Quem conhece o Carnaval brasileiro nem imagina como era a festa dos foliões na Idade Média, por volta do século XV, quando o que ocorria nos três dias que precediam a entrada da Quaresma, era o Entrudo. Considerado a fase de gestação do Carnaval, trazido pelos portugueses, o Entrudo era representado por bonecos gigantes feitos de madeira e tecido.
Nessa festa popular, ao invés de confete e serpentina, os brincantes lançavam uns nos outros baldes de água, farinha, limões, luvas cheias de areia, ovos, frutas podres etc. A festa entrou em declínio da década de 1850 por pressão policial e das classes sociais mais elevadas da sociedade, dando lugar ao Carnaval.
“O fim do Entrudo não foi anunciado num dia e o Carnaval começou em outro. Foi um processo lento, gradual e que levou décadas até que tomasse forma. Em dado momento, as elites queriam que a festa que precedia a quaresma se parecesse com os festejos franceses e italianos, e não com a bagunça associada à festa trazida de Portugal. Desfiles e máscaras estilizadas fariam parte do novo modelo, mas nada de máscaras de monstros e animais, como era no Entrudo. Havia um ideal de higienização e civilização da festa que era associada aos costumes porcos, sujos. Vale ressaltar que durante o Entrudo, as classes sociais não eram apagadas, mas eram relativizadas, então essa própria elite não queria comemorar da mesma forma que comemoravam os escravos, negros e pobres, que faziam chiste de todos, até mesmo reis, papas, bispos e governadores” - Milton Moura, doutor em Comunicação e Cultura Contemporânea, professor de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
O jornalista e pesquisador Nelson Varón Cadena, autor dos livros “Festas Populares da Bahia: Fé e folia” e "História do Carnaval da Bahia", destaca que: “No entrudo, se usava muito as ‘laranjinhas’ - que eram misturas de água, frutas, ovos, farinha-, preparadas durante cerca de dois meses pelos escravos. Dentre as elites, essa festa se dava dentro das residências. Era muito comum jogar laranjinha das sacadas das casas em pessoas em condições inferiores que passavam na rua. Claro que se fosse o contrário, isso daria muitos problemas”.
A fonte documental que expressa a realidade da transição do Entrudo para o Carnaval Popular, na segunda metade do século XIX, está custodiada no Arquivo Público do Estado da Bahia – vinculado à Fundação Pedro Calmon/ SecultBA e pode ser pesquisada por leitores e interessados pelo tema. Abaixo, segue a transcrição paleográfica do documento.
“Desde 1830 já se falavam no final do entrudo, que era de fato uma festa que as pessoas se sujavam muito. Nas mais populares, as pessoas utilizavam tripas de porco cheias de água para jogar. Com o fim do Entrudo, as laranjinhas foram substituídas por outras práticas, como lança-perfume. Há registro de 96 mil bisnagas usadas no Carnaval, considerando um total de menos de 300 mil habitantes em Salvador”, revelou Cadena.
O pesquisador que preferir pode ter acesso à fonte sobre esta história na Sala de Consulta de Manuscritos e Impressos do Arquivo Público. Basta comparecer com a referência “Seção de Arquivos Colonial/ Provincial. Volume 1570, Série: Festas Populares” de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 17h.
TRANSCRIÇÃO PALEOGRÁFICA
Illmo Exmo Snr. Presidente
Dirija-se ao Dr Chefe de Polícia, Palácio do Governo da Bª, 27 de Novembro de 1867. [ rubrica ]
A Sociedade Carnavalesca Club X installada em Março do presente anno com o fim de substituir o antigo e perigoso entrudo, pelo divertimento de mascaras, vem pedir a V. Exª, para lhe conceder o Theatro S. João durante o carnaval do proximo anno, para dar os bailes mascarados que custumão haver n’esse edificio, debaixo da direcção da mesma Sociedade, revertendo o producto liquido dos mesmos, em beneficio das Familias dos Voluntarios Bahia nos mortos na guerra que sustentamos contra o Despota do Paraguay
Bahia 25 Novembro 186
Espero do Patriotismo não desmentido de V. Exª, que não se negará em conceder visto ser pª um fim tão humanitario
- R. Mce Olympio Frederico [corroído]
[À margem esquerda, lê-se o transcrito abaixo]
N.23 Em brco 100
Pg. cem reis Bª
25 de 9br° 1867
Galião Brito