Yeda Pessoa de Castro. Há 40 anos, sua tese inaugurou foi a primeira brasileira a ser defendida em uma Universidade africana. Até então, a Etnolinguista, Doutora (Ph.D) em Línguas Africanas pela Universidade Nacional do Zaire (Congo), fundadora do Museu Afro-Brasileiro em Salvador é a única nesta especialidade, considerada uma das mais importantes pesquisadoras nesse campo de estudo e uma das mais acatadas no meio acadêmico no exterior e das mais prestigiadas em África. São mais de quatro décadas dedicadas à investigação séria sobre as línguas e culturas africanas, estreitando os laços Brasil-África por meio de conferências, aulas, publicações e, principalmente, manifestações públicas em prol do reconhecimento acadêmico da importância destes elementos na formação do Português brasileiro.
Assista aqui a transmissão online da aula.
Yeda Pessoa de Castro é autora da obra mais completa já escrita sobre línguas africanas no Brasil: “Falares Africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro” e ministrará a Aula Magna do curso Conversando com a Sua História, realização do Centro de Memória da Bahia – unidade da Fundação Pedro Calmon/SecultBA – que retorna renovado trazendo, este mês (março), grandes mulheres que fazem e escrevem a História (confira programação). Confira o primeiro #FPCEntrevista de 2016, com Yeda Pessoa de Castro, cuja Aula Magna - dia 14 de março, 17h - terá como tema Yeda Pessoa de Castro: Uma vida dedicada às línguas e culturas negroafricanas no Brasil.
#FPCEntrevista - Com uma trajetória de vida dedicada ao estudo de línguas africanas, de onde veio este interesse tão peculiar e como foi possível estimular este caminho na Bahia?
Yeda Pessoa de Castro - Desde pequena, na fazenda dos meus tios, em Feira de Santana, eu ouvia aquelas rezas, convivi com muitas pessoas negras na região, ouvia aqueles cantos, benzeduras, quando ficava doente tomava daquelas mezinhas que eles faziam com ervas. Em Salvador eu nasci e cresci num bairro popular, de famílias pobres como era a minha, na Barroquinha, no começo da Baixa dos Sapateiros, nº 35, imortalizada na canção de Ari Barroso. Fui vizinha e amiga de Nelson Maleiro, fundador dos blocos carnavalescos “Cavaleiros de Bagdá” e “Mercadores de Bagdá”, que introduziu a pirotecnia nos carros alegóricos do carnaval baiano. Na escola onde estudei, Nossa Senhora de Fátima, na Ladeira da Independência, a diretora, professora Minervina, também era uma mulher negra, alta, corpulenta, que me impressionava, e no trajeto de minha casa para a escola encontrava muitos, muitos negros com quem fazia amizade, era Nagô Sapateiro, Procópio do Ogunjá com sua quitanda, que sempre me presenteava com uma fruta para completar minha merenda. Não conseguia entender o que eles diziam, aquelas palavras misteriosas. E prometi para mim mesma: “um dia vou saber o que eles estão dizendo”. Então fui fazer Letras, para ter a possibilidade de matar essa curiosidade. No curso fui aluna do professor Nelson Rossi, que influenciou muito minhas pesquisas sobre dialetologia, e me interessei em estudar a participação dos falantes africanos na formação do português do Brasil. Mas era seguidamente desanimada por muitos sob a alegação de isso tudo já foi estudado nos anos 30, e essa influência se limitou ao vocabulário, algumas palavras africanas que foram aceitas pelo português.
#FPCEntrevista - Da língua à cultura negroafricana e às relações Brasil-África. De que forma esta linha se constituiu em seus estudos e como ela se consolida hoje?
YPC - Em 1960, no CEAO recém fundado, eu já era estagiária do setor de estudos linguísticos. E comecei a fazer pesquisa de campo em Salvador, depois estendi ao Recôncavo e Feira de Santana, entre o povo de santo, quem mais preservava as línguas africanas. Em 62, com o prof. Guilherme de Souza Castro, fomos para a Universidade de Ibadan por um ano. Voltamos em 64 até 68, para a Universidade de Ifé, também na Nigéria, a fim de instalar o curso de português. E de 74 a 78, surgiram oportunidades para fazer meu Mestrado e estudar a língua yorubá que, para surpresa minha, não se mostrava tão presente nos falares que eu ouvia fora de Salvador. Aí redescobri os falares congo-angola e jeje, até então encobertos pela concentração nos estudos dos Candomblés nagô e queto na Bahia. Só em 76, fui para o Congo, antigo Zaire, onde fiz me doutorado, o primeiro de um brasileiro em África e o único ate agora em sua especialidade: línguas africanas. Hoje, sou considerada uma das mais importantes pesquisadoras nesse campo de estudo e uma das mais acatadas no meio acadêmico no exterior e das mais prestigiadas em África. Em Angola, sou Yeda Muntu, que quer dizer Pessoa, meu nome civil. Na Nigéria fui batizada de Yeda Olubumin, a que me presenteou com as águas, sou filha de Oxum Apará, logo, travestida de Iansã. No Congo, sou Kisimbi, a dona das águas.
#FPCEntrevista - Qual papel a religiosidade afro-brasileira teve na constituição e formação da língua falada no Brasil? Há alguma peculiaridade de algum dos estados neste contexto?
YPC - Destaque para a língua-de-santo dos Candomblés da Bahia. Continua sendo a maior fonte de aportes negroafricanos apropriados pelo Português do Brasil que enriquecem a língua portuguesa como um todo.
#FPCEntrevista - Quais principais aspectos sócio-históricos e linguísticos podemos destacar na formação da língua falada no Brasil, a partir das interações com os negros africanos?
YPC - A densidade populacional. O número superior de negros por três séculos consecutivos, a antiguidade, prevalência, distribuição dos falantes de línguas do Congo e Angola no Brasil- Colônia. A participação nagô ketu foi igualmente significativa. É historicamente recente e mais voltada para o campo da religiosidade. Assim também podemos dizer das marcas de africania deixadas pelo povo jeje. Nesse contexto, a atuação socializadora da mulher negra entre os escravos de jó (kmibundo njó, da casa), na condição de babá, mucama, cozinheira, sacerdotisa, contadora de história, rezadeira, pedagoga, enfim a figura emblemática da mãe ancestral dos brasileiros.
#FPCEntrevista - Quais particularidades do português que falamos podemos identificar muito fortemente a partir da influência africana?
YPC - A nossa pronúncia. Se nos orgulhamos de falar “cantano”, devemos agradecer ao gosto das línguas bantu pelas vogais, que contribuíram para preservar a pronúncia vocalizada do português arcaico no pronúncia brasileira, ao contrário do português lusitano onde prevalecem as consoantes. Vem da mesma fonte africana o costume de abolir os plurais, como em “as criança” e “os menino”, onde os artigos definidos “os” e “as” funcionam como prefixos marcadores do plural, a exemplo do que se faz nas línguas bantu. “Muntu”, pessoa, “bantu”, pessoas. No campo do vocabulário, o mais significativo é o uso de “caçula” em lugar de “banjamin”, o que marca a ação socializadora da mulher negra no seio da família brasileira.
#FPCEntrevista - Essa presença africana nos falares é motivo de orgulho para o povo brasileiro ou reforça o preconceito racial?
YPC - Essa presença continua sendo ocultada pela nossa Academia e ignorada pela maioria dos brasileiros, inclusive pela comunidade negra. Tenho batalhado para que essas línguas ocupem o lugar que lhes é devido ao lado das línguas europeias em nosso ensino, a fim de que deixem de ser pensadas e vistas como dialetos no sentido pejorativo do termo. Só assim chegaremos a extirpar as raízes mais profundas do racismo, vez que a língua substancia o espaço da nossa identidade.
#FPCEntrevista - Para aqueles que se interessam pelos estudos linguísticos africanos e afrobrasileiros, quais caminhos precisam ser seguidos de início?
YPC - Reivindicar a introdução do ensino de línguas africanas em nossas Universidades, na categoria de línguas estrangeiras, ao lado do Alemão, Francês, Inglês, Espanhol. Reconhecer que o Português brasileiro foi africanizado e sua história precisa ser reescrita com a participação dos falantes negroafricanos, que continuam sendo emudecidos e discriminados por grande parcela da nossa Academia.
#FPCEntrevista - Que paralelo pode ser traçado entre os estudos linguísticos no Brasil e a Lei 10.639?
YPC - Antes de tudo, preparando os professores com informações atuais, adequadas, sem fantasias e mitos sobre a África e sobre nossa realidade étnica e cultural, seguindo a advertência de Nelson Mandela, em Conversas que tive comigo. p. 125: Não somos multirracialistas, somos não racialistas. Estamos lutando por uma sociedade em que as pessoas parem de pensar em termos de cor. Não é uma questão de raça, é uma questão de ideias. Abandonar a linguagem de visão colonialista com que tratamos a África. Entendendo que África é um continente, não é um país. Que não somos descendentes de escravos, mas de indivíduos que foram escravizados.
Confira aqui a programação do Conversando com a sua História neste mês de março.