Demonstrações de fé e amor marcaram o ponto alto da Lavagem do Bonfim: a chegada da procissão das baianas e autoridades ao adro da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim. Após a caminhada de oito quilômetros, sob o impacto do intenso calor, o governador Jaques Wagner e a primeira-dama, Fátima Mendonça, selaram com um beijo a participação no evento, ao serem abençoados pelas baianas com um banho de água-de-cheiro.
“Estamos de alma e corpos lavados e com muita fé de que agora tudo vai ser melhor”, declarou Wagner. Ao som do Hino do Senhor do Bonfim, ele cumprimentou a multidão em frente à igreja, recebendo aplausos e votos de prosperidade. Empossado em 1º de janeiro, Wagner, que sempre fez questão de participar da Lavagem antes de ser governador, agora integrava pela primeira vez o cortejo oficial do Estado. Segundo dados da Polícia Militar, cerca de 1,5 milhão de pessoas, entre baianos e turistas, participaram do evento.
Entre os populares, o casal de bailarinos Aidan Santos, 21 anos, e José Nyambé, 25 anos, também encontrou um jeito especial de comemorar mais uma participação na Lavagem do Bonfim: só que ao invés da água-de-cheiro, eles se beijaram após um banho de milho branco dado pelas baianas que participavam da lavagem. “Nos traz a paz de Oxalá”, explicou Nyambé, referindo-se ao orixá que representa o Senhor do Bonfim no candomblé.
A dona-de-casa Ana Maria Santos, 53 anos, chegou cedo e ficou esperando as baianas e autoridades nas escadarias da igreja, o que só aconteceu por volta do meio-dia. “Só saio daqui depois que eles chegarem e todos nós, juntos, fizermos uma homenagem ao Senhor do Bonfim”, disse. Sentada entre as baianas, ela se protegia do sol usando a barra da saia de uma delas. “Não deixa de ser uma proteção extra”, afirmou.
A participação da nova equipe do governo na Lavagem animou Ana Maria. “É bom que eles tenham fé e venham aos pés da Igreja para que sejam protegidos pelo Senhor do Bonfim e alcancem sempre vitórias”, disse a dona-de-casa. Ela passou a ser “ainda mais devota” do Senhor do Bonfim, depois que alcançou graças na proteção dos quatro filhos, após ter tido o quinto filho assassinado, há dois anos, vítima da violência no bairro de Santa Mônica.
Cor da Fé
O comerciário Valnir da Silva, 53 anos, foi um dos fiéis que se ajoelharam em frente à igreja, fazendo uma prece e amarrando, em seguida, uma fitinha do Senhor do Bonfim no gradil. “Há 20 anos faço isso. Cada vez com mais fé, principalmente depois que consegui me curar do alcoolismo”, revelou. Ao final do dia, a repetição do gesto pelos fiéis contribuiu para ressaltar o colorido das fitas no cenário predominantemente branco, pelo fato dos devotos usarem a cor branca em homenagem ao Bonfim/Oxalá.
“Estou encantada com tanta mistura de fé expressa através de religiões diversas nessa Lavagem”, declarou a turista Rejane Reis, 37 anos, natural de Florianópolis, Santa Catarina. Produtora de eventos, ela não parava de fotografar as baianas e os fiéis, tanto do catolicismo, quanto do candomblé.
A gravação do clip pela cantora Mariene de Castro, dançando entre as baianas, foi outra atração à parte no largo da igreja. “É meu primeiro disco e, como devota do Senhor do Bonfim, quis gravar aqui”, afirmou. Outro artista que se destacou foi o comediante Renato Piaba. Ele participou das homenagens, travestido de baiana.
Histórico
A Lavagem do Bonfim é considerada a segunda maior manifestação popular da Bahia, perdendo apenas para o Carnaval. O ritual, que se repete todos os anos, acontece sempre na segunda quinta-feira do mês de janeiro.
A tradição remonta à inauguração do templo, em 1754. A lavagem das escadarias foi iniciada pelos romeiros e escravos que, a mando dos senhores e integrantes da Irmandade do Senhor do Bonfim, limpavam e enfeitavam a igreja para a festa no domingo, após o Dia de Reis (6 de janeiro).
Os rituais católicos duram dez dias e começam com o novenário. No encerramento, acontecem as missas solene e campal. A devoção dos nobres ao Senhor do Bonfim uniu-se à devoção dos escravos africanos a Oxalá. Durante a festa, os baianos se vestem de branco em homenagem a Oxalá, fazendo com que a lavagem seja considerada a maior demonstração do sincretismo religioso dos baianos.