Caminhões carregados de sacos de algodão transitam, nessa época do ano, pelas rodovias da região Sudoeste do estado, num movimento intenso. São cargas de algodão, destinadas às usinas de beneficiamento, que enchem as tulhas de plumas brancas, antes de serem separadas dos caroços, tratadas e enfardadas para seguirem para as indústrias de transformação.
Esta é a visão que se tem ao acompanhar a colheita de algodão nos campos dos municípios de Malhada, Iuiú, Palmas de Monte Alto, Guanambi, Pindaí, Urandi, Brumado e Livramento de Nossa Senhora, localizados no Vale do Iuiú, no território Sertão Produtivo. A colheita envolve principalmente, 700 agricultores familiares beneficiados pelo Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cotonicultura no Vale do Iuiú.
Desenvolvido pelo Governo do Estado, através da Secretaria da Agricultura, Irrigação e Reforma Agrária (Seagri), o programa de apoio à cotonicultura é executado pela gerência regional da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) em Caetité.
O programa visa a recuperação sustentável da lavoura algodoeira, com o atendimento aos agricultores familiares. Para essa safra, o programa trouxe um diferencial, que consiste no beneficiamento e comercialização da produção, com a orientação da EBDA, buscando, dessa forma, maiores lucros para os produtores que optaram pelo beneficiamento orientado.
Desenvolvimento Sustentável
Como segunda maior produtora de algodão da Bahia e com um forte contingente de agricultores familiares, a região Sudoeste plantou uma área aproximada de 10 mil hectares, com produtividade média de algodão em caroço estimada em 120 arrobas por hectare, e produção total de mais de 1,2 milhão de arrobas. Deste total, 270 mil arrobas são produzidas de agricultores familiares do Programa de Desenvolvimento da Cotonicultura, que plantaram uma área de 2.100 hectares.
“Hoje, com o apoio do Governo do Estado, a EBDA reforça suas ações direcionado-as para o desenvolvimento sustentável do Vale do Iuiú, com ênfase na aplicação de tecnologias desenvolvidas para a sustentabilidade do agronegócio algodão, criando um novo paradigma, onde a qualidade será o diferencial para os pequenos agricultores”, destacou o presidente da empresa, Emerson Leal. “Pretendemos, num futuro próximo, tornar nossa contribuição mais enfática, estendendo este trabalho à fabricação de óleo e da torta do caroço do algodão, agregando ainda mais valor ao produto”, ressaltou.
Qualidade
Os cuidados com a pré-colheita, a colheita e o armazenamento do algodão têm sido alvo de preocupação por parte dos técnicos da EBDA, que vêem, nessas fases, a definição da qualidade do produto. “O valor a ser alcançado pelo algodão em fibra depende diretamente da sua qualidade e isso só se alcança com uma mudança nas práticas de pré-colheita, colheita e armazenamento”, explicou Ernesto Lacerda Lédo, um dos coordenadores do programa, na região.
Para alcançar a meta de beneficiamento, com qualidade, a EBDA firmou um contrato com uma usina da região, onde consta como responsabilidade a distribuição de sacaria, para armazenamento do algodão, a fim de que a pluma não seja contaminada por outras fibras; de barbante, para o fechamento dos sacos; e o transporte de toda a produção dos agricultores do programa que aderiram ao beneficiamento e à comercialização de sua produção.
Produtividade
A estimativa de Ernesto Lacerda é de que 40% dos produtores invistam no beneficiamento. “Este número se deve aos preços manipulados pelos atravessadores que usam essa estratégia para desestimular os agricultores”, comentou. Foram realizadas mais de 18 reuniões para explicar todo o processo e cuidados com o algodão, para manter a qualidade do produto e, conseqüentemente, melhores preços no mercado.
Para o produtor João Batista Magalhães Silva, 52 anos, da Fazenda Pajeú (15 hectares), em Guanambi, que cuida da roça com a esposa e atingiu uma produtividade de 180 arrobas por hectare, este é um ano bom. “Apesar da pouca chuva, tivemos essa ajuda do governo com sementes e adubo, as máquinas que quebraram os torrões de terra, ajudando a melhorar a produção e estão orientando a guardar melhor o nosso algodão”, avalia. João Batista está guardando o algodão, já colhido, em um quarto da casa, limpo e preparado para que este não sofra contaminação com outros tipos de fibra.
Agricultores familiares
Os cotonicultores familiares atendidos pelo Programa de Desenvolvimento Sustentável da Cotonicultura no Vale do Iuiú receberam 700 kit’s de produção, contendo fertilizante químico, semente fiscalizada, inseticida, pulverizador manual, equipamento de proteção individual e pluviômetro.
Também tiveram, nas áreas selecionadas para plantio, um preparo do solo, diferenciado, com gradagem e subsolagem - quebra da camada compactada do solo, de aproximadamente 30 centímetros de profundidade, e posterior destorroamento - permitindo, dessa forma, a penetração da água da chuva e manutenção da umidade.
No município de Malhada - distrito de Cana-Brava - onde também as chuvas foram irregulares, os agricultores estão satisfeitos com o resultado do plantio. Josué de Souza plantou 6 hectares (correspondentes a dois kits produtividade) com o genro. “Aqui, choveu apenas 418 milímetros, e mesmo assim estou colhendo uma média de 150 arrobas por hectare; tenho certeza que foi a subsolagem que permitiu essa colheita”, afirma.
Organização
Aurelizo Costa de Jesus (38 anos), também agricultor familiar do distrito de Cana-Brava, além de representante do município no Comitê Gestor, também é presidente da Associação dos Produtores de Malhada. Com apenas dois hectares de área, complementou seu plantio de três hectares em uma área cedida por outro agricultor.
“Esta é uma alternativa viável para a região, principalmente pelo apoio ao beneficiamento e comercialização da nossa produção. Este trabalho além de nos orientar, organiza o pequeno agricultor, tirando-o da mão do atravessador”, enfatizou.
O programa também prevê a assistência técnica continuada, prestada pela EBDA, em todos os oito municípios contemplados, o incentivo ao plantio, visando fixar o homem ao campo, e investimentos em pesquisa de novas variedades de algodão, mais resistentes e produtivas. Uma vantagem ressaltada por Ernesto Lacerda, quanto ao plantio, na região, é que o algodão tem muita liquidez.
“Este é um produto que, independentemente do preço, sempre tem comprador, absorve grande quantidade de mão-de-obra e é socializante – o dinheiro não fica na mão de alguns; o recurso gerado pelo algodão é totalmente distribuído entre várias camadas”, complementou Ernesto Lacerda.