Todo mundo concorda que o Carnaval de Salvador levanta poeira, fenômeno imortalizado na voz da cantora Ivete Sangalo. A bioquímica e pesquisadora Nelzair Viana quer saber agora do quê e como é composto esse particulado, nome dado pelos técnicos à poeira em suspensão que polui a atmosfera. Para isso, vai realizar o monitoramento do ar nos circuitos Dodô, Osmar e Batatinha, durante os cinco dias de folia, a partir da quinta-feira (15) de Momo.
A iniciativa conta com apoio de parceiros como a Secretaria de Meio Ambiente do Estado (Semarh), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Superintendência Municipal de Meio Ambiente.
Todos estão interessados em identificar a presença e a proporção de metais pesados e gases tóxicos na atmosfera no período da festa, que reúne, ao longo de 25 quilômetros de vias, mais de um milhão de pessoas em trechos com pouca ventilação e muita queima de combustível. Os gases e a poeira produzidos na combustão veicular são as principais fontes poluidoras do ar nos centros urbanos.
Nelzair Viana explica que, para obter resultados mais completos, desta vez vai combinar técnicas de biomonitoramento, utilizando a bromélia Tillandsia usneoides, com equipamentos mecânicos de medição, cedidos pelo Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP.
A Tillandsia já é uma velha conhecida da pesquisadora e dos soteropolitanos, servindo como instrumento para detectar, em abril do ano passado, a presença de metais pesados, em quantidades significativas, em dez pontos de grande circulação na capital.
A pesquisa revela uma preocupação crescente das autoridades ambientais do Estado, junto com especialistas na área, em compor uma rede de informações que subsidiem as ações no setor. O secretário de Meio Ambiente do Estado, Juliano Matos, afirma que é preciso conhecer melhor as variáveis ambientais da festa, para fazer do Carnaval de Salvador ""a maior festa verde do planeta"". Segundo o secretário, já foram implantados o controle e a fiscalização da poluição sonora, além da regulamentação para o manejo de resíduos sólidos e orgânicos produzidos pelos trios.
Vilã
Uma das limitações do biomonitoramento – a ser realizado nos trechos Campo Grande/ Sé, Barra/Ondina e Pelourinho – é não fornecer dados quantitativos sobre o nível de partículas iguais ou inferiores a 10 micrômetros (1µm = um milionésimo de metro). Essas partículas são passíveis de inalação pelo homem e podem interferir na sua função respiratória.
Já com o monitoramento mecânico, uma atividade móvel que produz resultados instantâneos, vai ser possível não só medir a incidência de partículas com 10 micrômetros, como averiguar, dentro desse universo, a quantidade daquelas com até 2,5 milionésimos de metro de comprimento. As temidas partículas 2,5 µm são as grandes vilãs da poluição atmosférica, pela capacidade de penetrar nos alvéolos pulmonares e, segundo Viana, se tornar agentes causadores de graves doenças.
Os equipamentos vão também medir os gases presentes nos três principais circuitos durante o Carnaval, principalmente NO2 e Ozônio, que inalados em determinada quantidade, podem agravar doenças, inclusive cardiovasculares.
A medição mecânica vai ampliar o resultado obtido pelas análises feitas da superfície escamosa da bromélia, através de microscopia eletrônica e microanálise de RX. A Tillandsia Usneoides tem a propriedade de acumular partículas do ar em sua camada externa, permitindo um panorama qualitativo dos poluentes.
A pesquisadora prevê que as conclusões obtidas a partir do cruzamento dos dados aferidos por meio dos dois sistemas de monitoramento deverão sair em meados de abril. Até lá, é cair na folia com o fôlego redobrado, mas por precaução bem longe dos escapamentos dos trios elétricos.