O curso que leva renomados pesquisadores para compartilhar seus estudos e experiências, o Conversando com a sua História, recebeu ontem (25) o pesquisador e professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Robério Souza. Ele falou sobre a presença de negros nas construções férreas no Brasil no século XIX – em situação de escravidão ou não.
“E quando fora de si os chamam de negros: a experiência negra, ofensas raciais e luta por direitos nas estradas de ferro do Brasil, séc. XIX” foi o tema da palestra, segunda nesta nova temporada do projeto, que é de iniciativa do Centro de Memória da Bahia – vinculado à Fundação Pedro Calmon/ SecultBA.
De acordo com Robério, na época vigorava a máxima de que a escravidão era incompatível com a construção da ferrovia, uma vez que o governo da Inglaterra era a favor da extinção do tráfico negreiro e havia até uma legislação imperial brasileira de 1852 que proibia isso. No entanto, em seus estudos, Robério pôde constatar que estes ingleses, que eram empreiteiros e construtores, eram também senhores de escravos.
Liberdade e Justiça
“Havia, principalmente, dois grupos trabalhando: alguns estavam lá porque os empreiteiros compravam a mão de obra deles através dos senhores de escravos; e outros eram escravos que visavam conquistar a liberdade. Como eram multidões, de centenas e até milhares de pessoas trabalhando, eles tentavam camuflar a sua condição”, disse o pesquisador.
Uma das teses de Robério é que alguns desses escravos fugidos sabiam sobre a legislação imperial que proibia o trabalho escravo, e uma vez estando lá, almejavam a liberdade através da justiça. Mas nas obras não havia apenas homens escravizados, mas também homens livres e libertos.
“Eles eram chamados de ‘trabalhadores nacionais’. Eram negros que desempenhavam trabalho braçal, contratados pelas empreiteiras. Mas isso não impedia o preconceito. Eles relataram que foram vítimas de ofensas raciais. Os engenheiros chamavam esses homens de ‘negros’ quando queria ofendê-los”, comentou Robério.
A estudante de Psicologia, Eneida Nascimento, elogiou a iniciativa e o tema do projeto: “acho muito importante falarmos sobre isso, pois é possível constatar que mesmo após tantos anos, as ofensas raciais continuam e isso precisa ser discutido, relatado e denunciado”.
“Ofensas raciais na história do Brasil é um tema que me interessa muito, pois pretendo aprofundar os estudos nessa área no decorrer da minha graduação”, comentou o estudante de História Valdir Nascimento.
MAIO
O próximo Conversando com a Sua História terá como tema “Religiões no Brasil” e, no dia 2 de maio, será com a Doutora em História Social (USP), Elizete da Silva. A palestra tem o título: “O Campo Religioso Brasileiro: diálogos e conflitos”, é aberta ao público, às 17h, no Espaço Xisto.
Foto: Manuela Muniz