Exposição reúne Ramiro Bernabó, Ediane do Monte e Naco Salles

Publicado: 05/07/2010 Última atualização: 05/10/2026 às 14:07

Para as antigas religiões, o barro é a origem do corpo humano. Deste contexto surge a etimologia do nome Adão, do hebraico, relacionado à adamá, que quer dizer solo vermelho. Tal percepção de criação, que mistura a transformação de elementos naturais e a ascendência das formas, motivou o encontro de três amigos na exposição Alquimia do Barro e das Formas, no Museu da Cerâmica Udo Knoff (Pelourinho). Donos de uma longa e irreverente trajetória artística, Ramiro Bernabó (filho do artista plástico Carybé), Ediane do Monte e Naco Salles apresentam na montagem algumas de suas inúmeras obras: todas sustentadas na ideia de uma arte livre e na relação quase ritualística com a argila. Promovida pela Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Dimus - Ipac), a mostra tem abertura na quinta-feira (8) e permanece em cartaz até o dia 06 de setembro.

Segundo Ramiro Bernabó, "a alquimia vem como sinônimo de Gestalt [teoria da psicologia, do século 19, que possibilitou o estudo da percepção] das formas, pois levamos em conta o modo com que cada um de nós três faz seus caminhos com o barro. O jeito de criar cada peça vem desse processo, dessa gestação".

Os artistas: Olhares que se encontram

Ramiro Bernabó - "A minha arte é fruto de sentimentos primitivos; uma arte desgarrada", afirma o artista, na tentativa de descrever um trabalho que, hoje, exige dedicação integral. "Não tenho tempo para fazer outra coisa", completa. Filho de Hector Julio Paride Bernabó - o consagrado pintor Carybé (1911/1997), Ramiro chegou à Bahia aos 4 anos de idade, em 1951, vindo com o pai da Lanús, Argentina, onde nasceu.

Fez seus primeiros desenhos em 1966, influenciado pelos artistas que conheceu na Bahia, a exemplo de Pancetti, Jenner Augusto, Mario Cravo, Mirabeau Sampaio e, sobretudo, do próprio Carybé. Desde então, procurou pecorrer caminhos desafiadores, mantendo uma relação cada vez mais íntima com suas obras que, logo à primeira vista, revelam o resultado de uma produção vigorosa, com forte poder de expressão e personalidade inconfundível. E é a busca do novo que alimenta a sua criatividade. "O que eu mais gosto no barro é conviver com as infinitas possibilidades que ele oferece. São milhares de técnicas que sempre dizem: você nunca vai chegar lá", enfatiza.

Ediane do Monte - Apesar de ter nascido em Maceió [Alagoas], em 1954, a artista veio para Salvador muito cedo, já em seu primeiro ano de vida. Por influência do pai, desde pequena se interessou por cerâmica popular, com um particular olhar direcionado às peças de Mestre Vitalino - ceramista popular brasileiro famoso por mostrar em seus bonecos de barro a cultura do povo nordestino. Inspirada nesta realidade, a alagoana parece trabalhar com a ideia de revelação em suas peças. "A minha intenção é trazer a força do barro, deixar que ele apareça. A sociedade gosta de esconder tudo. Com o barro eu faço o contrário: o deixo ser", afirma Ediane, ao falar sobre o exercício de desapego artístico que parece praticar. "Há uma lei em meu trabalho: a indeterminação e o acaso devem ser a grande aventura", complementa.

Guiada pelo que ora ela chama de inspiração, ora de revelações, a expositora já passou por mostras coletivas e individuais, entre Salvador, Alagoas e Alemanha - país onde morou por longos anos, no qual chegou, inclusive, a ministrar cursos de arte. Mas foi em terras brasileiras [Alagoas] que resolveu montar, em 1997, um espaço de cerâmica para famílias de baixa renda que, posteriormente, originou a Galeria Frida Kahlo - pintora mexicana que também pode ser vista, hoje, em uma gravura presente na entrada do atelier da ceramista, em sua casa.

Naco Sales - Típica figura do recôncavo baiano, Naco Sales nasceu e se criou em Maragogipinho, onde teve contato com a cerâmica desde garoto. Filho de família pobre, onde o barro era meio de sobrevivência, começou a desenvolver peças em cerâmica com o objetivo de ajudar no sustento da casa. Porém, seu trabalho destoava da produção desenvolvida naquela região, que buscava o rebuscado para fins comerciais e utilitaristas. Seguindo o mesmo ritmo dos amigos de exposição Alquimia do Barro e das Formas, o artista autodidata também optou pela produção livre e não-convencional.

Assim, com o trabalho pouco compreendido entre seus conterrâneos, resolveu dar um tempo da cerâmica, indo morar em São Paulo, cidade onde viveu boa parte da vida. Na década de 90, de volta à Bahia, conhece Ramiro Bernabó, que logo se encantou com o seu potencial artístico, incentivando-o ao retorno da produção em cerâmica. Como de costume, destacou-se pelo talento e pelo compromisso com a arte. "Naco é único em tudo o que faz", reforça Ramiro.

Museu Ceramista Udo Knoff

Único do gênero no Brasil, o Museu da Cerâmica Udo Knoff preserva e expõe o acervo de azulejaria e cerâmica reunido pelo ceramista alemão Horst Udo Knoff. Possui obras de autoria do artista, além de peças de sua coleção - azulejos portugueses, espanhóis, franceses, ingleses, holandeses e italianos. Estas últimas, expostas na mostra de longa duração Azulejos de Udo, no primeiro andar do museu. No térreo, ficam em cartaz as exposições temporárias.

O imóvel foi adquirido pelo Ipac em 1992 e é uma construção originária do século 18. Possui janelas e portas emolduradas em pedra de cantaria, além de conversadeiras no seu interior, espaços onde, originalmente, costumavam ocorrer os encontros familiares.