A abordagem, que propõe a reconstrução do conceito de feminismo, foi tema nesta segunda-feira (22) do seminário Feminismo Negro, realizado pela Secretaria de Promoção da Igualdade (Sepromi), em parceria com a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no Centro de Promoção da Igualdade, sede do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Mulher (CDDM).
Segundo a doutora em comunicação e coordenadora da ONG Criola, Jurema Werneck, o conceito de feminismo vigente hegemoniza o panorama político e cultural, ao tempo em que desconsidera a articulação política da mulher negra ao longo da história.
“Foram várias as lideranças negras que se destacaram em mobilizações urbanas”, afirmou Werneck, lembrando Luiza Mahim, que participou da Revolta dos Malês no século 18, na Bahia, Xica da Silva, que libertou vários escravos em Minas Gerais, e Tia Ciata, a quem se atribui a criação do samba no Rio de Janeiro.
Deusas femininas das religiões de matriz africana também foram citadas pela debatedora como elementos tradicionais importantes para a reconstrução do conceito. As histórias de luta e insubordinação de Nanã, Iemanjá, Obá, Oxum e Iansã - a senhora dos ventos e dos raios a partir da apropriação de poderes destinados ao seu rei e marido, Xangô, foram outros exemplos mostrados de mulheres fortes, autônomas e vencedoras.
No âmbito dos modelos organizativos, Werneck destacou a presença da mulher negra em sociedades secretas, associações como a Irmandade da Boa Morte, surgidas dentro da igreja católica, e associações como as de trabalhadoras domésticas, que na década de 1930, teriam financiado o movimento negro no Rio de Janeiro.
“Sem falar das lideranças quilombolas femininas, a exemplo de Aqualtune, em Pernambuco, Tereza de Quariterês, no Mato Grosso, Mariana Crioula e Maria Conga no Rio”, completou.
Na opinião da coordenadora da Superintendência de Políticas para as Mulheres da Sepromi, Rosângela Araújo, as diferenças estruturais de emprego, renda, educação, existentes entre as mulheres do grupo feminino negras e não-negras permitem que novos rumos sejam tomados dentro do movimento feminista.
Ela entende que o seminário ganha importância nessa discussão que envolve as mulheres negras, pois “apesar de serem do mesmo gênero, as mulheres negras têm necessidades específicas, para as quais o movimento feminista, antes da década de 90, não demonstrava sensibilidade”.