Governo decreta Festa de Santa Bárbara como patrimônio imaterial da Bahia

03/12/2008

O governador Jaques Wagner assina, nesta quinta-feira (4), decreto que registra a Festa de Santa Bárbara como patrimônio imaterial da Bahia. A iniciativa histórica reconhece, oficialmente, que essa manifestação religiosa de 300 anos, existente em Salvador, é um patrimônio vivo, dinâmico e um bem intangível cultural do povo baiano.


A festa será inserida no “Livro de Registros Especiais de Eventos e Celebrações” do Estado. A cada cinco anos o Ipac realizará revisão da manifestação cultural, já que seu dossiê tem de ser sempre atualizado e acrescido de informações.


Além do decreto público, o governo estadual, por meio do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), autarquia da Secretaria de Cultura (Secult), realizou reformas e pintura geral do mercado de Santa Bárbara, localizado na Baixa dos Sapateiros.


Também enviou projeto de restauração do Corpo de Bombeiros, cuja corporação tem a santa como padroeira, para ser apreciado e captar recursos junto à Lei de Mecenato do Ministério da Cultura (MinC).

“Além do registro, obras e projetos, foram disponibilizados recursos para a promoção da festa”, explica o diretor geral do Ipac, Frederico Mendonça. A Irmandade dos Homens Pretos – entidade organizadora da festa – receberá auxílio financeiro para a produção de camisetas votivas, decoração, ofertório e missas, e a Associação Caruru de Santa Bárbara e Sociedade Carnavalesca e Cultural Filhos do Korim-efan, valores para o caruru de 15 mil quiabos e promoção dos festejos, respectivamente.


Outros gastos de montagem de palco, barracas, camarotes, segurança, som e luz, igualmente, foram possibilitados pelo Ipac/Secult. Durante o período festivo de Santa Bárbara, os largos do Pelourinho apresentam programação especial, tendo entre as atrações Nelson Rufino, Riachão, Neto Bala, Jorginho Comancheiro e Swing do Pelô.


Registros e tombamentos


Responsável pelos estudos e pesquisas que formaram o dossiê da Festa de Santa Bárbara, o Ipac informa que o processo foi aberto desde dezembro de 2004, demorando quatro anos para ser liberado.


“A finalização do processo, produção do inventário e entrega da proposta de registro da festa para apreciação do Conselho Estadual de Cultura integra a política de melhoria dos serviços prestados pelo instituto, solicitada pelo secretário Márcio Meirelles”, explica o diretor geral do órgão.


Segundo Mendonça, a agilidade nos processos permitiu aumentar, em apenas dois anos, em mais de 50% a produção dos serviços de salvaguarda, e até de obras de restauração. No período de 24 meses foi iniciado o tombamento de mais 29 imóveis e monumentos de relevância arquitetônico-histórica para a Bahia, finalizado dois processos e registrada a Festa de Santa Bárbara.


Dentre outras ações inéditas recentes do Ipac estão a proposta de poligonal para o Centro Antigo de Caetité e o tombamento do conjunto urbanístico da Estância Hidromineral de Cipó, considerado um dos mais conservados do Brasil no quesito da arquitetura art déco e neocolonial.


Na capital baiana, o Palácio da Aclamação e os edifícios Sulacap, A Tarde e Hospital Aristides Maltez são alguns dos imóveis que passaram a ter proteção oficial do Ipac. “Em 40 anos de órgão, as edificações modernistas e o art déco nunca haviam sido tombadas pelo Estado da Bahia, transformando-se em lacunas históricas, às quais estamos resgatando agora”, explica Mendonça.


Cortejo da festa


A Festa de Santa Bárbara abre o ciclo de manifestações populares da temporada de verão em Salvador. A programação começa às 5h desta quinta-feira, com a queima de fogos de artifício na alvorada, às portas da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Largo do Pelourinho.


Às 7h, começam as orações, e às 10h, a missa campal, no largo do Pelourinho. Após as bênçãos, o cortejo prossegue pela Rua Alfredo de Britto, Terreiro de Jesus, passando em frente à Catedral Basílica, seguindo pela Praça da Sé, Rua da Misericórdia, Ladeira da Praça, até chegar ao Corpo de Bombeiros, na Praça dos Veteranos.


A imagem da santa entra na sede do Corpo dos Bombeiros, na Ladeira da Praça (Baixa dos Sapateiros), até à capela interna dedicada a ela, onde é saudada com jatos d'água e toques de sirene. A próxima parada é no Mercado de Santa Bárbara, lugar onde é servido o tradicional caruru e onde a santa permanece, retornando depois para a Igreja N.S. do Rosário dos Pretos, quando católicos e adeptos do candomblé voltam ao Pelourinho para continuidade dos festejos.


História secular


O culto à Santa Bárbara data do século XVII (1641), com a instituição do Morgado de Santa Bárbara pelo casal Francisco do Lago e Andressa de Araújo, em homenagem à filha Francisca.


Localizado ao pé da Ladeira da Montanha, transformou-se, com o tempo, em mercado. O Morgado era composto por prédios e capela, esta dedicada à santa. Após incêndio do Morgado, a imagem foi transferida para a Igreja do Corpo Santo.


Com o passar dos anos, a imagem esteve ainda nas igrejas do Paço, da Saúde, no Mercado de Santa Bárbara e, atualmente, encontra-se na Igreja do Rosário dos Pretos.


Para Mateus Torres, gerente de Pesquisa, Legislação Patrimonial e Patrimônio Intangível do Ipac, as festividades à santa revelam valores, elementos simbólicos e tradicionais. “A estética da festa é dinâmica e existe um ritual onde elementos católicos comungam com elementos de matriz africana”, revela. O modo de vestir, rezar, cantar, saudar, com sagrado e profano se confundindo, são elementos evidenciados na pesquisa do instituto.


“O profano e o sagrado relacionam-se dinamicamente com valores dotados pela comparação, contraste e contradição”, relata Torres. Segundo o Ipac, o cortejo de Santa Bárbara é o festejo popular que mais tem crescido em número de adeptos, apreciadores e turistas na Bahia.


A devoção à santa foi trazida pelos portugueses no período colonial. Ela era invocada em momentos iminentes contra a morte trágica, trovões, armas de fogo, raios, explosões e temporais, como padroeira dos artilheiros, mineiros que lidam com explosões e bombeiros que lidam com o fogo.


A liturgia católica conta que Santa Bárbara era muito bela e que seu pai, com muito ciúme, a trancou numa torre para não arranjar pretendentes. Durante viagem do pai, ela decidiu ser batizada cristã, pedindo para abrir mais uma janela na torre, como homenagem à Santíssima Trindade. Quando seu pai voltou, ficou furioso, provocando a fuga da filha. Porém, ela foi denunciada, condenada e, depois, executada por seu pai, que lhe cortou a cabeça. Após a execução, o pai teria sido atingido por um raio.


Já no sincretismo com o candomblé, a santa se assemelharia a Iansã, divindade dos ventos, tempestades e raios. Nas lendas yorubanas, Iansã foi a primeira mulher de Xangô, do qual ela roubou o segredo de cuspir fogo e chamas pelo nariz e pela boca.


Antes de ser mulher de Xangô, Iansã viveu com Ogum, de quem fugiu para viver com a divindade dos trovões e da justiça. Isso despertou a revolta de Ogum, que decidiu perseguir os dois. Numa luta com Iansã e seu rival Xangô, Ogum a dividiu em nove partes, número que está na origem do nome Iansã.