O diretor de Ijó Dudu - Memória da Dança Negra na Bahia, lançado em cooperação com FPC, reflete como a arte foi fundamental em sua identidade racial
As expressões das artes põem em reflexão nossos sentimentos e nosso entendimento no mundo, ao despertar a memória de quem somos. “Não consigo descrever o momento exato em que a arte me tocou, pois toda vez que olho para trás sou marcado por uma memória afetiva em que sempre fui das artes”, diz o baiano José Carlos Arandiba, o memorável Zebrinha.
Com mais de 40 anos de dedicação à dança, já coreografou o Balé Folclórico da Bahia, além de espetáculos do Bando do Teatro do Olodum, além de ser solista nos shows de Tina Turner e Liza Mineli, recentemente, ele esteve na bancada de jurados do Dança dos Famosos, do Domingão com o Hulk. “Curiosamente, eu descobri que a arte que mais me emociona é a pintura. Eu choro muito vendo um quadro, e isso me lembra que o corpo traz memórias. O corpo não mente”, reflete.
“O corpo aciona suas memórias seja ouvindo uma música no rádio ou um tambor no terreiro. Aciona memórias quando comemos acarajé, caruru e isso faz com que a gente se reconheça a partir deste sentimento”, descreve. É a partir deste elemento que ele estimula seus pupilos. “A arte é imanente, o meu trabalho é despertar essa memória. Ao dançar, eles compreendem que essa ação tem um valor racial”, detalha o professor.
“Dançar é uma transmissão do que o corpo sabe desde o tempo dos nossos ancestrais”, conta Zebrinha, que dirigiu ao documentário Ijó Dudu - Memória da Dança Negra na Bahia, produzido em cooperação com o Centro de Memória da Bahia, vinculado à Fundação Pedro Calmon (CMB/FPC), e foi lançado neste ano. A obra é uma denúncia poética que narra as vivências e saberes de mestras e mestres pioneiros da dança no Estado.
Consciência do corpo e da raça
O arquiteto do movimento, como prefere se denominar, conta que seu 20 de novembro, (Dia da Consciência Negra), foi aos 15 anos ao conhecer o ator cachoeirano Mário Gusmão. “Ele foi meu mentor político, era a primeira vez que estava de frente a um homem preto contemporâneo e emancipado”, enfatiza.
Na época, Zebrinha ainda estudava medicina veterinária. “Nesse momento eu realizo meu movimento para as artes. A dança veio a consagrar minha consciência racial”, afirma. O contato com Gusmão foi fundamental para “transformar o adolescente em um cidadão”, como descreve o artista.
Para Zebrinha, o Novembro Negro é uma oportunidade de olharmos para nossa ancestralidade com maior cuidado. “Não temos um caminho de volta, como muitas das famílias brancas que sabem sua ascendência”, aponta. O decano da dança negra lembra de outros movimentos que festejam a cultura negra como o Black Month History (Mês da História Negra), que acontece de 1 de fevereiro a 1 de março, nos Estados Unidos, Canadá, e mais recentemente na Irlanda, Países Baixo e Reino Unido.
“O contexto brasileiro trata com menos atenção essa data, por isso, é importante fomentar e tornar mais plural essa celebração”, conta. “Esse é o momento de tirarmos esse sentimento de mais-valia, a história de que somos menores. É preciso lembrar que somos mais que sobreviventes dessa história, somos heróis, e mais, somos super-poderosos”, realça.