Camerata da Osba emociona jovens da periferia de Salvador

23/10/2008

Olhos vidrados, sorriso estampado no rosto e a curiosidade aguçada. Essa é a descrição das reações das 60 crianças que assistiram à apresentação de uma das Cameratas da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), nesta quinta-feira (23), no bairro de Fazenda Coutos III.


A apresentação realizada no Centro Comunitário Moradas da Lagoa, faz parte do Projeto Cultura e Lazer na Comunidade pela Paz, das Voluntárias Sociais da Bahia, em parceria com outro projeto, o Camerata para Todos, da coordenação de eventos do Teatro Castro Alves (TCA) e da Fundação Cultural do Estado da Bahia. O Camerata existe desde 1992 e leva boa música para diversas comunidades em todo o Estado.


A partir do trabalho itinerante feito no Camerata para Todos, as Voluntárias Sociais decidiram levar essas apresentações para as comunidades parceiras dos projetos da instituição com o objetivo de usar a boa música como instrumento de inclusão social. Segundo a coordenadora do projeto do TCA, Rita Perez, o objetivo principal é levar música de qualidade de forma didática. “Portanto, é mais do que apenas apresentar músicas para esses jovens”, assegurou.


Durante a apresentação do Quinteto de Metais da Osba, os jovens da comunidade de Moradas da Lagoa, mesmo tímidos, aprenderam um pouco sobre os instrumentos e ficaram emocionados ao ouvir desde músicas clássicas até canções populares como Carinhoso, do compositor Pixinguinha.


“Eu achei lindo eles tocando”, disse a pequena Gleice dos Santos, de 7anos. Já a jovem Larissa Batista, de 13 anos, disse que nunca tinha visto uma orquestra tocar. “Eu achei muito diferente, eu nunca tinha visto e gostei muito”, garantiu.


Para o presidente da Associação de Moradores de Moradas da Lagoa, Amilton Leite, é uma oportunidade única para as crianças aprenderem um pouco mais sobre música. “Nós temos um projeto de criar uma escolinha de música aqui no centro comunitário e já até conseguimos os instrumentos. Com essa apresentação, fica mais fácil as crianças assimilarem a idéia”, relatou. Amilton disse ainda que a comunidade mantém outras ações culturais como capoeira, palestras, arte e futebol com as mais de 200 crianças e adolescentes que freqüentam o centro comunitário.


“Nós estamos acostumados com outro tipo de música, mas essa mistura é muito interessante porque cultura é sempre bem vinda”, afirmou o jovem Antônio Marcos, de 16 anos, que faz trabalhos culturais na comunidade. Ele acredita que a cultura é o melhor caminho para estimular os jovens a se afastarem das drogas e da criminalidade.


Vilmar dos Santos, conhecido como mestre 'Pituba', é professor de capoeira na comunidade há 5 anos e acredita que todo tipo de arte e manifestação cultural é válida para manter os jovens longe da marginalidade. “Eles estão felizes. Essa é a maior prova de que o esporte, a cultura e a arte só trazem benefícios para os jovens de qualquer comunidade”, garantiu.


Para os músicos, além de uma experiência diferente, essas apresentações são o ponto de partida para as entidades governamentais e a iniciativa privada investirem em projetos que viabilizem a prática e o estímulo ao aprendizado musical. “Além de muito gratificante para nós músicos, isso pode estimular, sim, a musicalidade nesses jovens e daqui podem sair muitos músicos e artistas de grande porte”, declarou o músico Joatan Nascimento.


Projeto Itinerante


O projeto Camerata para Todos tem seis cameratas, que são grupos separados por tipos de instrumentos que vão desde um ‘duo de metais’ (dois músicos que tocam instrumentos de sopro) até um ‘septeto de cordas’ (sete músicos tocando instrumentos de corda), e esses grupos são formados por músicos que compõem a Osba e se apresentam de forma itinerante.


Eles fazem em média 12 apresentações por mês em escolas, museus, centros comunitários, dentro e fora de Salvador. No ano passado foram feitas apresentações em Maragogipe, Caculé, Rio do Antônio, Guanambi, além da capital e Região Metropolitana.


O grupo que se apresentou para os jovens de Fazenda Coutos foi o Quinteto de Metais da Osba, formado pelos músicos Joatan Nascimento – 1º trompete; Emerson Araújo – 2º trompete; Jorge Alves Dias – trombone; Davi Brito – trompa e Renato Pinto – tuba.


Extensão do Projeto


A idéia das Voluntárias Sociais é estender o projeto para todas as comunidades e organizações ligadas à instituição. Até agora já estão inscritas 13 comunidades. A única exigência para participar do programa é ter um espaço organizado na comunidade, uma estrutura que possa abrigar os grupos que forem se apresentar e os jovens que irão assistir às apresentações.


As apresentações têm cerca de 40 minutos de duração e além das canções, os músicos da Camerata fazem uma explanação didática sobre os instrumentos que tocam. “O que falta hoje em dia é o acesso à qualquer tipo de manifestação cultural e esse é o foco do projeto, a inclusão social”, disse a assistente social Ana Cláudia, das Voluntárias Sociais, que participa da iniciativa, diretamente com as comunidades.