As ocorrências de erro de administração de medicamentos registradas pelo Centro de Informações Antiveneno (Ciave), no período de 2000 a 2006, foram relatadas em trabalho apresentado pelo farmacêutico Juscelino Néri Filho, durante o 2º Congresso Brasileiro sobre o Uso Racional de Medicamentos, realizado recentemente em Florianópolis.
O trabalho, de autoria de Néri Filho e de Mário José dos Santos Filho, estagiário de Farmácia do Ciave, foi desenvolvido a partir de um estudo retrospectivo, a partir das fichas de atendimento do Ciave referentes ao período de janeiro de 2002 a dezembro de 2006, levantando as diversas variáveis dos casos classificados como erro de administração.
O trabalho, que teve apresentações em forma de comunicação oral e de pôster, recebeu menção honrosa nesta última. O estudo constatou que, no período estudado, as ocorrências de erros de administração de medicamentos na Bahia constituíram 90,2% (451 casos) do total deste tipo de evento registrado pelo Ciave. Em 97, em 21,5% dos casos ocorreu a internação dos pacientes, enquanto as faixas etárias envolvidas com maior freqüência foram entre 1 e 4 anos (30,8%) e entre 5 e 9 anos (19,3%).
De acordo com Juscelino Filho, os erros de administração de medicamentos constituem, juntamente com as reações adversas, eventos adversos relacionados aos medicamentos e são passíveis de prevenção, podendo ou não gerar dano ao paciente. Define-se como erro de medicação “qualquer evento evitável, que pode causar ou induzir ao uso inapropriado de medicamento ou prejudicar o paciente enquanto o medicamento está sob controle do profissional de saúde, paciente ou consumidor”.
No Brasil, entre 2000 e 2005, as ocorrências envolvendo medicamentos contabilizadas pelos Centros de Informação e Atendimento Toxicológicos (CIATs) são responsáveis, em média, por 27,5% do total de atendimentos. Os erros por administração de medicamentos correspondem a 5,9% dos casos envolvendo este tipo de agente, segundo dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas (Sinitox).
O trabalho elaborado pelos profissionais da saúde constatou que em 181 casos – 40% do total de ocorrências de erros de administração – houve erro na dose do medicamento; em 107 (23,7%) ocorreu troca do medicamento e em 70 (15,5%) por erro na via de administração. Entre a troca de medicamentos, três se deram por profissionais de saúde.
Outra constatação dos autores do trabalho refere-se à pessoa responsável pela administração do medicamento: em 152 casos (33,7%) a administração foi feita por genitor/genitora; em 21,1% dos casos (95) pelo próprio paciente; em 7,3% dos casos (33), por profissionais de saúde.
Pouco notificados
O trabalho apresentado pelos representantes do Ciave no congresso revela que os eventos adversos relacionados a medicamentos podem decorrer da utilização adequada, inadequada ou mesmo da falta de acesso àqueles fármacos clinicamente necessários.
“Estudos mostram que a falta de atenção, estresse, desconhecimento sobre o preparo e administração, sobrecarga de trabalho, prescrição médica ilegível ou alterada são fatores que contribuem para o erro de administração pelo serviço de enfermagem”, esclarece Juscelino Néri, acrescentando ainda que existe também o erro decorrente da falta de orientação ao paciente quanto ao uso correto do medicamento.
Os autores do trabalho concluíram que, “considerando-se que geralmente os erros de administração de medicamentos são pouco notificados em todo o país, tornam-se relevantes os números apresentados pelos Centros de Informações e Atendimentos Toxicológicos do Brasil, e em particular pelo Ciave”.
“Estes dados auxiliam no conhecimento da ocorrência desse tipo de evento e podem subsidiar ações a serem desenvolvidas com a finalidade de reduzir as ocorrências, contribuindo para o uso racional de medicamentos, além de evidenciarem a necessidade de melhor esclarecimento à população quanto ao uso correto de medicamentos”, finalizou o Juscelino Néri.