A TVE exibe esta semana uma programação especial para comemorar o aniversário de Glauber Rocha (1939-1981). O cineasta baiano, considerado um dos maiores diretores de todos os tempos, nasceu no dia 14 de março em Vitória da Conquista. Hoje (14), a emissora exibe o longa-metragem Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964); na sexta-feira (16), o documentário Depois do Transe (2006), de Paloma Rocha e Joel Pizzini; e no próximo domingo (18), o público poderá conferir mais um longa de Glauber, Terra em Transe (1967).
Deus e o Diabo na Terra do Sol, filmado em Canudos, Feira de Santana e outras cidades da Bahia, conta a história do vaqueiro Manoel (Geraldo Del Rey), que se rebela contra as injustiças de seu patrão, aliena-se no fervor religioso com as pregações do Santo Sebastião (Lídio Silva) e adere ao cangaço, após conhecer Corisco (Othon Bastos). Manoel é um sertanejo existencialista, em busca de paz e terras férteis para viver ao lado de Rosa (Yoná Magalhães). Em seu trajeto do sertão ao mar, o vaqueiro acumula mais dúvidas que certezas. Outro personagem emblemático do filme, o matador Antonio das Mortes (Maurício do Valle) é personagem dos mais densos de toda a filmografia do diretor.
O longa, que será exibido hoje, às 22h, destaca-se, entre outras coisas, pelo inventivo diálogo com a linguagem teatral e com os filmes de western norte-americanos, pela trilha sonora (Villa-Lobos e Sérgio Ricardo), além da fotografia assinada por Waldemar Lima, que realça, em preto e branco, a imagem tórrida do sertão. Já o documentário Depois do Transe, em cartaz nesta sexta-feira (16), 21h, apresenta depoimentos de vários contemporâneos de Glauber, como o fotógrafo Lauro Escorel e o crítico José Carlos Avellar, sobre o Cinema Novo, cultura e política no Brasil durante os anos 60, cenas inéditas de Terra em Transe, além de detalhes do processo de restauração do filme, cuja edição em DVD acaba de ser agraciada com o Prêmio Jairo Ferreira – Melhor Lançamento em DVD de 2006.
Com exibição programada para o domingo (18), às 21h, Terra em Transe é o mais polêmico dos filmes de Glauber, mostrando política, corrupção, populismo, luta pelo poder, utopias de esquerda e também poesia. O realizador baiano busca uma síntese do Brasil pós-Golpe de 64 e pré-AI-5, em uma trama pontuada por diversas alegorias e narrada de modo a deixar o espectador perplexo – pelo impacto das cenas e pela montagem, que muitas vezes desorganiza a linearidade temporal. Paulo Martins (Jardel Filho) é um jornalista que aposta nas virtudes políticas de Dom Felipe Vieira (José Lewgoy), governador de Alecrim, contra Dom Porfírio Diaz (Paulo Autran), senador de direita, reacionário, que pretende assumir o comando de Eldorado, país fictício que, com todas as metáforas e hipérboles glauberianas, guarda semelhanças com o Brasil da época (e ainda de hoje) devidamente reconhecidas pelos censores do regime militar. Há ainda Sara (Glauce Rocha), namorada de Paulo Martins, o magnata Julio Fuentes (Paulo Gracindo) e o povo, representado numa chave tão ácida quanto o destino de Martins.
O personagem de Jardel Filho absorve toda a convulsão social retratada em Terra em Transe, devolvendo o caos de Eldorado em seu comportamento tortuoso, cheio de dúvidas como o Manoel de Deus e o Diabo, mas sem o benefício da ignorância que talvez possa preservar alguma integridade no vaqueiro. A radicalidade de Glauber custou ao filme sua proibição, em abril de 1967. Quarenta anos depois, Terra em Transe desafia o tempo e expõe as contradições de um país barroco desde sua origem e, de algum modo, ainda tutelado pelas forças políticas que o cineasta ali denuncia.
Antes de cada filme, haverá um bate-papo entre o jornalista e professor de cinema Marcos Pierry e o professor e cineasta Roberto Duarte sobre Glauber, suas obras e sua importância para a cultura brasileira.