Aos 41 anos, Maria de Lourdes dos Anjos Pires está cursando a 7ª série. Não esconde a satisfação por ter tomado coragem de voltar para a sala de aula há quatro anos, estimulada pela chegada da Educação para Jovens e Adultos (EJA), programa implantado no Assentamento Nova Esperança, localizado no município de São Félix do Coribe, a 1.045 quilômetros de Salvador.
A cidade é uma das 11 que integram o Território de Identidade da Bacia do Rio Corrente, no oeste baiano. Nesta quinta-feira (14) foi realizado no território a plenária do Plano Plurianual (PPA) Participativo 2012-2015, no Centro Territorial de Educação Profissional da Bacia do Rio Corrente, no município de Santa Maria da Vitória (a 989 quilômetros de Salvador).
Representantes da sociedade civil organizada e dos poderes públicos debatem sobre as demandas do território e apontam quais as prioridades a serem inseridas no PPA 2012-2015, instrumento de planejamento que está em fase de elaboração pelo Governo do Estado.
O secretário do Planejamento, Zezéu Ribeiro, que participou dos trabalhos da plenária desta quinta, enfatizou o processo de construção do PPA Participativo por meio de um diálogo qualificado. Segundo ele, para garantir a efetividade das diretrizes estratégicas, deve ser firmado um “pacto onde tenha comprometimento do Estado com a execução e mecanismos de controle institucional e também por parte da sociedade”.
O secretário de Relações Institucionais, Cézar Lisboa, enfatizou a importância do diálogo qualificado nas plenárias, onde estão reunidos representantes de diversos segmentos da sociedade civil organizada. Para ele, o PPA Participativo está sedimentado em três pilares básicos: noção de desenvolvimento, inclusão social e democracia.
A professora Marlene Nery de Novaes expressou seus anseios em relação ao planejamento da Bahia em “mais qualidade na educação, na aprendizagem, e ter mais recursos (para a educação)”.
Construção do futuro
Todo cidadão pode contribuir para a elaboração do PPA, por meio do site do Plano. No endereço, pessoas como a agricultora Maria de Lourdes podem expressar suas sugestões para a construção do futuro da Bahia. Para ela, a educação é fundamental.
Mãe de quatro filhos, três em idade escolar (16, 12 e 10 anos), afirma que após realizar o grande sonho de todo agricultor - ter a própria terra -, agora sua luta é para que os filhos estudem. Da mesma forma que ela, os filhos estão matriculados na escolinha do assentamento. A unidade tem três salas de aula e atende a 40 famílias – cerca de 150 pessoas – que moram no assentamento. Porém deseja mais. “Quero que minha filha faça faculdade. Vou ter que conseguir uma casa para ela morar na cidade”, planeja.
Sugestões para implantação de escolas, faculdades, cursos profissionalizantes, entre outras necessidades podem ser indicadas pelo site na internet durante o PPA Participativo, que se estende até o final de maio. Valmira Queiroz, representante do Conselho de Desenvolvimento Territorial do Rio Corrente, observou a necessidade de instalação de uma universidade pública na região, além da construção de um hospital regional.
Principais propostas
Participaram da plenária de Santa Maria da Vitória 232 inscritos. O estudante de teatro, Robson Vieira dos Anjos, 25 anos, participou do grupo de Cultura, Ciência e Tecnologia, Copa 2014 e Gestão Democrática. Ele pontuou as principais sugestões. “Pensamos em propostas que pudessem contemplar o território inteiro como um centro cultural para o território e um museu territorial”.
Porém, observa o estudante, a sugestão ultrapassa a mera implantação de um centro cultural, museu ou sala de cinema. “Pensamos a possibilidade de formar atores aqui, valorizando o lugar onde moram e o espaço em que estão inseridos”, explica. No campo da tecnologia foi proposta a criação de um instituto de pesquisa, com foco no bioma da região, que é o cerrado.
Vários aspectos da educação foram demandados da plenária que tratou do tema. Luiz Ricardo Braga, coordenador pedagógico da Diretoria Regional de Educação (Direc) de Bom Jesus da Lapa, que congrega nove municípios do Território de Identidade da Bacia do Rio Corrente, elenca algumas propostas do setor.
No ensino profissionalizante, foi solicitada estruturação de centros territoriais que atendam as demandas de todos os municípios do território, disseminando o conhecimento profissionalizante. Foi recomendada ainda a inclusão no PPA de ações de incentivo à educação profissional, abertura de uma universidade pública, criação de um polo da universidade aberta e políticas de valorização do profissional do campo e para o campo.
Mais sugestões
O agricultor Felismino Tavares dos Santos, 44 anos, membro do sindicato e da associação de agricultores da região, também apresentou propostas. “Com o PPA a gente pode falar o que está ruim, o que precisa melhorar. O meio ambiente está muito destruído, tem garrafa plástica para todo lado, sugerimos que o assunto seja tratado com mais seriedade nas escolas”.
O professor José Valter dias da Costa, 45 anos, está participando das discussões sobre Educação. Pela primeira vez acompanhando o PPA, ele acredita que a iniciativa seja o caminho adequado para se melhorar a qualidade da educação nas escolas da região. “É uma forma de democratização, de levar a todos a proposta de participar de um plano em que a pessoa está inserida e tem a oportunidade de ver o seu projeto realizado. É uma proposta que parte de baixo para cima, e não de cima para baixo”.
Publicado às 11h15
Atualizado às 20h10