Proteção de fontes sagradas abre Encontro pelas Águas

25/08/2009

“Abrimos este Encontro pelas Águas com as comunidades de terreiro tendo como perspectiva tratar da água com o mesmo cuidado e zelo que as religiões de raiz de matriz africana a vêm tratando ao longo dos séculos. Esta é uma prioridade do governo Wagner”. Assim o diretor-geral do Instituto de Gestão das Águas e Clima (Ingá), Julio Rocha, deu início à primeira plenária da série Encontro pelas Águas, que busca estabelecer diálogo para o fortalecimento da gestão participativa das águas, sobretudo com a inclusão de povos e comunidades tradicionais do estado.


Convocado pelo governador Jaques Wagner através do Decreto 11.572/09, o Encontro pelas Águas 2009 foi iniciado no último domingo (24), no Quarteirão Leite Alves da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), em Cachoeira. O evento reuniu cerca de 150 integrantes de comunidades de povos de santo vindos de cinco municípios baianos.


Às 19h, os convidados lotaram o auditório da UFRB, onde confraternizaram e assistiram aos discursos de seus representantes em uma plenária propositalmente equilibrada. Dos 14 assentos nela dispostos, sete foram compostos por autoridades religiosas de nações de candomblé, reforçando-se o caráter inclusivo e democrático do evento.


A outra metade da plenária foi formada por representantes do poder público – Câmara dos Deputados, Ingá, Secretaria de Promoção da Igualdade (Sepromi) e Ibama –, além de instituições parceiras do evento, como o Fundo das Populações das Nações Unidas (UNFPA), a Fundação Palmares e a UFRB. Eles defenderam a iniciativa do governo em tornar ainda maior o alcance social do Encontro pelas Águas, em favor da inclusão de povos e comunidades tradicionais na gestão compartilhada das águas do estado.


Água é sagrada


Por diversas vezes durante o evento, as comunidades de terreiro entoaram cantos em saudação aos orixás. Os representantes que ocuparam a plenária evidenciaram a relação da água como elemento sacro e pediram cuidados frente ao desaparecimento de fontes sagradas e à poluição de rios.

“Sem a água não fazemos nada. Não podemos nada. Não andamos, pisamos, falamos, não fazemos nossos banhos e nossos chás”, declarou dona Maria Conceição, da nação Caboclo.


“Precisamos da água limpa para tudo. O que seria dos terreiros sem água potável?”, questionou Pai Marcilino. “A água é a nossa vida, é o nosso corpo. Nossas nações precisam da água e pedem consciência, porque ela está se acabando”, alertou Waldavan Ogan, da nação Kalebocum.


Ligados à água de maneira indissociável, por meio da cultura e da religião, os povos de santo também revelaram no encontro a sua luta na defesa por espaços de inclusão e tolerância.


“Precisamos acabar com a exclusão e o racismo. Precisamos que o reconhecimento do candomblé como religião seja afirmado e que o povo de terreiro seja tratado como cidadãos e cidadãs”, destacou Ekedy Sinha, que se tornou presidente do Conselho da Carta pelas Águas, após a realização da primeira edição do Encontro pelas Águas em 2007.


Para ela, muitos avanços têm sido conquistados com a aproximação das comunidades de terreiro e as instâncias de governo, “que têm propiciado uma gestão democrática, pautada no diálogo”.


Mapeamento de terreiros


Durante a plenária, houve o lançamento do programa de mapeamento de terreiros do Território de Identidade do Baixo Sul e Recôncavo, que irá a campo em setembro. Em pronunciamento, a secretária de Promoção da Igualdade, Luiza Bairros, falou sobre o resgate dos direitos deste segmento.


“O nosso esforço tem sido de atender às demandas dos terreiros, reconhecendo-os como um dos fatores políticos mais importantes que surgiram nos últimos anos e que têm de ser tratados na amplitude daquilo que são os seus verdadeiros direitos. Esperamos, com a ajuda de vocês, fazer valer os nossos direitos, que são os direitos dos nossos ancestrais e os direitos relativos à importância que a nossa história e a nossa experiência têm na formação da cultura e da sociedade brasileira”, ressaltou Luiza Bairros.