Após um hiato de 40 anos, a exposição Fragmentos: Artefatos Populares, o olhar de Lina Bo Bardi inaugurou, nesta terça-feira (17), a Sala Lina Bo Bardi, no Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho. Há quatro décadas, esta mesma coleção foi impedida de ser exposta pelo regime ditatorial militar, instalado no Brasil em meados dos anos 60.
“A arte do povo assusta os generais”, bradou o jornal L’Expresso em 1965, após ver a exposição Nordeste ser barrada também na Itália por causa de proibição do Itamaraty. Nascida no berço da cultura ocidental, essa arquiteta de Roma se encantou pelo Nordeste e pela produção natural e original do nordestino.
Há cinqüenta anos, o acervo, garimpado por Lina durante suas andanças pelo Nordeste brasileiro, entre os anos 50 e 60, tinha então duas mil peças e foi exposto pela primeira vez durante a 5ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1959. Restaram 800 objetos que foram guardados por pesquisadores, museólogos e instituições públicas ao longo desses anos e que podem ser conferidos pelo público agora, numa iniciativa da Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural (Ipac), órgão da secretaria de Cultura.
“Nossa intenção é preencher uma lacuna, valorizando a cultura popular e o legado deixado por Lina”, explica Daniel Rangel, diretor de Museus do Ipac. Ele conta que a ideia é fazer do espaço um centro de referência da cultura popular, em que o povo se identifique e que possa, a partir disso, criar possíveis desdobramentos para arte.
Estão dispostos em um palco-arquibancada votos e ex-votos confeccionados em madeira, vasos de barro e cerâmica, orixás, santos, objetos figurativos em flandres, roupas e acessórios de couro que demonstram o quanto ela via arte naquilo em que todos viam simples objetos do dia-a-dia.
A artista
“Para compreender a arte de Lina é preciso conhecer a vida dela”, diz André Vainer, arquiteto que trabalhou com Lina entre 1977 e 1986 e é, juntamente com Daniel Rangel e a museóloga Mary do Rio, um dos responsáveis pela exposição.
Nascida em 1914 numa Itália do pós-guerra, ela veio para o Brasil impregnada pelo ideário de reconstrução e adotou a pátria brasileira como sua e mostrou o povo brasileiro para o Brasil.
Lina Bo se formou (1939) em arquitetura em Roma. Mudou-se para o Brasil em 1946 com o marido, o crítico e historiador de arte Pietro Maria Bardi, e fixou residência em São Paulo. Foi naturalizada brasileira em 1951 e em 1958 convidada pelo governador da Bahia, Juracy Magalhães para dirigir o Museu de Arte Moderna, sendo a sua primeira diretora e responsável pelo projeto de reforma do Solar do Unhão.
“É uma justa homenagem à grande mulher que foi Lina, pela sua personalidade, pelos seus pensamentos e por tudo o que fez pela arte popular nordestina”, exclama a museóloga Mary do Rio, “guardiã” do atual acervo, que manteve guardado em salas de instituições públicas sem nunca desistir do sonho de vê-lo exposto mais uma vez. “O povo merece, que se veja e que seja visto”, concluiu a persistente senhora de mais de 70 anos ao olhar com carinho para os objetos que cuidou por quase 30 anos.