Aulas de matemática trabalhadas sob a perspectiva do desenvolvimento sustentável e solidário, com enfoque no território. Na parte da linguagem, entra em cena a agricultura familiar e questões de etnia, cultura e identidade. Trata-se do terceiro módulo de capacitação do programa Saberes da Terra, realizado no Instituto Anísio Teixeira (IAT), com 34 agentes educativos. A iniciativa oferece ao agricultor jovem e adulto a possibilidade de cursar o ensino fundamental numa perspectiva de qualificação profissional e social, agregando o saber popular ao saber técnico nas áreas do currículo formal.
Em fase piloto, o programa é oferecido em uma parceria com o Ministério da Educação (MEC), a Secretaria Estadual da Educação (SEC) e municípios. Inicialmente, o Saberes da Terra atende 300 alunos de Ribeira do Pombal e Coité. Cada turma possui um educador e um técnico ou engenheiro agrícola. O objetivo é que, somando os conhecimentos técnicos à prática, os agricultores consigam promover o desenvolvimento auto-sustentável nas comunidades onde vivem. “As áreas do conhecimento formal vão ajudá-los a compreender melhor a realidade local e lidar melhor com ela”, pontuou a coordenadora de educação indígena e do campo da SEC, Suzana Martins.
Adequado à realidade do trabalhador rural, o curso, que tem duração prevista de dois anos e meio, é ministrado exclusivamente nos finais de semana. De segunda a sexta-feira, os agentes educadores vão até o local de trabalho dos produtores para aplicação do conhecimento formal. “Há uma inversão na concepção de currículo. É a situação real que puxa o conhecimento formal”, explicou Suzana. Ou seja, diante de uma queimada, o professor vai explicar para os alunos o impacto da mesma para o solo, o tempo de recuperação e indicar técnicas alternativas.
Suzana Martins explicou ainda que o programa partiu das experiências consolidadas de movimentos sociais. Na Bahia, por exemplo, ele foi pautado pelo Programa Semear, da Federação dos Trabalhadores da Agricultura Familiar (Fetraf) e é acompanhado e avaliado pelo Grupo Executivo de Educação no Campo, com composição paritária entre representantes de instituições públicas e movimentos sociais. Durante a capacitação, os educadores têm a oportunidade de trocar experiências e adquirir novas metodologias de trabalho.
Senso crítico
Para a professora de Geografia, Cristiane Oliveira, a experiência tem sido riquíssima. “Em Coité a forma de ensino já está bem diversificada. Não nos prendemos mais àquelas aulas conteúdistas, temos um planejamento temático. Estou encantada com este projeto, tendo em vista que faço parte de uma família de origem rural”, disse ela, que além dos alunos, compartilha os conhecimentos com toda a família. Oriundo de uma escola agrícola, o técnico Alaci Santos contou que vem difundindo tudo o que tem aprendido no sentido de formar cidadãos que tenham senso crítico para reivindicar políticas públicas voltadas para o meio em que vivem.
Presente em 12 estados, o programa estimula e apóia o fortalecimento e ampliação das iniciativas de acesso e permanência de jovens agricultores familiares na rede pública de ensino, oferecendo oportunidades de elevação de escolaridade, qualificação social e profissional aos mesmos. Inicialmente, estão sendo beneficiados 5.060 agricultores, 300 na Bahia – entre eles, 30 índios da tribo kiriris.