O Museu de Arte da Bahia (MAB) abre nesta quarta-feira (10), às 19h, a mostra da ceramista paulista Caroline Harari, inspirada nas tradições nordestinas da cerâmica, em especial as de Maragogipinho e do Recôncavo Baiano, considerado o maior pólo de produção cerâmica da América Latina.
A artista apresenta obras de grande beleza, como bilhas, potes, ânforas e gamelas, recriando-as em outros tipos de argila, cores e técnicas, acrescentando-lhes rendas e bordados moldados no desenho repleto de detalhes. A mostra, que conta com o apoio da Secretaria da Cultura / IPAC, tem a curadoria de Liana Bloisi e Sylvia Athayde, diretora do MAB.
Esta exposição será ilustrada por algumas obras dos artistas Carybé e Pierre Verger, considerando que ambos registraram nas suas diferentes linguagens – o desenho e a fotografia – as festas sagradas da Bahia, em particular, a do Bonfim. Segundo Sylvia, o conjunto de potes, cântaros, cumbucas e pratos, destituídos de suas funções utilitárias, referenciam a beleza do que conduz ao sagrado. São “oferendas à Bahia, aos seus artesãos, aos seus deuses e orixás” – reforça a diretora do MAB. A artista Caroline Harari estará presente à abertura da exposição no Museu de Arte, no Corredor da Vitória.
Resgatando a história
Na mostra “Oferenda” Caroline Harari estará apresentando 35 peças tridimensionais e 40 em baixo relevo, que traduzem, segundo Sylvia Athayde, a intenção do Museu de eleger a cerâmica como uma das mais ricas manifestações da cultura brasileira, e , ao mesmo tempo resgatar a herança de um passado nas suas formas de produção, que sobrevive no Recôncavo Baiano.
Caroline Harari, paulista, formada em História pela USP, especializou-se em Arqueologia e Restauração Patrimonial e foi em busca da sua vocação artística começando a fazer cerâmica no ateliê de Lais Granato. E, lembra Sylvia,“ como todo artista tem que ser bom artesão” (Mário de Andrade), Caroline meteu a mão no barro, pesquisando as argilas à procura de resultados de qualidade, submetendo as peças à alta temperatura, garantindo, assim, ao trabalho uma certa permanência no tempo”.
A simplicidade das peças de Caroline resulta em uma obra de extrema sofisticação que une a teoria acadêmica à prática, segundo sintetizou a antropóloga Maria Lúcia Montes. A artista procurou compreender os materiais, as técnicas e as formas das tradições de todos os povos do mundo, das civilizações pré-colombianas da América aos diferentes povos africanos, que estão na raiz da formação de nossa história e cultura. No caso dessa exposição, a arte que veio com os ancestrais da África para a Bahia foi preservada graças aos trabalhos dos artesãos do Maragogipinho, Coqueiros, Irará, Rio Real e Ilha de Maré, entre outros.
A cerâmica desde sempre fez parte desse mundo, apenas o barro e o trabalho da mão humana foram suficientes para criá-la. Por milênios- lembra Maria Lúcia Montes- civilizações inteiras produziram com ela desde a casa onde abrigar o homem até os utensílios de guardar a água , cozer e servir o alimento, transportar as oferendas a seus deuses e enterrar seus mortos.
E prossegue – são objetos simples, de formas despojadas, que estranhamente conheceram apenas algumas variações entre povos e culturas distantes. Eis o que Caroline Harari sabe, por haver-se dedicado à pesquisa, exaustivamente, da produção cerâmica, da qualidade do barro aos processos de queima para reconfigurar o saber tradicional e alcançar, enfim, a inacreditável leveza de suas peças, produzidas com a mais moderna e sofisticada tecnologia, mas sem perder contato com as raízes profundas de sua criação no Brasil.
Por isso mesmo, foi nessas peças que, aos poucos, ela passou a introduzir também outro elemento de raiz em nossa cultura, as rendas e os bordados de origem européia, imprimindo diretamente na forma moldada seus elaborados desenhos. Daí resultaram essas criações originalíssimas, onde às vezes, o próprio barro se converte em renda ou bordado, nele cria delicadas incisões e relevos de um barrado como se ali fosse gravado de modo aleatório.
"Nessa exposição, o público poderá apreciar as diferentes peças de cerâmica, as mais finas rendas de bilro, ou, inscrito no pote, no jarro, o mesmo “ richelieu” que orna saias, “ camisus” e “ ojás” em dia de festa de orixá nos terreiros da Bahia ou na cerimônia da lavagem do Bonfim, mostradas também nos desenhos de Carybé e nas fotos de Pierre Verger que ilustram essa exposição.”