Apesar de avanços específicos em cada unidade, a situação do livro na Bahia não é muito diferente da vivenciada em outros estados do Nordeste. Esta foi uma das principais perspectivas defendidas no 2º Fórum da rede Nordeste do Livro e da Leitura, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado, por meio da Fundação Pedro Calmon, esta semana, na 9ª Bienal do Livro Bahia, no Centro de Convenções.
O encontro deu continuidade aos debates que ocorreram em novembro do ano passado, durante o “Ciclo de Debates: questões do livro e da leitura”, em Fortaleza (CE), e na Reunião de Gestores Editores e Livreiros realizada em março deste ano, no estado de Pernambuco.
“Este Fórum foi um momento de reflexão do que temos enquanto Bahia e região Nordeste em relação à cadeia produtiva do livro e fomento à leitura, visando ações conjuntas e futuras neste setor”, disse o secretário de Cultura, Márcio Meirelles.
Em meio a um espaço onde o livro e a leitura são as palavras de ordem, o Fórum aconteceu como um espaço de debates sobre a cadeia produtiva do livro, do autor até o leitor, e contou com a participação de autores, editores, livreiros, bibliotecários, gráficos e distribuidores, dentre outros representantes do setor livreiro na Bahia e de sete estados da região.
Os panoramas traçados pelos representantes tiveram diversos pontos em comum. Dentre eles, destaca-se a dificuldade de distribuição. “O muro da distribuição torna invisível toda a produção literária atual da Bahia. E os limites desse muro são ainda maiores que as fronteiras geográficas do Estado”, criticou um dos representantes da Bahia, Aurélio Schommer.
Escritor e presidente da Câmara Baiana do Livro (CbaL), Schommer destacou ainda a competitividade da produção nordestina diante das grandes redes de distribuição. “Os livros didáticos sobre História e Geografia da Bahia, de adoção obrigatória nas redes pública e particular, por exemplo, são editados e impressos fora da Bahia”, lamentou.
Competitividade
De forma semelhante à situação criticada por Schommer, o representante do estado do Maranhão, Adalberto Franklin, afirmou que, “em geral, a Secretaria de Educação dá preferência a livros que são editados no eixo sul-sudeste, mesmo quando se tratam de temas regionais”.
Ressaltou também que não há nenhuma distribuidora de livros no estado. “O Maranhão tem um dos menores índices de leitura do país e um dos maiores no que tange ao analfabetismo”, avaliou Franklin.
Para Abimael Silva, representante do Rio Grande do Norte, “a parte mais difícil é fazer o livro sair do estado. As livrarias não costumam ter muito interesse em livros de autores regionais”, enfatizou.
Representando o Ceará, Mileide Flores expôs alguns dados acerca da realidade do livro e da leitura da região. Somente 28% dos leitores do país estão no Nordeste. Aqui, lê-se 4,2 livros por ano, sendo que 3,6 desses livros são na escola. “A concentração de livros é muito maior que a concentração de renda no Brasil”, destacou.
Para o coordenador de Articulação Federativa do Programa Mais Cultura do MinC, Fabiano dos Santos, o país vive um momento único neste sentido. “Este Fórum é um caminho para pensarmos estrategicamente um movimento articulado e integrado na região Nordeste. São dois pilares que iremos sustentar: o interno, com o fortalecimento da cadeia produtiva do livro em toda a região, e o externo, com a criação de melhores mecanismos de escoamento desta produção regional”.
Ele salientou a necessidade de se avançar nas legislações referentes ao livro em cada estado. Diante dessa conjuntura, o secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, João Castilho, ressaltou que “a conquista de leitores é o centro de todas as ações, principalmente nos centros onde se encontram as maiores dificuldades, como é o caso da região Nordeste”.
Panorama na Bahia
Em 1890, havia, no total, 10 livrarias em Salvador. Hoje, 119 anos depois, há somente três a mais. Quando se estende para o Brasil, este número sobe para aproximadamente mil livrarias, segundo a Câmara Brasileira do Livro.
Para o diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, Ubiratan Castro, essa situação se agrava porque “raramente os livros são divulgados, resenhados e criticados pela mídia local. E, assim, é como se os livros aqui não existissem”, criticou o professor.
A FPC investiu aproximadamente R$ 180 mil em editais pioneiros para editoras, e o estado tem buscado mecanismos para financiar e apoiar a cadeia produtiva do livro, por meio de ações de estímulo à leitura em municípios baianos.
A partir das discussões promovidas pelo Fórum, pretende-se criar subsídios para a formulação de uma lei estadual do livro. O estado de Sergipe, por exemplo, já dispõe, desde 6 de abril de 2009, de uma lei sobre a criação da política estadual do livro, que visa estimular o desenvolvimento cultural e a criação artística e literária, reconhecendo o importante papel do livro na formação educacional e cidadã.
“Neste momento, o estado entende a responsabilidade diante desta regulamentação. Criar uma lei estadual do livro na Bahia representa um avanço histórico no que diz respeito a um dos mais fundamentais direitos do cidadão, que é o direito à cultura e à informação”, disse o secretário Márcio Meirelles.
Ações
A criação desta Lei Estadual do Livro e da Leitura será a responsabilidade do grupo de trabalho formado a partir do decreto assinado pelo governador Jaques Wagner no dia 17 deste mês.
O GT será composto pela Agência de Fomento do Estado da Bahia (Desenbahia), Empresa Gráfica da Bahia e secretarias da Indústria, Comércio e Mineração (Sicm), da Fazenda (Sefaz), da Educação (SEC) e Cultura (Secult), representada pela Fundação Pedro Calmon.
Já a sociedade civil, será representada pela Câmara do Livro, Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge).
Dentre ações que serão pensadas pelo GT estão estratégias como criação de linhas de crédito para editoras, livrarias, distribuidores, criação de um fundo para a leitura, integração da produção livreira com a indústria e o comércio, fomentando a economia do livro e levantamento de indicadores na área do livro e da leitura, além de outras demandas.
“O 2º Fórum possibilitou a integração de ações em toda a região Nordeste e nos subsidiou para a formulação desta Lei Estadual, que será construída, portanto, de maneira conjunta. A Bahia se coloca, agora, em uma posição estratégica frente ao mercado do livro no Brasil”, afirmou o diretor-geral da Fundação Pedro Calmon, Ubiratan Castro.