Fé, arte urbana e simbolismos tradicionais e contemporâneos se misturam na mostra Agdás Urbanos na Contemporaneidade, do artista visual baiano Denissena, a partir de quinta-feira (20), às 19h, no Museu da Cerâmica Udo Knoff (Pelourinho). Na exposição, a relação entre o contexto da cidade e a iconografia do candomblé ganha destaque através do grafite e dos agdás – vaso cônico feito de cerâmica.
Promovida pela Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Dimus/Ipac), a montagem reúne 24 peças que retratam o universo religioso de matrizes africanas e indígenas.
“A cerâmica, que é um elemento normalmente utilizado apenas por ceramistas, vira suporte para o grafite de Denissena, reunindo tradição e contemporaneidade, religião e arte”, disse o diretor de Museus do Ipac, Daniel Rangel.
“A correria do dia-a-dia não deixa as pessoas reconhecerem o valor do grafite e da religiosidade expressa nas oferendas às divindades que são colocadas nos agdás. Quando inserimos esses dois elementos em um museu, um lugar dedicado à arte e à contemplação, eles ganham outro status. Cria-se uma oportunidade para que as pessoas cultivem um outro olhar e se desprendam um pouco de seus preconceitos”, afirmou Denissena.
Em Agdás Urbanos na Contemporaneidade, Denissena mostra ao público o fruto de quase dez anos de pesquisa e imersão no universo do candomblé de nação Angola, trazendo elementos de identidade da religião.
A tradicional cerâmica é o suporte de todas as criações. Além de ter uma função culinária (no preparo de moquecas, por exemplo), é um objeto muito presente em liturgias, utilizado em rituais de oferendas aos orixás. Estabelecendo uma ligação entre a contemporaneidade e as tradições religiosas, o agdá, variação do termo alguidar, é policromado por meio da técnica do grafite.
Relação com as divindades
O artista recorre a variados elementos que mantêm relação com as divindades: cores, como o vermelho de Xangô, o branco de Oxalá, assim como objetos que fazem parte da iconografia: o arco e a flecha de Oxóssi ou as folhas de Ossaim.
Outros elementos do cotidiano também servem de metáfora para o significado de cada entidade. Assim, o telefone simboliza Exu, o orixá mensageiro, o fósforo representa Xangô, que tem o fogo como elemento, e os gêmeos erês (cuja palavra significa ‘divertimento’) são representados por brinquedos – bonecos da linha Playmobil.