Pela segunda vez, a cidade de Caetité recebeu a visita institucional da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia em sua nova configuração de avançar pelo interior do estado levando ações de difusão da memória e história da Bahia e da promoção da leitura. Desta vez, além de visitas, estudantes do Campus VI da Universidade Estadual da Bahia (Uneb), puderam participar do Curso Conversando com a sua História, realizado há 14 anos pelo Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação, que foi representada pelo diretor do CMB, Rafael Fontes.
Na noite do dia 31, cerca de 50 estudantes participaram do bate-papo conduzido pela doutora em História Social (PUC/SP), Ione Celeste Jesus de Souza (Uefs), que abordou a educação dirigida aos migrantes, os imigrantes e seus filhos e os ingênuos no período entre 1850 e 1920 na Bahia. Em suas pesquisas, Ione Celeste enfatiza a história da educação e da infância, tendo como mote a investigação das experiências de pessoas pobres na educação pública, em especial dos ingênuos – termo jurídico que significava o filho do liberto, ou seja, o filho livre da mulher escrava. “De 1860 a 1890, encontramos documentação quase inexplorada sobre a educação, em especial dos ingênuos, que se destacaram por conta dos problemas que eles estavam trazendo às salas de aula, como perguntas dos inspetores escolares, professores, sobre o que fazer com eles. Havia uma pressão da população pobre – e de cor - por educação, mães e pais brigaram para que seus filhos estivessem na escola”, pontuou Ione. Ainda sobre o assunto, Ione enfatizou processos em suas pesquisas em que o termo aparece, além de apresentar a historiografia sobre o tema e fontes de pesquisa, como o Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB). “A Lei do Ventre Livre foi que abriu as brechas para que estas crianças continuassem, ou vivendo nas experiências do cativeiro, ou em processos de re-escravização por parte dos senhores, que os tinham como uma espécie de reserva para o futuro”, frisou.
Para Ione Celeste, a escolha de Caetité para este debate foi emblemática. “Caetité foi um pólo escravista muito grande e há muitas pesquisas nesse sentido oriundas desta cidade. Acho que por isso e pelo papel de Caetité nesta vivência da escravidão e no setor educacional – primeiro teve este interesse em criar esta escolarização desta população – esse debate aqui é fundamental”, enfatizou. Para o diretor do Centro de Memória da Bahia, Rafael Fontes, é papel da Fundação articular as produções historiográficas das Universidades e aproximar os estudos entre os municípios baianos. “Essa circulação que o Conversando com a sua História começa a fazer a partir de Caetité tem este objetivo de aproximar os pesquisadores, fortalecer os laços entre estes grupos de pesquisa”, pontuou.
Oportunidades de conhecimento
Estudantes e pesquisadores de diferentes campos estiveram presentes no bate-papo protagonizado pela professora da Universidade Federal de Feira de Santana, Ione Celeste Souza. O estudante Gilson Alves, que cursa Licenciatura em Ciências Biológicas, apreciou a oportunidade, participando do debate junto à professora Ione Celeste. “A aula me deu uma visão ampliada da história da educação e, a partir deste encontro, eu quero aprender mais sobre estas pesquisas que a professora trouxe, pois quero construir e desconstruir conceitos sobre o tema”, pontuou. O pesquisador que atua com a área de Patrimônio, Edmilson de brito Gomes, enriqueceu seu conhecimento sobre a temática. “Pelo que Ione colocou, podemos refletir se há uma diferença entre o negro de ontem e o de hoje em sala de aula. Ela trouxe elementos importantíssimos pra isso. Houve avanços e diferenciações, mas ainda há algo estático nesse sentido do negro e a educação, a partir dos conteúdos trabalhados. Eles possibilitam esta libertação ou confirma este status?”, questionou Edmilson.
O Curso Conversando com a sua História voltará a viajar pelo interior do estado e, em Salvador, a programação também continua. Confira aqui.