão só ocorre à noite, turno que atinge um público que se divide entre o trabalho e a escola”, informa Heronita. São estes resultados que têm atraído um número cada vez maior de alunos.
Entusiasmo
Para a estudante do 2º ano, Nitiele Miranda, 15 anos, não faltam elogios ao colégio que a acolheu nos últimos seis anos. “Isso aqui parece um paraíso escondido no subúrbio. Fico surpresa com esse reconhecimento porque muitas vezes o que vem daqui não costuma ser valorizado. Mais uma vez estamos tendo o reconhecimento público do que fazemos”, diz orgulhosa, a aluna.
É com este mesmo entusiasmo que o estudante do 3º ano, Sidinei Silva Sacramento, 21 anos, fala da escola. Foi lá que ele foi despertado para o prazer de estudar e hoje está convicto de que tem que continuar adquirindo novos conhecimentos. “Aqui me descobri. Já tinha até pensado em parar de estudar. Agora quero fazer vestibular e quem sabe um dia poder voltar para minha escola como professor”, diz. De acordo com a diretora Heronita Passos, com base nas leis do regime escolar e num projeto político-pedagógico, é concedida aos alunos a liberdade de construir o próprio aprendizado.
Foi através dessa liberdade que o estudante Edmilson Oliveira, 18 anos, se sentiu à vontade para propor a criação de uma rádio na escola. Em funcionamento há uma semana, o veículo de comunicação é a grande novidade entre os alunos. “Nossa proposta é que a rádio sirva como um meio de levar informações e retratar todo o cotidiano da escola”, explica o estudante. Em 2003, através de um convite do Banco Mundial, a diretora, um representante da coordenação e outro dos alunos foram participar do III Seminário Internacional de Experiências Voltadas para a Cultura da Paz, em Bogotá, representando o Brasil.
No mesmo ano, o colégio também ganhou o Prêmio de Gestão do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Educação (Consed) e a diretora foi contemplada com um intercâmbio de 15 dias nos Estados Unidos, onde teve a oportunidade de enriquecer a experiência em gestão. A cada dia, a escola enfrenta novos desafios e demonstra que, com engajamento e boa vontade, é possível transformar a realidade.