No domingo (14), quarto dia de carnaval de Salvador, os foliões que estiveram entre Barra e Ondina testemunharam a diversificação de atrações e estilos que a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult) está ajudando a promover. Ainda com pouca tradição em variedades de expressões culturais, o circuito Dodô, mais novo dentre os três existentes, foi palco para blocos afros – Olodum, A Mulherada e Cortejo Afro – e mais dois trios do programa Carnaval Pipoca: Tributo a Ramiro Musotto e Os Novos Baianos.
No fim da tarde, BNegão, Baiana System e Lucas Santtana se uniram para um desfile em homenagem ao músico, produtor e compositor argentino Ramiro Musotto, que morreu em 2009, vítima de câncer. Também estava no trio a Afrosudaka, banda do homenageado, e o músico Mincho Garramone, parceiro e conterrâneo de Ramiro. No repertório do encontro, versões de músicas de referências musicais baianas como Gerônimo e Moraes Moreira, e de ícones como Jorge Benjor e Bob Marley. O repertório eclético dividiu espaço com canções próprias dos artistas do Trio Tributo a Ramiro Musotto. A mistura de guitarra baiana com música eletrônica, batucadas, sopros e rap resultava em sons que tinham elementos de dub, lambada, hip-hop, marchas, samba e reggae.
O trio passou na orla durante o pôr-do-sol, atraindo olhares curiosos. “Muitas pessoas ainda estranham a presença de outros estilos no carnaval, mas vim este ano com mais segurança em relação a isso. Este projeto do Governo é algo nunca visto e o trabalho com a diversidade é importante para que, quem sabe, não haja mais estranhamento nos próximos carnavais. É preciso misturar sem medo!”, disse Russo, vocalista da banda Baiana System. Ele já havia estado sobre um trio elétrico no ano passado, na primeira edição do Carnaval Pipoca, e é defensor da folia sem cordas. “O palco aqui é do folião. Nós estamos aqui como foliões. O carnaval ainda quem faz é o folião!”, finalizou ele, citando a composição O carnaval quem é que faz?, uma parceria de Lucas Santtana com a Baiana System.
O rapper carioca BNegão também se mostrou satisfeito. “A ocupação deste trio é uma das provas de como o carnaval de Salvador está rompendo preconceitos. O estranhamento é saudável, porque uma galera nova para, presta atenção, vai chegando e entrando no clima”, opinou. Desfilando entre dois grandes blocos, o Tributo a Ramiro Musotto também cumpriu a função de desafogar o tráfego de entidades na avenida, conquistando foliões durante a passagem.
Os históricos Novos Baianos
Um dos mais aguardados trios do programa Carnaval Pipoca fez a alegria de fãs e foliões. Os Novos Baianos, representados por Baby Consuelo e Paulinho Boca de Cantor, arrastaram a pipoca do Farol da Barra até o fim do trajeto, sem importar a chuva que caiu no caminho. Antes mesmo do início do desfile, que começou logo após a meia-noite, muita gente se encontrava na “concentração”, todos ansiosos pela apresentação de um dos grupos mais importantes da história da música brasileira.
A execução de sucessos antológicos fez o esperado: a multidão cantou junto, dançou, pulou e pediu bis. Preta Pretinha, Brasil Pandeiro, A Menina Dança, Mistério do Planeta e Tinindo Trincando foram apenas algumas clássicas do repertório. Na passagem pelo camarote Expresso 2222, Gilberto Gil entrou na brincadeira e participou do show.
Baby e Paulinho fizeram muitas referências a Dodô e Osmar, concedendo homenagens pelos 60 anos do trio elétrico. Algumas histórias foram contadas, num desfile que também prezou pelo resgate das memórias da música baiana. Baby falou de quando viu o trio elétrico pela primeira vez e da decisão de se pôr na avenida já no ano seguinte à ocasião. Também frisou a qualidade da produção musical de quem deu vida às tradições do carnaval de Salvador. “Vocês não estavam lá, mas seus pais certamente estiveram”, disse ela. Paulinho completou: “E que bom que vocês podem estar aqui agora, e nós também!”.
Ouro Negro na Barra
O domingo foi ainda dia de estreia da presença de blocos afro no circuito Dodô neste carnaval com entidades que fazem parte do programa Ouro Negro, também da Secult, como A Mulherada e Cortejo Afro.
Na rua, os ritmos percussivos, as coreografias, as fantasias e discursos que integram não apenas a festa, mas também um posicionamento social afirmativo – A Mulherada, por exemplo, defende os direitos da mulher afrodescendente e desenvolve ações de combate à discriminação racial e de gênero.
O programa de fomento Carnaval Ouro Negro apoia pelo terceiro ano consecutivo o desfile de blocos de matriz africana. Neste ano, 120 entidades, entre afoxés, blocos afro, de índio, de samba, de reggae e de percussão, foram contempladas com recursos entre R$ 15 mil e R$ 100 mil, num total de R$ 4,96 milhões de investimentos. O Programa também inclui cursos de formação em gestão cultural e a publicação de um catálogo bilíngue com 128 entidades de matriz africana mapeadas pelas inscrições dos últimos três anos. Visite o site www.carnavalouronegro.com.br para fazer o download gratuito do catálogo.