Imagens do Xaréu e O Guarani serão exibidos na Sala Walter da Silveira dia 31

16/09/2007

Os documentários O Guarani, dirigido por Cláudio Marques, e Imagens do Xaréu, de Marília Hughes, ambos premiados no último edital Agnaldo Siri Azevedo, da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), serão exibidos em sessão única, na próxima quinta-feira (31), às 20h, com entrada franca, na Sala Walter da Silveira.


Em cartaz, dois curtas que tratam sobre a memória e a cidade de Salvador. O Guarani, que marca a estréia de Cláudio Marques na direção, conta a trajetória de uma das mais importantes salas de cinema da Bahia. Em 20 minutos, o curta resgata desde acontecimentos marcantes das décadas de 50, 60 e 70, período em que a sala era um centro irradiador de pensamento e reflexão sobre a arte cinematográfica, até a sua decadência e abandono no final da década de 90, quando o cinema fecha as suas portas.


Fundado em 1919, o Cine Guarani, durante 70 anos, foi a principal sala de cinema de Salvador. O espaço serviu como inspiração decisiva para que Roberto Pires e Oscar Santana desenvolvessem a lente Igluscope, que seria utilizada para filmar Redenção, primeiro longa-metragem do cinema baiano, lançado no Cine Guarani em 1959.


Também foi lá que o Ciclo de Cinema da Bahia (1959-1963) ganhou força e projeção. “Era no Guarani que a gente exibia os nossos copiões. Todas as estréias de curtas e longas feitos na Bahia eram lá”, afirma Orlando Senna, cineasta e atual secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura (Minc). O Clube de Cinema, liderado por Walter da Silveira, um dos mais importantes críticos de cinema do país, encontrou seu ápice no Cine Guarani, com exibições de grandes clássicos do cinema mundial seguidas de debates.


Por vezes nostálgico, vale dizer que não se trata de um filme triste. Numa espiral que une imagens de arquivo (películas baianas, cinejornais, fotos e recortes de jornais) a depoimentos emocionados, o cinema como um todo é celebrado. Segundo o diretor Cláudio Marques, “o filme é composto por 50% de depoimento e 50% de material de arquivo. Em princípio, pensei em fazer um curta com mais material de arquivo, mais ""sujo"" e com poucos depoimentos. Mas, no momento da montagem, percebi que a emoção dos entrevistados, que falavam do Guarani como se fosse uma antiga namorada da juventude, era imprescindível e daria o tom do filme”.


Xaréu


O outro documentário da noite, Imagens do Xaréu, é o segundo curta da filmografia da jovem cineasta Marilia Hughes, que também já assinou a direção de Pelores. Em sua nova produção, a diretora retrata a pesca do xaréu, seu ritual e suas canções, que foi bastante praticada na Bahia, e hoje desapareceu do nosso litoral, ainda que se conserve o ato de pescar. Esta prática, com toda a sua força, sobrevive na memória dos pescadores e nas imagens realizadas pelos cineastas baianos Glauber Rocha e Alexandre Robatto.


É sobre a pesca do xaréu que trata o filme mais importante de Robatto, Entre o Mar e o Tendal, que foi realizado em 1952 nas praias de Chega-Nêgo e Caribamba, áreas hoje conhecidas como praias de Armação e Boca do Rio, em Salvador. Na década de 50, eram locais de difícil acesso e, portanto, isolados do movimento da cidade.


Nos dias de hoje, são áreas bastante urbanizadas e compõem o cenário de uma grande cidade. A pesca ainda é praticada por lá, mas muito da relação mística e religiosa que tradicionalmente permeou a atividade pesqueira se perdeu ao longo dos anos.


O documentário Imagens do Xaréu visita a região do filme de Robatto em busca de histórias de uma velha e, também, de uma Bahia atual. O filme se utiliza de depoimentos e da observação do cotidiano de pescadores do lugar. “É um filme que mistura formas de narrar e temporalidades. Trata de continuidades e descontinuidades de atividades tradicionais, no caso, a pesca do Xaréu”, afirma a diretora Marília Hughes.


O Guarani e Imagens do Xaréu foram realizados com o incentivo do edital para cinema e vídeo promovido pelo Estado da Bahia, e contou com o apoio cultural do Irdeb, ICBA, Restaurante Saúde na Panela, da Jaguatirica Filmes e da Produção Gráfica Rápida. O evento é uma realização da produtora Coisa de Cinema e da Diretoria de Artes Visuais e Multimeios.