Bahia realiza primeiro transplante cardíaco depois de 16 anos

16/12/2008

O primeiro transplante cardíaco pelo Sistema Único de Saúde (SUS), realizado na Bahia, depois de 16 anos, aconteceu, segunda-feira (15), no Hospital Santa Izabel, em Nazaré.


Todo o processo de identificação do doador e captação do órgão foi feito pela Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), por meio da Central de Transplante de Órgãos (CTO).


O procedimento cirúrgico, de alta complexidade, durou aproximadamente cinco horas e mobilizou uma equipe médica composta por seis cirurgiões, três instrumentadoras, quatro anestesistas e dois perfusionistas (profissional responsável pela circulação extra-corpórea). O anúncio do transplante foi feito pela equipe, nesta terça-feira (16), em entrevista coletiva à imprensa.


A paciente receptora é uma mulher de 29 anos (por questões éticas seu nome não foi divulgado) que sofria de uma cardiopatia numa das válvulas do coração e teve o diagnóstico da doença aos seis anos.


Aos 13 anos, ela se submeteu à primeira cirurgia. Como o músculo do coração já estava irremediavelmente doente, o transplante era sua única chance de sobrevivência. O doador foi um homem de 39 anos, cujos órgãos foram doados pela família.


Segundo os médicos, a paciente não executava mais tarefas simples do cotidiano como tomar banho e pentear os cabelos. Os médicos não arriscam dizer quantos anos a paciente pode viver a partir de agora, mas garantem que sua sobrevida é consideravelmente maior depois da cirurgia.


“Existem pacientes transplantados que ganham 20 anos a mais de vida”, declarou o coordenador clínico da equipe do transplante, Gilson Feitosa Filho.


O pós-operatório está sendo feito na UTI cardiovascular do hospital, aos cuidados de uma equipe interdisciplinar (médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, nutricionistas e outros profissionais). A paciente deve permanecer na unidade intensiva pelos próximos 10 dias, sob restrições de visitas devido a complexidade e riscos inerentes ao procedimento.


Segundo a equipe médica, a transplantada encontra-se com boa evolução do quadro, acordada, consciente e respirando sem ajuda de aparelhos. O cirurgião- cardíaco e chefe da equipe que executou o procedimento, Ricardo Eloy, informou que os cuidados neste período são essenciais, uma vez que o risco de infecção e rejeição do órgão, por parte da paciente, é mais freqüente nos três primeiros meses após a cirurgia.


Unidade referência


O Hospital Santa Izabel é tido como o centro de referência cardíaca do estado. Na unidade são realizados procedimentos completos que vão do diagnóstico, passando pelas cirurgias cardíacas, culminando com o transplante, anunciado nesta terça. O projeto de transplante da instituição foi planejado durante dois anos.


Desde agosto deste ano, o Santa Izabel está credenciado pelo Ministério da Saúde para realizar o transplante cardíaco. “A cardiologia no estado chega ao seu ápice”, avaliou a diretora do hospital, Lícia Cavalcanti.


O hospital abriu uma lista de espera. Por enquanto, apenas um paciente está na fila. “Uma lista só pode ser aberta quando existe um serviço já estabelecido”, informou a direção do hospital, explicando o motivo de haver apenas um paciente inscrito. “Só vai ser possível aferir a demanda a partir de agora”, esclareceu.


Para que haja transplantes são necessários, uma equipe médica capacitada, centros cirúrgicos para procedimentos de alta complexidade e o doador. “Por isso é importante o envolvimento da sociedade no processo de conscientização. Sem doador não há transplantes”, ressaltou o coordenador estadual de transplante, Eraldo Moura.


Os últimos seis transplantes cardíacos realizados no estado foram na década de 90, entre os anos de 91 e 92. As cirurgias aconteceram no Hospital Português da Bahia, também pelo SUS.


Segundo o superintendente de Atenção à Saúde da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), Alfredo Boa Sorte, a política de transplante é prioridade no atual governo. “Ampliamos 300% a captação de órgãos, aumentamos o número dos transplantes e os núcleos captadores, além de melhorar as condições de transportabilidade dos órgãos”, disse.


Válvulas cardíacas de bebê anecéfalo baiano vão para Curitiba


No Hospital Roberto Santos também aconteceu, na sexta-feira (12), a primeira captação de válvulas cardíacas de um bebê anecéfalo, que foram encaminhadas para Curitiba (Paraná).


No quarto mês de gravidez, Silvânia Araújo Lima descobriu que estava gestando um bebê anecéfalo. Mesmo assim, ela e seu marido, Ednei Souza de Jesus, decidiram levar a gestação adiante.


Evangélicos, os dois tinham um propósito nobre - deixar a criança nascer para doar o coração. O bebê nasceu no Roberto Santos, na sexta, e viveu apenas duas horas.


“Somos cristãos. Acreditamos que não podemos tirar uma vida, mesmo os médicos dizendo que poderíamos fazer isso e que o bebê não ia sobreviver e a ciência considerando legal”, justificou Ednei.


Ele disse ainda que deixou a decisão para mulher, que resolveu esperar os 9 meses. “Decidimos pela doação porque acreditamos que estamos aqui para salvar e ajudar outras pessoas. Existem outras famílias que podem não ter a mesma força e entrar em desespero, mas nós estávamos convictos”, declarou Ednei.


Segundo ele, o nome escolhido para o bebê foi Nicole que, no conceito bíblico, significa “salvadora de nações”.


Transplante em 2008


Este ano, até 30 de novembro, foram registradas 42 doações de múltiplos órgãos (sem contar com esse dois últimos). Aconteceram 31 transplantes de fígado, 67 de rim (doador cadáver e vivo) e 236 de córneas.


Em 2007 foram 44 doações de múltiplos órgãos durante todo o ano, sendo 19 transplantes de fígado, 133 de córnea e 45 de rim.