Meteorologistas fazem previsão climática para os próximos três meses no litoral nordestino

16/09/2007

Qual será o comportamento do clima no litoral nordestino nos próximos três meses? Para responder a esse questionamento, meteorologistas de toda a região e outras partes do país participam, desde ontem (14), da Reunião de Análise e Previsão Climática do setor leste (litoral) da Região Nordeste do Brasil. O encontro acontece no Auditório Paulo Jackson, da Superintendência de Recursos Hídricos (SRH), no Itaigara.


O resultado da previsão climática para os próximos três meses poderá respaldar as tomadas de decisões do governo e da sociedade. Isto porque a análise do comportamento das chuvas têm reflexos na agricultura, na recarga dos reservatórios de água e barragens nos Estados do Nordeste, nas ações preventivas da Defesa Civil que reduzem os impactos causados pela ação do tempo e do clima, como evacuação de áreas, e na vida do cidadão comum.


Diante do diagnóstico de chuvas acima ou abaixo da média para o período, os agricultores terão um indicativo de quais culturas e períodos mais propícios para o plantio e uso de defensivos agrícolas e para uma melhor operação dos reservatórios quando do aumento ou redução dos índices de chuva.


Hoje (15) sai o resultado final da previsão, simultaneamente com os meteorologistas de diversos Estados do país em audioconferência com os especialistas do Inpe. Eles integram parâmetros atmosféricos e oceânicos como temperatura da superfície do mar, circulação atmosférica, pressão atmosférica, velocidade e direção dos ventos, radiação e o comportamento do clima nos últimos meses com os modelos meteorológicos e numéricos locais e discutem estes dados para chegar ao resultado final.


Amanhã também será implantado no Centro Estadual de Meteorologia, que funciona na SRH, o sistema de monitoramento meteorológico desenvolvido pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe), que irá fornecer mais acesso a dados e informações climáticos do mundo inteiro que têm reflexo na previsão feita localmente. A Bahia é o segundo Estado onde este sistema está sendo implantado. O primeiro foi Sergipe, no mês passado.


O que já se sabe é que o período chuvoso em Salvador acontece de abril a agosto, e que nos últimos 30 anos, têm se verificado uma redução na quantidade e intensidade de chuvas e um aumento gradativo na temperatura. “Os meses de abril e maio de 2007 registraram chuvas abaixo da média histórica, mas o mês de junho ainda está dentro da normalidade. Salvador registrou este ano o verão mais quente da história, atingindo picos de 38 graus, enquanto a média é de 32 graus, e o inverno na Chapada Diamantina e região Sudoeste do Estado registrou mínima de 12 graus, enquanto no passado já atingiu médias de 4 graus”, informou o meteorologista da SRH, Heráclio Alves.


De várias formas a meteorologia está à serviço da sociedade. E foi sobre esse tema que o pesquisador Paulo Nobre, titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), falou na palestra de abertura da reunião. O cientista, que é um dos idealizadores da criação dos Centros Estaduais de Meteorologia do país, destacou que a meteorologia sofre um estigma de que previsão de tempo nunca está certa. Acredita que existe uma razão para isso. “Quando a pessoa escuta, imagina que a previsão acontece no lugar onde ela está. Mas a meteorologia é feita para grandes áreas, não é que ela vai se verificar para cada metro quadrado onde as pessoas estão. E quando acontece um erro, ele fica mais perceptível do que o acerto”, afirmou.


Ele ressalta, no entanto, que as pessoas estão reconhecendo e procurando cada vez mais os serviços meteorológicos. Mostrou como parâmetro, um gráfico de acesso da página do CPTEC/INPE na internet www.cptec.inpe.br. Disse que o número de acessos subiu cerca de 20 vezes, de março de 2003 a abril de 2006, passando de três mil para 65 mil por dia nesse período. “É um sinal de que a aplicação em ciência e tecnologia continuadamente feitos pelos governos estão surtindo efeito”, avalia.


Segundo o pesquisador, todos os segmentos e setores da sociedade têm se interessado pela área, principalmente o empresarial. “Os empresários estão se beneficiando do desenvolvimento contínuo da meteorologia no Brasil. Estão tomando decisões economicamente favoráveis. Um exemplo: o gerenciamento dos recursos hídricos na geração de energia elétrica. Eles olham a meteorologia para saber se podem gerar mais energia ou se terão de reter mais água devido à previsão de déficit de chuva no futuro, isso é custo da produção”, cita.


Ele ressalta que isso implica em toda a sociedade, seja na confecção de malhas, na agricultura na seleção de cultivares. “Existe um grande número de atividades econômicas para os quais a meteorologia é dinheiro”, afirmou.


Aquecimento Global


Com o aumento de fluxo de informações sobre mudanças climáticas e aquecimento global, Paulo Nobre, acredita que cresceu o interesse das pessoas sobre a meteorologia. “Esse assunto veio para ficar e conforme a alteração da chuva, do vento, da temperatura for se tornando mais acentuado, as pessoas vão passar a procurar mais informações”, afirma.


Nesse quesito de aquecimento global, Nobre fala que o mundo passa pelo processo de adaptação e que todas as pessoas devem fazer a diferença. Uma das alternativas é escolher produtos que utilizem menos CO2 no processo produtivo. No Brasil, ainda não há como identificar esses produtos que na Inglaterra recebem um selo indicando a quantidade de CO2 consumido no processo produtivo. “Nós não temos isso ainda, mas podemos ter, primeiro com a pressão popular, depois com a mudança da legislação. Se houver uma demanda por produtos que gerem menos CO2, os produtores vão estar sensíveis a isso”, pontua.


Alternativas mais simples podem ser colocadas em prática, segundo Paulo Nobre, como é o caso do uso de combustíveis vegetais (álcool e biodiesel). Outra ação positiva apontada por ele é o aumento da cobertura vegetal.