Uma miríade de talentos e histórias inusitadas de jovens e homens experientes, arrancados do anonimato para mostrar toda a força de sua poesia e musicalidade numa noite que se constituirá em marco da música estudantil baiana. Assim poderíamos descrever o 1º Festival Anual da Canção Estudantil, um trampolim que a alguns pode projetar à fama, mas a todos os estudantes da rede estadual de ensino leva a certeza de que sonhar uma escola melhor, mais atraente e humana é possível.
Vindos de quinze regionais concorridíssimas, os finalistas do FACE que se apresentarão nesta sexta-feira (26), a partir das 18h, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves trazem consigo características distintas e sonoridades que bem representam o quanto se pode misturar as influências locais e globais na composição musical. Do homem vivido que pouco conhece as notas musicais até o garoto cheio de personalidade artística, conhecedor do violão clássico – tais personagens vão se rivalizar por alguns instantes duma noite mágica, diante de grandes músicos e artistas consagrados.
“Eu não tive chance de aprender música e não sei nada de nota musical. É basicamente com as coisas do coração e da realidade que componho minhas músicas”, disse Gilson dos Santos, 34 anos, aluno de EJA do Colégio Estadual Manoel de Jesus, em Simões Filho. Sequer desejava continuar os estudos, mas o caminho da música que lhe foi apresentado em sala de aula fez crescer nele o desejo de ser também um dos melhores nos assuntos escolares. “E imaginar que na minha idade ainda poderia me destacar em alguma coisa”, comentava Gilson, na noite de quarta-feira (24), durante jantar no Hotel Vila Velha com o secretário de Educação, Adeum Sauer, e outros coordenadores do FACE e demais finalistas.
Enquanto jantavam os concorrentes, o conquistense Massumi, da Escola Agrotécnica Sérgio de Carvalho, pensava em como estava transcorrendo a apresentação da Orquestra Sinfônica da Bahia na sala principal do TCA. O jovem de 16 anos, compositor da “Ana Arranha Céu”, tem experiência com literatura, teatro e cinema, para os quais compõe trilhas, mas revela que está na música a sua maior paixão. “Há três anos comecei a estudar música”, conta o jovem que se apaixonou pelo Clube da Esquina mineiro e que descende, pelo ramo materno, de uma família de chorões.
Convivência
Pelo período de uma semana os finalistas do Face, inclusive os que moram em Salvador ou Região Metropolitana, ficaram hospedados no Hotel Vila Velha, no Corredor da Vitória. Durante a temporada em Salvador, tiveram aulas de canto e de expressão corporal e participaram de ensaios em estúdio e gravação do CD com as músicas do festival. Graciléa Soares Santos, de 27 anos, da Escola Prédio Escolar Dr. Manoel Novaes, em Ibicuí, diz que com as atividades os finalistas estão aprendendo a mostrar com maior desenvoltura aquilo que eles são. “Aqui ninguém imita ninguém e são muito ressaltadas as características da música do Nordeste, resgatando suas raízes”, ressaltou.
Ela entende que a iniciativa serviu para socializar todos os músicos e estudantes, e que toda a estrutura montada pela Secretaria da Educação (SEC) para acolhê-los “gera novas expectativas para que os jovens não invistam em caminhos ruins”, comentou Graciléa. A representante de Santo Antônio de Jesus, Crislane Alves, de 18 anos, do Colégio Modelo Luiz Eduardo Magalhães, ressaltou que todos vêm recebendo o mesmo carinho e atenção. “A coordenação não está preocupada com a pessoa que vai ganhar. Todos somos tratados como vencedores”, disse a autora de Amor Capaz, que há dois anos toca em igreja evangélica de sua cidade.
O velho e o novo
Trinta e cinco anos separam dois finalistas. Um é cidadão de Almadina, região de Itabuna, outra é uma menina de 13 anos vinda de Uauá, próximo a Juazeiro. Em comum, a preocupação com a natureza. Nivaldo Ribeiro fez de suas observação sobre a degradação de um rio a inspiração para compor o seu “Lamento do Almada”. Também ecologicamente antenada, a jovem Maraísa Araújo quer levar a todos o clamor de “Salve o Planeta”. A humildade é comum à maioria dos concorrentes, e a menina também não se deixa levar pelos elogios rasgados à sua voz. “Quero me manter sempre humilde, mesmo com todos esses elogios”, declarou.
Após assistir a um clipe de cada um dos finalistas, o secretário Adeum Sauer ressaltou o desejo de promover as pessoas, de levar arte para as escolas, integrando-as e realizando intercâmbio entre as regiões do estado. “Queremos uma festa que dê uma lição às escolas, mostrando que pode haver arte nelas. Os alunos precisam aprender a conviver, e a música faz isso”, comentou Sauer, para quem os estudantes já garantiram seus nomes na eternidade. E será uma eternidade de muito rock, forró, baião e combinação de cidade com sertão.