Uma genuína batalhadora pelo patrimônio em prol do livro e da leitura na Ilha de Itaparica, Dalva Tavares, diretora daBiblioteca Juracy Magalhães Jr. – unidade Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado que fica na Ilha -, ao longo de seus 38 anos de serviços, realizou alguns dos mais representativos projetos em consonância com a comunidade. Além de promover o conhecimento, Dalva valorizou a difusão de trabalhos de autores, poetas e artistas baianos. Nascida em Nazaré das Farinhas na Bahia e graduada em Biblioteconomia na Universidade Federal da Bahia (Ufba), a bibliotecária conversou conosco sobre projetos, a exemplo da criação da Associação dos Artesãos de Itaparica (AAMIT), em 2003, a Associação dos Amigos de Biblioteca de Itaparica (ASSABITA), em 2004, além de ser uma das responsáveis pela publicação do boletim mensal ASSABITA (2006) e a Associação Maria Felipa (2008). Com tantas realizações, Dalva Tavares é nossa homenageada no #FPCEntrevista, em meio às celebrações pelos 50 anos de regulamentação da profissão de bibliotecário no Brasil (16 de agosto). Confira:
#FPCEntrevista - Como você nos resumiria sua carreira como bibliotecária?
Dalva Tavares - Entrei em 1973 na antiga escola de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal da Bahia, onde funcionavam ambos os cursos no mesmo prédio e me formei em 1977. Neste mesmo ano fui convidada pela Fundação Juracy Magalhães Júnior, mediante a celebração de um convênio com a Secretaria de Educação do Estado, para atuar na biblioteca em Itaparica, na qual estou servindo até hoje. Mesmo não sendo diretora oficialmente, respondi pela direção através da Fundação Juracy Magalhães Júnior e passei a atuar em toda a estrutura como se fosse diretora por 24 anos. A partir de 2001, com a extinção da Fundação e a doação da Biblioteca ao Governo do Estado da Bahia, sob a subordinação da Secretaria de Cultura, em 2003 fui empossada diretora da Biblioteca Juracy Magalhães Júnior, passando a assumí-la oficialmente.
#FPCEntrevista - Durante este período, quais projetos foram idealizados e desenvolvidos em sua gestão e como se costurou esta articulação comunitária?
Dalva Tavares - Foram vários projetos sempre relacionados com a comunidade. Entendi, logo ao chegar, que uma das primeiras missões seria aproximar a Biblioteca da comunidade dos estudantes, o que fiz imediatamente. Comecei a conhecer as pessoas, a visitar as escolas e também verifiquei as quem faziam artesanato na cidade nesta época. Estimulei aquelas que tinham talento pra produzir suas peças e também a expô-las, incentivando a tirarem delas seus próprios sustentos, pois a maioria era de mulheres. Cadastrei todas os artistas, procurando saber que tipos de artesanato eram desenvolvidos por elas, depois realizamos a primeira exposição para apresentar seus trabalhos ao público na biblioteca. A partir daí não paramos mais. Depois da reforma do Casarão João das Botas, na Praça da Quintanda, o prefeito da época me procurou e solicitou esse cadastro que foi feito por nós. Ele convidou esses artesões a ocuparem os boxes do Casarão para venderem seus artesanatos. Até hoje esses artesões sustentam as suas famílias com a venda de seus produtos e continua nesse mesmo lugar, que foi reformado.
#FPCEntrevista - E as escolas, como aproximar a Biblioteca deste público?
Dalva Tavares - Nas escolas começamos a fazer contato com diretores, coordenadores e professores e conseguíamos receber os alunos com bastante frequência. Deste modo, promovemos vários concursos de literatura de Cordel, tanto para as escolas como para a comunidade. Escolhíamos os temas que eram necessários serem conhecidos pela comunidade, mas tendo como fonte de pesquisa o acervo bibliográfico da Biblioteca, assim eles vinham pesquisar na própria unidade. Ainda lembro o tema do primeiro concurso que foi “A Ilha de Itaparica”, o segundo foi “A Biblioteca Juracy Magalhães Júnior”, pois aproveitamos que estávamos comemorando o aniversário e lançamos o concurso como forma de homenageá-la.
Desenho - Eliseu Marques
#FPCEntrevista - Que tipo de premiação os participantes ganhavam?
Dalva Tavares - Eles ganhavam medalhas e certificados, mas a intenção era que tivessem conhecimento da importância do lugar e da própria identidade. Também promovemos exposições de artes visuais e descobrimos artistas de várias áreas. Inclusive, fizemos e publicamos três coletâneas de poesias de poetas da Ilha de Itaparica, ou seja, descobrindo que a Ilha é dotada de grandes talentos na área da Literatura.
#FPCEntrevista - Em 2001, a Biblioteca Juracy Magalhães Júnior lançou um Guia informativo da Ilha. Como se deu projeto?
Dalva Tavares - Fizemos dois Guias informativos da Ilha de Itaparica (2001/2002), contando com o apoio da prefeitura local, o qual informava todo tipo de serviços disponíveis na Ilha, com informações atualizadas de telefones e endereços de escolas, banco, serviços de transportes, igrejas, os candomblés além de informações turísticas.
#FPCEntrevista – Hoje, quais são os principais projetos desenvolvidos pela Biblioteca de modo a ampliar seu alcance na Ilha?
Dalva Tavares - Temos o “Biblioteca no Ar”, que é um programa de rádio; levamos o estande da biblioteca às escolas como forma de promover o livro e a leitura, ou seja, a biblioteca vai até as escolas e isso inclui também uma programação de leitura. Além desses, temos o “Café com Leitura”, que funciona sempre aos sábados do mês de janeiro e o “Festival Intercolegial de Folclore”, que está na 14ª edição e envolve as escolas municipais, estaduais e particulares da Ilha, com apresentações artísticas em homenagem à cultural popular. Temos também o “Encontro de Artistas” e a “Biblioteca Itinerante”, pelo qual disponibilizamos nossos serviços na comunidade.
#FPCEntrevista – Como se deu a relação de amizade da Biblioteca com o escritor João Ubaldo?
Dalva Tavares - No período em que João Ubaldo morava em Itaparica, ele escrevia em um sobrado alugado na Praça da Quitanda. Foi lá que ele escreveu a obra prima “Viva o povo brasileiro”, mas se tornou muito difícil ele continuar escrevendo neste local por conta das muitas visitas das pessoas e em especialmente de turistas que iam cumprimentá-lo. Isso o fazia parar e também quebrava o seu pensamento, por isso, ele resolveu sair do Sobrado e procurou a Biblioteca para que pudesse continuar a escrever sem essas interferências. Assim, nós cedemos a sala e demos a ele uma chave da biblioteca para que que ele tivesse acesso no horário que quisesse.
#FPCEntrevista – Lembra quais projetos o escritor desenvolvia nesta época?
Dalva Tavares - Ele escrevia semanalmente as crônicas para o jornal O Globo, que o jornal A Tarde também publicava, e traduziu durante dois anos o livro “Viva Povo Brasileiro” para a língua inglesa. Lembro que ele se queixava muito, dizendo que foi uma empreitada muito difícil e que nunca mais toparia fazer um trabalho assim. João Ubaldo também escreveu aqui o “Sorriso do Lagarto” e as crônicas que semanalmente produzia. Após a sua saída da cidade, em 1994, ele levou 10 anos sem voltar à Ilha de Itaparica.
#FPCEntrevista – Com isso, a biblioteca passou a realizar o aniversário de João Ubaldo anualmente.
Dalva Tavares - Em 2003 surgiu a ideia de comemorar o aniversário na biblioteca, o que fizemos até 2014, com a presença dele. Em 2015 encerramos essa comemoração com uma homenagem póstuma, inaugurando o busto do escritor, com uma exposição de vários artistas renomados da Bahia e o lançamento da coletânea “Viva o Povo Brasileiro e João Ubaldo Ribeiro”. Essa publicação foi organizada por mim e escrita por 104 pessoas de todos os níveis intelectuais e publicada pela Edufba, com edição única e uma tiragem de 500 exemplares, com distribuição gratuita. Esta foi a forma que encontrei de homenageá-lo, oportunizando a todas as pessoas que quisessem prestar sua gratidão a João Ubaldo Ribeiro, sendo ele, o escritor brasileiro que mais lutou para defender a nossa identidade cultural.
#FPCEntrevista – Que conselho recomenda para quem deseja atuar na profissão de Bibliotecário?
Dalva Tavares - Em qualquer profissão ou em qualquer outra área da nossa vida, se não colocarmos amor, comprometimento e, principalmente, a consciência de nossa responsabilidade com o nosso semelhante e com a sociedade, acho que essa pessoa será frustrada enquanto pessoa e profissional. Quando fazemos as coisas dessa forma a gente percebe e vive a experiência maravilhosa dessa força sobrenatural que nos encaminha a realizar coisas que, com a nossa limitação humana, não poderíamos fazer. Acho que, mesmo uma pessoa tendo todo o apoio material, intelectual, financeiro e cultural, ela não pode realizar a contento se não houver esses componentes em sua mente e em seu coração.
E Dalva Tavares é uma destas pessoas!
Homenagem da Fundação Pedro Calmon aos que disseminam com amor e dedicação a informação e o conhecimento pelas bibliotecas em todo país.