Devido ao aumento da temperatura causado pelo aquecimento global, a população de Salvador vem sendo submetida a um estresse térmico, aquela sensação de calor irritante. Esta foi a principal conclusão da pesquisa Clima Urbano e Sensação Térmica na Cidade de Salvador, apresentada durante o Simpósio Internacional Clima, Planejamento Urbano e Saúde Pública, que termina nesta sexta-feira (19) no teatro do Institut Goethe/Icba, em Salvador.
Coordenada pela professora Jussara Nery, do Laboratório de Conforto Ambiental, do Mestrado em Engenharia Ambiental Urbana, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia, a consulta conta com o apoio da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti). A diretora de Fortalecimento Tecnológico da Secti, Telma Cortes, também participou dos estudos.
A pesquisa foi aplicada, no ano passado, por uma equipe multidisciplinar que mediu o grau de conforto térmico nas praças da Piedade, na Cidade Alta, e Cayru, na Cidade Baixa. Ao todo, foram aplicados 1.055 questionários. Nas duas praças, a maioria dos entrevistados relatou sentir muito calor, seguido de calor e pouco calor, enquanto uma minoria afirmou se sentir bem ou um pouco de frio.
Jussara Nery apresentou outros resultados da pesquisa climatológica: a perda de qualidade de vida, em virtude da ocupação desordenada do solo, com reflexo no clima urbano, a ausência de arborização extensiva, a retirada da cobertura vegetal, também de maneira extensiva, sobretudo na Avenida Paralela, a alta densidade de construção de imóveis e a utilização de materiais de construção que absorvem e armazenam muito calor, além da falta de cuidado com as áreas residuais, como as dunas do Abaeté e os córregos de água da cidade.
“Em 2008 e 2009, Salvador foi submetida ao fenômeno climático de inversão térmica. Isso não era para estar acontecendo na cidade, por conta de sua localização litorânea”, observou a professora. Ela e Telma Cortes vêm ainda realizando uma pesquisa para comparar a situação do clima urbano e a sensação térmica em duas áreas habitadas por classes sociais distintas de Salvador: o Nordeste de Amaralina, bairro com população de menor poder aquisitivo, e a Pituba, área de classe média e média alta.
Desenvolvimento urbano mais sustentável
De acordo com Telma Cortes, o projeto poderá contribuir para um desenvolvimento urbano mais sustentável e comprometido com a preservação e a utilização racional de recursos naturais do clima, para adequação ambiental dos espaços urbanos.
Jussara Nery explicou que o clima urbano é um fator de qualidade de vida. “Salvador apresenta um problema à parte, pois não tem mais área de expansão e as áreas verdes são residuais”. O conforto térmico é estado de espírito que demonstra a satisfação com o ambiente térmico, ou seja, a temperatura, que envolve as pessoas.
Ainda no simpósio, a professora Eleonora Sad de Assis, da Universidade Federal de Minas Gerais, apresentou uma pesquisa semelhante à feita em Salvador. Segundo ela, a população da capital mineira também vem sentindo a sensação de desconforto térmico, devido ao aumento da temperatura.
O simpósio discutiu em dois dias temas como as doenças provocadas pelo aumento da temperatura, as causas e os efeitos do superaquecimento urbano e os efeitos das mudanças climáticas na saúde e temperatura, além do aquecimento e mortalidade urbana nos países em desenvolvimento.