Paz mundial é o desejo manifestado na maior festa religiosa da Bahia

16/09/2007

A maior manifestação da fé e da cultura baiana, a Festa do Bonfim, foi novamente uma homenagem e um apelo à paz mundial. Dando início às comemorações, uma cerimônia inter-religiosa reuniu, no adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e pelo terceiro ano consecutivo, seguidores do candomblé, católicos, judeus, muçulmanos, espíritas e protestantes. Após o culto, o governador Jaques Wagner seguiu com o cortejo em direção à Igreja do Bonfim.


Para Wagner, “participar da Festa do Bonfim é fazer parte da maior manifestação popular do sincretismo e da fé baiana. Então, para mim, é um momento de reflexão”, comentou. Ele disse que o governo da Bahia tem que estar junto ao povo e que este é um momento especial. “É a primeira vez que o prefeito João Henrique vai caminhar ao lado de um governador aliado dele, querendo ajudá-lo a melhorar as festas e a vida do povo de Salvador”.


“A festa do Bonfim é música, dança, religião, são várias manifestações, individuais ou coletivas, que se agregam”, sintetizou o secretário da Cultura, Márcio Meireles. Para ele, o evento não é apenas religioso, “mas muito mais amplo e complexo, uma identidade da Bahia que precisa ser preservada para e pela população”.


O diretor conselheiro do Afoxé Filhos de Gandhi, Waldemar José de Souza, 60 anos, há 23 participa da Festa do Bonfim. Ele disse que a história da cidade de Salvador se imprime através das relações iniciadas, desde a sua fundação, pelas suas manifestações festivas. “Então, todo esse povo está aqui, independente de religião, crença, filosofia, manifestando-se pela paz, que só pode ser edificada a partir de momentos como esse”.


Além do cortejo, formado por cerca de 500 baianas, aproximadamente 100 entidades religiosas e culturais também participaram do culto e do desfile até o Bonfim. Entre elas estão representantes do Terreiro de Candomblé Ilê Axé Ogunjá Tiluaiê Orubaia, o Afoxé Filhos de Gandhy, a Irmandade da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o Coral da Cidade (Sead) e o Centro Espírita Luz e Caridade, entre outras bandas de sopro, charangas, agremiações carnavalescas, afoxés e grupos de percussão.


Cerca de 2,3 mil policiais militares foram distribuídos entre os 8,5 quilômetros do percurso entre as igrejas de Nossa Senhora da Conceição e do Bonfim. Foram implantados também três postos de atendimento, pela Secretaria Municipal de Saúde, que contam com o apoio de uma unidade de atendimento móvel e duas ambulâncias convencionais, além de 180 sanitários químicos ao longo dos 11 pontos do cortejo.


Histórico


A festa do Bonfim é realizada no segundo domingo após a Festa de Reis. O culto ao santo teve início com a chegada de uma imagem do Senhor do Bonfim, em 1740, trazida da cidade de Setúbal, em Portugal, pelo capitão de mar-e-guerra Teodósio Rodrigues de Faria, em cumprimento a uma promessa. Com as proibições da época, os escravos se utilizaram da festa católica para louvar o mais importante dos seus orixás, Oxalá.


O santo recebia suas homenagens, a princípio, em uma capela da Igreja da Penha, até que, em 1745, iniciou-se a construção da Igreja do Senhor do Bonfim na colina do Monte Serrat, conhecida como Colina Sagrada. Após nove anos de obras, a igreja ficou pronta e passou a ser a sede da festa anual em homenagem ao Senhor do Bonfim.


No início, os romeiros lavavam a igreja para deixá-la pronta para a celebração. Para animar a arrumação, eles traziam grupos de samba de roda e carroças enfeitadas, o que acabou se tornando a grande festa realizada hoje em dia.