Bahia comemora os 30 anos da Anistia

28/08/2009

“Pensei em me matar para não trair minha nação e não ser mais torturado”. A declaração é de um ex-político e torturado na época da Ditadura Militar, José Carlos Zanetti, que nesta sexta-feira (28) teve um reencontro com o passado na comemoração dos 30 anos da Anistia.


A solenidade aconteceu no Forte de Santo Antônio, local onde funcionava a Casa de Detenção, que custodiou alguns presos políticos. Estiveram presentes ex-presos políticos da época da Ditadura Militar, mães de ex-exilados e representantes de movimentos que lutaram pela democracia brasileira.


Para marcar a data, ex-presos e representantes de movimentos que marcaram a luta contra a Ditadura Militar foram homenageados pelo governador Jaques Wagner.


“Esse momento é para celebrar aqueles que lutaram pelas nossas convicções. Se relembrar é viver, creio que estaremos fazendo homenagens sempre, desde que reforcemos o espírito de construir em coletividade. Muitas pessoas não querem que a história da Ditadura Militar seja divulgada, ou por medo, ou por vergonha. Afinal, não há nada mais horrível que um crime de Estado. Por isso sou contra a pena de morte, porque um crime não deve ser resolvido com outro crime. Homens e mulheres erram e precisam de uma chance para se redimir”, disse Wagner.


Presentes ao encontro o Grupo Tortura Nunca Mais, o Movimento Feminino pela Anistia, o Comitê Brasileiro de Anistia (Núcleo da Bahia), o padre Renzo Rossi, mulheres que participaram de movimentos pró-anistia e advogados de presos políticos.


Segundo o ex-preso e hoje deputado federal Emiliano José, as homenagens são válidas, porque para que esta celebração acontecesse muitas pessoas foram mortas. “Este é um dia em que falamos de esperança e alegria, mas também das dores e cicatrizes do nosso corpo. Tivemos mais de 500 companheiros mortos na Ditadura Militar. Nossos mártires, que morreram ao longo do caminho, empregaram sua vida na luta pela democracia. Lembramos deles com carinho, e nós que fomos presos, torturados e sobrevivemos temos que lembrar que eles regaram com sangue esta luta”, falou.


Durante o evento, o secretário da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, Nelson Pellegrino, fez uma apresentação do projeto Memórias Reveladas das Lutas Políticas na Bahia (1964-1985). O material dispõe sobre o acesso às informações do período, através de uma comissão especial vinculada à SJCDH.


“Já estabelecemos o roteiro e ele prevê o acesso aos arquivos da Bahia, Polícia Federal, Auditoria Militar, e estamos tentando ter acesso aos da Forças Armadas. Além disso, já baixamos o decreto de chamamento público para que as pessoas que tenham documentos possam voluntariamente entregar à comissão organizadora. Também estamos colhendo depoimentos dos que participaram deste período. A ideia final é fazer um livro dessa história da Bahia contra a Ditadura Militar”, explicou Pellegrino, lembrando que toda essa documentação será encaminhada para o Arquivo Público do Estado da Bahia para que todos tenham acesso.


Depoimentos e documentário


Depoimentos de Ana Guedes, representando o Grupo Tortura Nunca Mais, e de Emiliano José, representando os ex-presos políticos, foram dados durante o evento, que também contou com a exibição do documentário Memórias Reveladas: 30 Anos de Anistia na Bahia, produzido pela Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos.


A Lei de Anistia foi promulgada em 28 de agosto de 1979 para restaurar os direitos dos brasileiros exilados, banidos, cassados, perseguidos, torturados e reparar os danos sofridos por familiares dos mortos por causa da luta política.