"Referências positivas da história negra faz que as crianças gostem mais de si”, enfatiza Helena Nascimento

22/11/2022

Voltado para a contação de literatura preta, o projeto "O que têm atrás da porta?", desenvolvido pela educadora Helena Nascimento, objetiva ampliar a imaginário das crianças negras

“Era uma vez…” é o ponto de partida de muitas histórias que conhecemos, e outras que ainda não conhecemos, mas que se começarmos a imaginar, irá nos lembrar de reinos, heróis com toda sorte de encantos que pouco se assemelham com pessoas negras. Entendendo a importância de povoar ainda cedo a imaginação das crianças, a professora Helena Nascimento tem buscado contar novas narrativas sobre a história negra para o público infantil.

Em 2017, quando Helena trabalhava com educação infantil em uma escola pública, em Lauro de Freitas, ela iniciou o projeto O que tem atrás da porta. “Neste colégio, de maioria de crianças pretas, o acervo literário da escola era preenchido por histórias de princesas e heróis brancos, dos ditos clássicos infantis, o que não representava o grupo em questão”, detalha a educadora.

Para levar literatura preta para as crianças, a professora criou a personagem da rainha de Luanda. “O projeto tenta combater estigmas através da contação de histórias. O objetivo é despertar nelas o interesse maior em se identificar com suas histórias e do povo africano”, diz Helena.

Cada vez mais o acesso ao mundo digital tem se difundido para o público infantil, ainda assim, para a professora, é nítido a atenção das crianças e dos adultos. “Quando eu conto histórias, as reações ao redor evidenciam que elas ainda se encantam. É importante também apontar que o uso dos recursos digitais não são acessíveis para todas as pessoas, e retornamos para o lugar de exclusão”, lembra Helena.

Imaginando

“Quando eu trago uma diversidade de jogos e dinâmicas, que enfatizam a história preta, isso as disponibiliza um acesso de toda uma herança da memória do continente africano”, pontua Helena. Para a intérprete da rainha Luanda, contar tais histórias faz com que as crianças compreendam ainda cedo como a representatividade é importante.

As contações de Helena se baseiam em contos orais e versam sobre 54 países africanos e a cosmologia dos orixás. Nesta perspectiva, ela objetiva contar ampliar o repertório do conhecimento das crianças. “Quando eu busco referências positivas da história dos povos que foram escravizados eu sinto que dou a possibilidade que elas gostem mais de si”, explica.

Para ela, enquanto mulher preta e periférica, como se denomina, percebe que estas crianças que estão às margens ainda assim convivem num universo diverso e polivalente culturalmente. “A leitura que é guiada por mediadores que são pretos, a genialidade de ilustradores que conseguem trazer traços de uma criança retinta, por exemplo, é de fundamental importância para deixar os olhares atentos para o mundo”, ressalta.

“A leitura e a escrita têm um papel fundamental na vida das crianças, pois é por elas que ampliamos os horizontes e o patrimônio cultural, social e histórico. Quando nos referimos às crianças isso é de fato transformador”, afirma Helena.