Conspiração e identidade racial em Cuba foi tema do Conversando com a sua história

12/04/2016

O Conversando com a Sua História desta semana tratou sobre “Conspiração, vocabulário político e identidade racial em Santiago de Cuba no século XIX”, com a doutora em História Social (Unicamp) e professora de História da América da Universidade Federal da Bahia, Iacy Maia Mata. O projeto é de iniciativa do Centro de Memória da Bahia – unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/ Secretaria de Cultura do Estado. O debate, realizado na segunda-feira (11/04), aconteceu na Biblioteca Pública do Estado da Bahia.

Utilizando testamentos, censos, processos e correspondências da administração colonial, a professora analisou o complexo sistema de classificação racial em Cuba, as divisões internas à população de cor, as transformações no vocabulário político dos não-brancos e a aproximação entre negros e mulatos para fins de mobilização política. Entre 1864 e 1881, a jurisdição de Santiago de Cuba, situada da região oriental da ilha, foi palco de conspirações e insurreições antiescravagistas e anticoloniais.

Em 1867, foi descoberto um plano de sublevação envolvendo escravos e livres de cor com objetivo de por fim à escravidão. “Os principais líderes da conspiração eram um vendedor de roupas, um músico, um carpinteiro e dois serralheiros, todos livres de cor, que ocupavam uma posição social diferente dos escravos”, explicou. Segundo a professora, eles pretendiam sair em conjunto num festejo de São João, a fim de conseguir gente pra lutar, armas e munições. No entanto, a estratégia usada foi muito arriscada, já que na ocasião havia muitos policiais nas ruas por causa do período festivo. Segundo Iacy, a rebelião de fato nunca aconteceu. Um bilhete anônimo chegou ao governo, que iniciou uma ferrenha perseguição onde muitos líderes foram mortos e muitos participantes, presos. A professora contou que teve de reconstituir todo o modo de vida da época, as pressões e desclassificações sociais, e as questões de raça para entender porque homens livres se juntaram aos escravos para lutar por igualdade racial.

União - A doutora contou que não apenas negros foram presos, mas também pardos que estavam bailando e festejando com os conspiradores, ou acusados de subverter os escravos para a conspiração. Por serem homens livres de cor, poderiam trabalhar em atividades tidas como mais valorizadas, como carpinteiro, cabelereiro, vendedor, etc. No entanto, para engrossar a conspiração, os líderes trabalhavam em diversas fazendas para ficarem próximos dos escravos e chamá-los para a luta.

A professora contou que um dos aspectos que a deixou intrigada durante a pesquisa, foi que havia uma rivalidade entre pardos e negros, já que os primeiros se achavam muito superiores. “Por parte dos conspiradores havia uma tentativa de politização social e racial. No final das contas, eles queriam unir todas as pessoas não-brancas e construir um sentimento de pertencimento contra os brancos”, ela disse. “Não era surpreendente uma conspiração contra os brancos. Eles eram os soberanos privilegiados que tinham o poder governamental da colônia, os melhores trabalhos e as melhores posições sociais”, ela completou.

O estudante de história, Marcos Joanir, contou que as questões de vocabulário político e identidade racial chamaram muito a atenção dele. “Sou estudante, então tudo que tenha a ver com conhecimento histórico, me interessa muito”, ele disse. “É importante a gente estudar como se deu todo esse processo em Cuba. Quando estudamos a História, compreendemos um pouco mais do presente”, disse a professora Patrícia Silva.

O próximo encontro do Conversando com a sua História acontece na próxima segunda (18), às 17h, no mesmo local, com o tema “Cinema Africano e Autorrepresentação: descolonização, identidade e reinvenção”. A professora de Cinema e Audiovisual (UFRB), Amaranta César, conduzirá o debate. 

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