Ipac inicia tombamento de conjunto arquitetônico de Cipó

24/03/2008

O conjunto arquitetônico histórico e urbanístico da Estância Hidromineral de Cipó, a 245 quilômetros de Salvador, será o mais novo patrimônio material do estado a ser tombado pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), autarquia da Secretaria Estadual da Cultura (Secult).


O diretor geral do instituto, Frederico Mendonça, apresentará nesta terça-feira (24), na sede do órgão, ao prefeito de Cipó, Jailton Ferreira de Macedo, a notificação de tombamento do trecho central da cidade, que determina aos proprietários dos imóveis e a prefeitura não fazerem mais nenhum tipo de intervenção física sem consulta prévia aos especialistas do Ipac, o que garante a preservação do conjunto arquitetônico.


A solicitação partiu da prefeitura, o que, segundo especialistas, garante mais credibilidade à ação, já que a própria comunidade e o município reconhecem o conjunto como o seu bem patrimonial mais importante.


O tombamento de Cipó integra as novas políticas de patrimônio que vêm sendo orientadas pela Secretaria de Cultura desde o ano passado. “Além das propostas de registro da Festa de Santa Bárbara, Carnavais de Maragogipe e Salvador como patrimônios imateriais da Bahia, realizadas no ano passado, entre outras manifestações, o Ipac iniciou, este ano, ampla atuação para tombar imóveis modernistas e art déco em todo o estado”, afirma Mendonça.


Antes do Carnaval 2008, em ação histórica, o Ipac iniciou tombamento, em Salvador, dos prédios do Oceania, no Farol da Barra, jornal A Tarde, na Praça Castro Alves, Hospital Aristides Maltez, no bairro de Brotas, edifícios Dourado, na Graça, e Caramuru, no Comércio.


Segundo o diretor do instituto, o estado da Bahia detém maior número imóveis tombados em estilos barrocos e do período colonial, do que de outras arquiteturas mais recentes. “O modernismo e o art déco são lacunas históricas que estamos resgatando agora”, explica.


Dentre obras do período modernista, o estado só havia tombado, até hoje, em Salvador, o Conjunto da Escola Parque e o edifício-sede do instituto do Cacau, além de dois murais dos artistas plásticos Genaro de Carvalho (Hotel da Bahia) e Carlos Bastos (edifício Argentina, no Comércio).


Na última semana, o secretário de Cultura, Márcio Meirelles, também solicitou ao Ipac, a retirada e restauração completa de dois painéis, em azulejo, que estavam no Alto de Ondina, em Salvador, de autoria um dos ícones do modernismo das Artes Plásticas na Bahia, Jenner Augusto. Técnicos do instituto estão realizando prospecções no local e até final de abril os painéis devem entrar em processo de restauro.


Patrimônio único



Construído na década de 1930, o conjunto arquitetônico-urbanístico de Cipó é considerado um dos mais conservados do Brasil quando se pensa na arquitetura art déco e neocolonial. A maior parte do conjunto foi construída pelo engenheiro e arquiteto Oscar Caetano, formado na Escola de Belas Artes da Ufba.


Composto por hotéis, como Grande Hotel Caldas de Cipó e Rodium Vargas, o conjunto hospedava turistas interessados nas águas medicinais do Rio Itapicuru, assim como nos diversos cassinos que funcionavam na cidade. Outras construções como Quartel da Polícia Militar, Teatro Gênesis Salles, ruas adjacentes e a Praça Juracy Magalhães, também integram o patrimônio.


Cidade



Cipó surgiu em 1730, quando o Padre Antônio Monteiro Freire, donatário da sesmaria no sertão de Itapicuru de Cima, dirigiu uma representação ao vice-rei do Brasil, ao perceber o poder medicinal das águas que brotavam do subsolo a temperaturas que variavam de 35° a 40°. A partir daí, vários pedidos foram feito pelo padre para que fosse criado um centro de tratamento terapêutico no local.


Somente em 1829, o governo da Província mandou construir, pelo capitão-mor João Dantas, um estabelecimento de banhos nas fontes da Missão da Saúde, a um quilômetro da vila de Itapicuru, sendo concluídas as suas obras em 1833. Já em 1831, a Lei provincial nº 186 mandava construir ,no lugar denominado Mãe-d’água de Cipó, uma casa para abrigo dos doentes que procuravam aquelas fontes.


Várias tentativas foram feitas para a construção de um balneário, mas somente em 1928 foi concedida permissão para a exploração das águas, fato que ocorreu em 19 de março do mesmo ano. Esta data assinala o início do progresso de Cipó que, a 8 de julho de 1931, foi elevada à categoria de município por força de decreto estadual de nº 7.479.


Nos anos 1930, o conjunto urbanístico de Cipó foi reformulado pelo engenheiro Oscar Caetano para receber hotéis, pousadas e cassinos, construções realizadas na maior parte sob governo do presidente Getúlio Vargas, que esteve pessoalmente na cidade, em junho de 1952, para inaugurar o Grande Hotel.


A partir de então, o lugar se tornou opção turística nacional. Atualmente, a cidade não tem mais a intensa visitação das décadas anteriores, mas o tombamento permitirá que o município solicite inclusão em programas de restauração e faça do atrativo histórico mais um motivo de desenvolvimento da cidade