Paz mundial: desejo manifestado na maior festa religiosa da Bahia

Publicado: 16/09/2007 Última atualização: 05/10/2026 às 14:07

A maior manifestação da fé e da cultura baianas, a Lavagem do Bonfim foi novamente uma homenagem e um apelo à paz mundial. Dando início às comemorações, uma cerimônia inter-religiosa reuniu no adro da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, pelo terceiro ano consecutivo, seguidores do candomblé, católicos, judeus, muçulmanos, espíritas e protestantes. Após o culto, o governador Jaques Wagner seguiu com o cortejo em direção à Igreja do Bonfim.



Para Wagner, participar da Lavagem do Bonfim é fazer parte da maior manifestação popular de sincretismo e fé. “É um momento de reflexão”, afirmou. Ele disse que o governo da Bahia tem que estar junto ao povo e que este é um momento especial. “É a primeira vez que o prefeito João Henrique caminha ao lado de um governador aliado dele, querendo ajudá-lo a melhorar as festas e a vida do povo de Salvador”, explicou o governador.



“Esta festa é música, dança, religião. São várias manifestações, individuais ou coletivas, que se agregam”, destacou o secretário da Cultura, Márcio Meirelles. Segundo ele, o evento não é apenas religioso. “É muito mais amplo e complexo, uma identidade da Bahia que precisa ser preservada para e pela população”, disse.



O diretor-conselheiro do afoxé Filhos de Gandhy, Waldemar José de Souza, 60 anos, há 23 participa da Lavagem do Bonfim. Ele afirmou que a história de Salvador se imprime através das relações iniciadas, desde a sua fundação, pelas suas manifestações festivas. “Todo esse povo está aqui, independente de religião, crença, filosofia, manifestando-se pela paz, que só pode ser edificada a partir de momentos como esse”, ressaltou.



Além do cortejo, formado por cerca de 500 baianas, aproximadamente 100 entidades religiosas e culturais participaram do culto e do desfile até a Igreja do Bonfim. Entre elas, estavam representantes do terreiro Ilê Axé Ogunjá Tiluaiê Orubaia, o afoxé Filhos de Gandhy, a Irmandade da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o Coral da Cidade e o Centro Espírita Luz e Caridade, além de bandas de sopro, charangas, agremiações carnavalescas e grupos de percussão.



Cerca de 2,3 mil PMs foram distribuídos entre os 8,5 quilômetros do percurso entre as igrejas de Nossa Senhora da Conceição da Praia e do Bonfim. Foram implantados também três postos de atendimento pela Secretaria Municipal de Saúde, com o apoio de uma unidade de atendimento móvel e duas ambulâncias convencionais, além de 180 sanitários químicos ao longo dos 11 pontos do cortejo.



Histórico. O culto ao Senhor do Bonfim começou com a chegada de uma imagem do santo, em 1740, trazida da cidade de Setúbal, em Portugal, pelo capitão-de- mar-e-guerra Teodósio Rodrigues de Faria, em cumprimento a uma promessa. Com as proibições da época, os escravos se utilizaram da festa católica para louvar o mais importante dos seus orixás: Oxalá.



O santo recebia suas homenagens, a princípio, em uma capela da Igreja da Penha, até que em 1745 começou a construção da Igreja do Senhor do Bonfim na colina do Monte Serrat, conhecida como Colina Sagrada. Após nove anos de obras, a igreja ficou pronta e passou a ser a sede da festa.



No início, os romeiros lavavam a igreja para deixá-la pronta para a celebração. Para animar a arrumação, eles traziam grupos de samba-de-roda e carroças enfeitadas, o que acabou se tornando a grande festa realizada hoje.



Caminhada. Na longa caminhada entre a Conceição e a Colina Sagrada, o povo pôde estar mais perto do governador e demonstrar seu carinho e confiança.



“Vim aqui reforçar a inspiração para ajudar os baianos a realizar seus pedidos por justiça, saúde e emprego”, disse Wagner, que seguiu a tradição e se vestiu de branco.



“Estou fazendo política não só para a Bahia. Estamos atuando em conjunto com o governo Lula para dar melhores condições de vida para toda a população”, explicou o governador.



Ele iniciou o trajeto na companhia do ministro da Defesa, Waldir Pires, e do prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro. “Deus está nos inspirando para fazer um governo justo. Aqui no Bonfim, renovamos a energia para seguir na busca do melhor para o povo brasileiro”, disse o ministro. “É uma lavagem diferente e as pessoas já perceberam isso. Estou muito feliz em poder caminhar ao lado de um governador parceiro”, afirmou João Henrique.



O caminho foi marcado por demonstrações de afeto e incentivo. Pessoas comuns se aproximaram para falar da esperança no novo governo. Ainda no Comércio, a securitária Tereza Boaventura, 52 anos, chegou perto de Wagner para desejar boa sorte na sua gestão. “Vim pedir bênção pra mim e minha família e aproveitei pra pedir ao Senhor do Bonfim que ilumine o governador para que ele concretize tudo de bom que planeja para a Bahia”, declarou.



Wagner estava acompanhado da primeira-dama, Fátima Mendonça, do vice-governador Edmundo Pereira, com sua mulher Marizete Pereira, e de secretários de Estado. Sempre animada, a primeira-dama se emocionou várias vezes. “Neste momento, a gente sente o carinho do povo e também a responsabilidade por ver tanta esperança depositada no novo governo”, afirmou Fátima.



O vice-governador falou da satisfação de colaborar com um governo focado no desenvolvimento econômico e social. “Há todo um projeto de renovação e as bênçãos do Senhor do Bonfim farão bem a nós do governo e à comunidade que está sonhando com essa nova Bahia que estamos começando a criar agora”, declarou Edmundo.



No Mercado do Ouro, o governador foi abordado pelo motorista Robson Santos, 48 anos, que fez questão de tirar uma foto ao lado de Wagner. “Acho que todos os baianos hoje têm mais fé. Nessa caminhada vamos todos pedir a Deus mais educação, alimento para os pobres e trabalho”, disse.



Na Calçada, o governador encontrou com representantes da Associação Baiana de Deficientes Físicos (Abadef) que haviam disputado logo cedo uma corrida de cadeiras de rodas. “Sei que temos em Jaques Wagner um aliado para nossa luta por melhores condições”, disse Antônio Jorge, que comemorava a quarta posição na disputa vencida por José Rocha.



O abraço da dona-de-casa Alzira Oliveira, 87 anos, foi carregado de esperança. Moradora do Largo dos Mares, ela aguardou a comitiva passar na porta da sua casa para poder saudá-la. “Como baiana, me sinto renovada”, falou ao governador.



Em Roma, Wagner se surpreendeu com a pequena baiana que apareceu em meio à multidão e parou para brincar com ela. Evelin Vitória, três meses, foi levada pelos pais para a festa devidamente trajada. A mãe, Suely Costa, fez questão de que ela fosse vista pelo governador. “É para garantir o futuro das crianças que buscamos o melhor. Acredito nesse novo projeto para a Bahia”, disse Suely.



Em seguida, o governador fez uma parada nas Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) para cumprimentar alguns pacientes que esperavam pela comitiva no pátio externo. A presidente das Osid, Maria Rita Lopes Pontes, desejou a Wagner boa sorte para governar a Bahia nos próximos quatro anos.



Na chegada à Colina Sagrada, o governador mantinha o mesmo ritmo do início do percurso e respondia aos acenos e abraços. “Estou acostumado a percorrer longos caminhos. Para chegar até o Governo do Estado, tivemos que vencer grandes obstáculos”, disse Wagner, que há anos realiza no dia 1º de janeiro uma caminhada independente à Colina Sagrada.



Alma lavada. Após a caminhada, sob o impacto do intenso calor, o governador e a primeira-dama selaram com um beijo a participação no evento, ao serem abençoados pelas baianas com um banho de água-de-cheiro.



“Estamos de alma e corpos lavados e com muita fé de que agora tudo vai ser melhor”, declarou Wagner. Ao som do Hino ao Senhor do Bonfim, ele cumprimentou a multidão em frente à igreja, recebendo aplausos e votos de prosperidade.



Empossado em 1º de janeiro, Wagner, que sempre fez questão de participar da festa antes de ser governador, agora integrava pela primeira vez o cortejo oficial do Estado. Segundo dados da Polícia Militar, cerca de 1,5 milhão de pessoas, entre baianos e turistas, participaram do evento.



Entre os populares, o casal de bailarinos Aidan Santos, 21 anos, e José Nyambé, 25 anos, também encontrou um jeito especial de comemorar mais uma participação na Lavagem do Bonfim: só que, em vez da água-de-cheiro, eles se beijaram após um banho de milho branco dado pelas baianas que participavam da lavagem. “Nos traz a paz de Oxalá”, explicou Nyambé, referindo-se ao orixá que representa o Senhor do Bonfim no candomblé.



A dona-de-casa Ana Maria Santos, 53 anos, chegou cedo e ficou esperando as baianas e autoridades nas escadarias da igreja, o que só aconteceu por volta do meio-dia. “Só saio daqui depois que eles chegarem, e todos nós, juntos, fizermos uma homenagem ao Senhor do Bonfim”, disse.



O comerciário Valnir da Silva, 53 anos, foi um dos fiéis que se ajoelharam em frente à igreja, fazendo uma prece e amarrando, em seguida, uma fitinha do Senhor do Bonfim no gradil. “Há 20 anos faço isso. Cada vez com mais fé, principalmente depois que consegui me curar do alcoolismo”, revelou.



“Estou encantada com tanta mistura de fé expressa através de religiões diversas”, declarou a turista Rejane Reis, 37 anos, natural de Florianópolis, Santa Catarina. Produtora de eventos, ela não parava de fotografar as baianas e os fiéis, tanto do catolicismo, quanto do candomblé.



Nova Bahia. A equipe de governo acompanhou Wagner na caminhada. Num exemplo de democracia, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores se misturavam ao povo, compartilhando o mesmo espaço e o sentimento de mudança e de uma nova Bahia.



Na terra de Todos os Santos e cidade mais negra do Brasil, não podia faltar numa das festas mais populares do país a presença da representação dos movimentos negros, traduzida no governo Jaques Wagner pelo secretário da Promoção da Igualdade Racial e de Política para as Mulheres, Luiz Alberto, um forte indicativo do tratamento que o governo baiano se propõe a dar às minorias.



Recém-criada, a secretaria é um dos principais vetores para proporcionar à população baiana melhores condições de justiça e igualdade social. “Esta é a festa da democracia, da alegria e da vitória. Aqui se revela cada vez mais forte a diversidade cultural do nosso estado em hegemonia com a cultura africana. A partir desse momento, a Bahia muda e respira liberdade”, afirmou o secretário.



Catarinense, a secretária-chefe da Casa Civil, Eva Maria Chiavon, nunca havia presenciado uma festa popular da proporção da Lavagem do Bonfim. Ela se mostrou encantada não apenas com o que considerou uma grande manifestação de fé do povo baiano, mas pelo grau de democracia e participação política. “Sem dúvida, esta é uma das festas mais bonitas, em que o povo demonstra sua crença e fé”, disse.



Para o secretário de Relações Institucionais, Rui Costa, a participação de tantos segmentos na caminhada do Bonfim ao lado do governador é uma marca do posicionamento definido pelo governo no que diz respeito ao elo entre o Estado e os demais poderes, tendo como foco a população. “O nosso desejo, a nossa vontade é de construir uma Bahia de novos valores, com distribuição de renda mais justa, com emprego, melhor saúde e educação”, afirmou.



Da equipe do novo governo, apenas os secretários de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, Walmir Assunção, e da Justiça e Direitos Humanos, Marília Muricy, não acompanharam o percurso da Conceição da Praia à Colina Sagrada. Walmir passou o dia de ontem em Brasília, onde participou do encontro de secretários da área social com o ministro do Desenvolvimento e Combate à Fome, Patrus Ananias. Já Marília Muricy esteve na concentração no adro da igreja da Conceição, mas por questões de saúde não acompanhou o cortejo.



Entre as lideranças políticas que caminharam ao lado de Wagner estavam João Henrique Carneiro, acompanhado de diversos secretários municipais, os prefeitos de Lauro de Freitas, Moema Gramacho, e de Camaçari, Luiz Caetano, entre outros.



Para o deputado federal Gedel Vieira Lima, a Lavagem do Bonfim é uma festa democrática. “Este é um momento bom para se iniciar um governo diferente, novo, aberto e plural, comandado por um homem que tem a generosidade como marca de sua alma”, destacou.



‘Terra de todos nós’. A marca do novo governo da Bahia foi apresentada ontem. Balões, leques, adesivos, camisetas e bonés expuseram para a população a marca e o slogan Governo da Bahia.Terra de todos nós.



Foi preservada a tradição das cores do estado – o azul, o vermelho e o branco do estandarte da Revolta dos Alfaiates, primeira revolução social brasileira –, além do triângulo (símbolo universal de significado positivo). Funde-se ao tradicional a modernidade, representada pelo novo momento histórico pelo qual passa a Bahia após a eleição e a posse do governador Jaques Wagner, tornando-se uma “terra de todos nós”.