Centros Digitais de Cidadania chegam a assentamentos rurais

15/09/2008

Duas décadas depois de assegurarem a posse da terra, dois assentamentos de trabalhadores rurais do Território do Sisal, na Bahia, conquistaram o direito da inclusão sociodigital.


No final de semana passada, a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), entregou dois Centros Digitais de Cidadania - munidos de dez computadores, impressora e acesso à internet banda larga - em dois assentamentos de pequenos trabalhadores rurais que, a partir de agora, podem conjugar reforma agrária com a tecnologia da informação e comunicação.


O primeiro CDC foi inaugurado, na tarde sábado (13), na sede da Associação dos Pequenos Agricultores da Comunidade de Rose (Apacor), a 12 quilômetros da sede de Santaluz.


O equipamento vai beneficiar 120 famílias do assentamento fundado em 10 de julho de 1989, cujo nome homenageia uma líder dos sem-terras, assassinada no mesmo ano, na Fazenda Anoni (Rio Grande do Sul).


No Povoado de Rose, 95% das famílias recebem o benefício do Bolsa Família. O segundo CDC, também entregue pelo secretário estadual de CT&I, Ildes Ferreira, contemplou as 154 famílias, 102 das quais de assentados, do Assentamento de Novas Palmares, a 12 quilômetros da sede de Conceição do Coité. O assentamento foi legalizado há 12 anos.


Durante a inauguração do equipamento, na sede da Apacor, a comunidade de Rose esqueceu os sofrimentos com a seca, os incêndios nos barracos de lona e a ameaça da polícia e dos proprietários de terras, que marcaram o início da ocupação dos sem-terra.


O passado de muita luta e perseguição cedeu lugar à festa e à comemoração de mais uma vitória da comunidade na defesa de seus interesses.


“Só mesmo em um governo democrático e que olha para os menos favorecidos deste estado. Estamos tendo a honra de receber um secretário de estado em uma área de assentamento, para entregar um equipamento que a maioria dos assentados nunca teve acesso e não está acostumada a utilizar”, observou o pequeno agricultor Fernando Santiago de Jesus.


Ele, como os demais assentados do Povoado de Rose, sobrevive da agricultura familiar e da criação de ovinos e caprinos e, principalmente, da renda do sisal.


O presidente da entidade, José Roque Saturnino de Lima disse que o CDC vai melhorar muito o nível educacional do povoado, incluindo as crianças, os idosos e os alunos da Escola 10 de Julho, batizada com a data de fundação do assentamento. “É uma grande vitória, sobretudo para uma área que sempre foi discriminada pela classe dominante”, afirmou Saturnino de Lima.


“Com certeza, este CDC vai ajudar a aprimorar a nossa formação, principalmente como cidadãos”, acentuou a gestora do equiapamento, Sônia dos Santos Silva, que chegou ao assentamento ainda criança.


O mesmo pensa o monitor João Silva Santos, filho de assentados. A professora Solange Pamponet, da Escola Municipal 10 de Julho, declarou que, para os assentados, “o CDC é uma coisa grandiosa e vai ser muito importante para a vida dos alunos e de toda a comunidade”.


Cordel


A inauguração dos CDC do Povoado de Rose foi precedida pela apresentação dos Grios, como são chamados os mestres da tradição oral sisaleira, com show de viola e literatura de cordel. Aluno da Escola 10 de Julho, Jildson Oliveira Souza, saudou a chagada do Centro Digital de Cidadania, com uma redação inspirada na literatura de cordel.


Colega do Jildson, William Ataíde de Jesus também fez uma redação de boas-vindas ao centro. “Agora iremos aprender a entrar e sair do mundo virtual, digitar diversos textos, dialogar com os amigos, aprender a jogar, pesquisar na internet e a passar e-mail. Os computadores irão trazer vários benefícios para a comunidade, pois, o povo daqui não precisará mais se deslocar para Santaluz e pagar pelos serviços de uma lan house”.