Foi no período colonial que o carnaval chegou ao Brasil, mais precisamente na Bahia. Berço da festa mais popular do país, alguns momentos do carnaval baiano ficaram esquecidos, como no caso das escolas de samba da Bahia, que está gravada na memória de poucos, sobretudo os que participaram dessas agremiações.
Pois sambe,
Gingue o corpo pra lá e pra cá
Lá na avenida, nós vamos nos encontrar
Olê olê olê olá você na sua escola
E eu na minha a desfilar.
Rubem – Vai- Levando
Geraldo Lima
Concentradas nas Ruas Chile e da Misericórdia, cada escola esperava sua vez para iniciar o desfile. Cada uma com uma placa de saudação ao público, à comissão julgadora e a imprensa, as agremiações iniciavam seus desfiles na Praça do Campo Grande indo até a Praça da Sé. Muitos bairros da cidade eram representados através das escolas.
Comissão de frente, alegorias de mão, alas das passistas e a bateria eram algumas das composições de cada escola. Em um trecho do Jornal A tarde, de 10 de fevereiro, destacava os critérios de julgamento, no qual cada agremiação deveria usar uma bandeira, o enredo deveria contextualizar a realidade histórica, além da bateria, coreografia e originalidade.
Navios Negreiros chegavam ao porto desta capital
Trazendo homem, mulher e meninos cativos vendidos como lacaios
As mulheres mães pretas se tornaram
Os meninos foram para os canaviais
Os homens construíram senzalas
Fabricavam açúcar trabalhavam os minerais.
Samba-enredo: Os negros na Bahia
Edson Menezes
Foi em 15 de novembro de 1957 que foi fundada a primeira escola de samba da Bahia, a Ritmistas do Samba. Detentora de dois títulos do carnaval baiano, de 1961 e 1962 e um vice-campeonato em 1967, ela serviu de inspiração para as que viriam no futuro. Suas cores eram o preto e branco e na bandeira o símbolo era formado por uma luva, uma bengala e uma cartola, há quem considerasse a bateria desta escola a melhor da cidade. Em 1971 a Ritmistas deixou de desfilar. Alísia Vaiana foi a primeira porta bandeira da escola.
Com uma ascensão meteórica, a escola Filhos do Politeama, fundada em 1963, foi uma das que brilhou no palanque, destacando-se por conquistar o título da melhor agremiação logo na sua estreia. Sempre tendo os ensaios divulgados no Jornal A Tarde, a Filhos do Politeama levou ao público em 1967, alas com muito luxo, mas no ano seguinte deixou de brilhar nas passarelas.
Com cinco títulos conquistados, a Juventude do Garcia foi uma das maiores agremiações do Estado. A vida do Imperador D. Pedro I, Danças negras do Nordeste e Exaltação à Natureza, que a rendeu o título de 1968, foram alguns dos enredos que a escola levou às passarelas.
Em 1969, a escola não participou da disputa, pois pelo regulamento não era permitido que uma agremiação conquistasse três títulos consecutivos. O tempo de luxo da Juventude do Garcia, terminou, tendo como último desfile uma homenagem à fundadora da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, Denise Tavares, em 1976.
A Diplomatas de Amaralina, fundada em março de 1966, foi a maior campeão do carnaval baiano, com seis títulos conquistados e três vices campeonatos, levou ao público em 1977 uma novidade, a “Ala das Baianas”, constituídas por 38 passistas, todas com mais de 60 anos.
O carnavalesco Carlos Conceição foi um dos integrantes das escolas Bafo da Onça e Ritmo da Liberdade, que integraram o segundo grupo do carnaval baiano. “Havia um regulamento no qual as escolas do 2º grupo tinham que vencer três carnavais para conseguir o acesso. Entre a década de 60 e 70, a Bafo de Onça foi consagrada tricampeã e subiu para o 1º grupo. O tema que garantiu o terceiro título foi A Abolição da Escravatura”, destacou Carlos.
Quando no Brasil havia escravidão,
centenas de africanos vinham parar aqui
transportados em grandes embarcações
eram tráficos feito livre sim,
mas, quando os abolicionistas procuravam melhores dias para nós,
4 de setembro de 1850,
Veio a Lei Eusébio de Queiróz.
Mas, mais tarde, veio outra lei,
28 de setembro de 1871 veio a Lei do Ventre Livre
De Visconde do Rio branco,
herói número 1.
A festa foi a mesma com outro cenário
28 de setembro, 14 anos após
Veio a Lei de Sexagenário
Amenizando a ruína que entre nós existia
Para os que tinham mis de 60 anos,
foi um presente de imensa valia.
Três anos depois, no dia 13 de maio,
veio a Lei Aurea, meu senhor
Quando D. Pedro II estava ausente
Foi a princesa que assinou
Ela a mais bela entre as belas criaturas
Salve a Princesa Isabel
Salve a Abolição da Escravatura.
“Carlos Conceição” – A Abolição da Escravatura.
“Esse é um samba muito bonito que conta uma história em quatro versos, as quatro etapas da Abolição da Escravatura”, disse Carlos.
Muitas outras escolas marcaram a história do carnaval de Salvador, como a Filhos do Tororó, detentora de dois títulos, e outras que encantaram desfilando pelo 1º grupo e pelo 2º grupo, mas uma morte anunciada trouxe fim aos luxos, a beleza e os batuques das baterias, com a crescente popularidade dos trios elétricos. Três escolas ainda tentaram desfilar em 1976, mas foi sem sucesso, dando fim ao um belo momento da história do carnaval da Bahia e uma o inicio da nova fase do carnaval do Estado.
Quando eu não puder pisar mais na avenida
Quando as minhas pernas não puderem aguentar
Levar meu corpo, junto com meu samba
O meu anel de bomba, entrego a quem merece usar.
Edson Gomes Conceição
Aloísio Silvia
Referências:
O carnaval de Salvador e suas escolas de samba. Lima, Geraldo. Disponível na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato;
Acervo de periódicos da Biblioteca Central do Estado da Bahia