Curso capacita jovens na confecção de trajes para o Povo de Santo

01/09/2009

Saia de ração ou axó. Saias coloridas, brancas, de algodão ou de richelieu. Batas, camisus, torço ou ojá. Panos-da-costa ou alaká. Peças incomuns, cujo uso deve ser bastante específico no ornamento do corpo. Aprender a confecção desses trajes especiais para atender à demanda do Povo de Santo é a oportunidade que jovens da comunidade de São Gonçalo do Retiro, bairro pobre de Salvador, terão em mais uma edição do Curso de Arte e Costura Afro, a partir deste mês. Esta é uma ação da Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza (Sedes), em parceria com Associação Solidários pela Vida (ASV).


Na primeira edição do curso, encerrada com festa no último dia 29 de agosto, os alunos aprenderam que todos esses trajes possuem técnicas de corte e costura seculares e estão para além da moda ou elementos decorativos. São indumentárias ligadas ao uso sagrado nos rituais do Candomblé, que consagram as personalidades dos Orixás ou simbolizam os laços emocionais com uma pátria da qual foram arrancados os ancestrais da diáspora negra.


“Muita gente usa o ojá e não sabe o sentido disso”, disse o aluno de corte e costura afro, Leonardo Fernandes, 21 anos, referindo-se ao torço que as religiosas de matriz africana usam na cabeça. Segundo o jovem, não é comum um curso de corte e costura especificamente voltado para ao costumes de povo de terreiro. “Foi uma oportunidade de conhecer melhor sobre a cultura afrobaiana e a indumentária de cada Orixá”, ressalta. Assim como outros alunos, ele pretende, em breve, comprar uma máquina de costura para garantir a sua autossustentabilidade e contribuir com a preservação dos costumes das comunidades de terreiro.


Reafirmação


“Ensinar e aprender a confeccionar esses figurinos também é religião”, disse a ekedi e professora do curso, Terezinha Bárbara Ferreira. Ela destaca que esta é uma oportunidade de muitos jovens negros e pobres reafirmarem suas origens e resgatarem a história construída pelos seus ancestrais. O projeto, orçado em aproximadamente R$ 144 mil, além de corte e costura afro, também desenvolveu várias outras oficinas ligadas à cultura afrobaiana, como artesanato em palha da costa, macramê, bordados e aproveitamento de retalhos.


Além disso, os 80 jovens beneficiados com o projeto foram capacitados em gestão de cooperativismo, monitoramento da produção e comercialização dos produtos. “Essa ação faz parte da política de juventude do Estado, cujo objetivo maior é ensinar aos jovens a transformar essas oportunidades em crescimento e protagonismo”, disse a superintendente de Inclusão e Assistência Alimentar da Sedes, Ana Torquato.


“Somos guerreiros. Investir em gente não é fácil, porque temos que vencer muitos obstáculos até construir uma alternativa”, disse a presidente da ASV, Terezinha Simoa, referindo-se à vitória sobre as referências a que as juventudes pobres estão sujeitas no seu dia-a-dia, como o tráfico de drogas e outros tipos de violência.