Ela foi responsável pela implementação das Bibliotecas Parque no Rio de Janeiro, estruturas referenciadas em iniciativas de Medelín e Bogotá, na Colômbia e que, hoje, são reconhecidas como modelo no país. Como superintendente de Leitura e Conhecimento na Secretaria de Cultura do estado do Rio, Vera Saboya esteve à frente do desenvolvimento de uma nova política de leitura entre 2009 e 2014.
Em Salvador a convite da Fundação Pedro Calmon/SecultBa, Vera visitou a Biblioteca dos Barris, conheceu sua história e ações, e dialogou com o Grupo de Trabalho responsável pela construção de um novo projeto de Biblioteca. Em entrevista, ela fala de sua atuação no Rio e sobre o que é ter uma Biblioteca Contemporânea. Confira:
FPCEntrevista – Como você recebe este convite da FPC de vir pensar uma nova Biblioteca Pública do Estado?
Vera Saboya – É importante ver o poder público interessado em modernizar e reestruturar a Biblioteca nos moldes que merece uma biblioteca pública contemporânea, importa para a cidade, pro estado. O primeiro desafio que vejo dentro de uma estrutura governamental é unir as pessoas certas pra esse movimento, unir forças, orçamento e empenho pra isso. O que essa biblioteca vai trazer de diferente pra cidade?
FPCEntrevista – O que pode ser o maior desafio nesta construção?
Vera Saboya – O maior desafio, com certeza, é o custeio da biblioteca, como ter isso garantido pelo Estado para que todo esforço que será desenvolvido perdure. Precisa existir um orçamento pra isso, que é um desafio não só da Bahia, mas do Brasil. O custo, a longo prazo, é pequeno. A manutenção do projeto é o mais difícil na coisa pública aqui no Brasil. Um projeto como esse precisa ser de Estado, não de governo. A questão é como transformar nisso, o que depende não só dos envolvidos, como da população.
FPCEntrevista – Mas o que é uma Biblioteca Contemporânea?
Vera Saboya – Uma biblioteca com acesso livre às estantes, onde não se precisa pedir licença pra pegar nos livros, com exceção dos raros e especiais, claro. Uma biblioteca com acessibilidade também é fundamental nesse conceito, o que torna necessário transformar um prédio que não foi pensado pra isso quando de sua fundação, transformá-lo em todas as suas limitações e extensões. No âmbito da tecnologia, especialmente. E tem o âmbito mais fácil e filosófico, que é discutir com os agentes que estão pensando essa nova biblioteca, as novas funções e formas de se comportar dentro dela. Uma biblioteca não é só espaço de pesquisa e leitura, mas de encontro, de produção cultural, criação e formação continuada. Tem que se ter uma biblioteca pública bem montada, com acervo atualizado, orçamento mensal pra aquisição de novos títulos – esta é uma condição sine qua non pra manter a população com acesso de fato ao conhecimento e atualização desse conhecimento.
FPCEntrevista – Que mentalidade precisa ser mudada nesse sentido?
Vera Saboya – É preciso uma mudança de paradigma: a biblioteca não tem que ser uma coisa pobre. Tem que ser uma coisa incrível, ter conforto, ser moderna. Os livros tem que ser bonitos. Não se pode ter uma edição qualquer, mas a melhor. Há uma pratica no país de se comprar as edições mais baratinhas, mas é errado. Temos que ter o melhor numa biblioteca pública. Edições ilustradas, comentadas, bonitas, esse salto tem que ser dado.
FPCEntrevista – É preciso se aproximar do que se busca em uma livraria, por exemplo?
Vera Saboya – Quanto mais uma biblioteca se parecer com uma livraria, mais ela vai dar certo. Numa biblioteca você, geralmente, tem uma atitude constrangida, como se você não pudesse tocar em nada, tirar da estante, você precisa saber exatamente o que quer. Numa livraria você entra, tira quantos livros quiser, senta e lê, não precisa saber o que quer. Você pode encontrar livros que não estava procurando, se divertir nessa procura. Basta mudarmos de atitude dentro dessa biblioteca, e isso é possível.
FPCEntrevista – Quanto à programação cultural, como se pensar ações e atividades que dinamizem e contribuam nesse processo?
Vera Saboya – Acho fundamental ter um programa extenso de Artes, por exemplo, como Teatro, Dramaturgia, pois é isso que dá sentido a uma coleção de Artes que habita numa biblioteca. O jovem que tá indo lá pra ter fazer um laboratório de Teatro, com estudo de leitura dramatizada de Nelson Rodrigues, por exemplo. Esse jovem vai buscar na própria biblioteca esse acervo e ele vai começar a circular, ter vida. O acervo sempre deve estar atrelado a um programa de ações e vice versa. Um trabalho de pintura na biblioteca, outro exemplo, onde tem um acervo literário sobre isso, que você pode levar pra casa, inclusive. Música também nesse sentido, shows, projetos que dialoguem com a palavra, com a literatura, como toda música faz. Isso faz todo sentido, quando uma atividade, um programa dentro de uma Biblioteca dialoga com os acervos de referência naquela matéria que ela mesma abriga.
FPCEntrevista – Como fomentar a leitura e a produção de conhecimento nessa biblioteca, especialmente com a juventude?
Vera Saboya – O comportamento do jovem na hora de estudar, por exemplo, é algo complicado. Quando falamos de conhecimento deste jovem numa biblioteca é isso: ele vai lá estudar Shakespeare, mas lá ele vai estudar dramatizando o texto, trabalhando ele. Não terá a opção apenas de ler e levar pra casa, ele vai poder produzir aquele conhecimento ali, na hora. Hoje você vê em bibliotecas do mundo inteiro espaços de fazer – os make spaces. A Cultura Maker é de um jovem que quer aprender fazendo. Ele não estuda primeiro a teoria e depois de cinco anos aplica na prática e, muitas vezes, descobre que não é o que ele queria, como a minha geração, por exemplo. Hoje o jovem quer ler e experimentar, fazer tudo ao mesmo tempo. A biblioteca tem que caminhar nessa direção: leitura e experiência.
FPCEntrevista – E como mediar essa leitura, é necessário pensar nesta mediação nesta biblioteca?
Vera Saboya – Só se o leitor quiser. E também, precisamos entender que a pessoa que atende na biblioteca tem que ser leitora, primeiramente. Numa biblioteca contemporânea, tudo e todos mediam esse contato com o espaço: o bibliotecário media o acesso físico ao acervo, o historiador, estudante de Letras, o músico que venha a atuar na biblioteca também são mediadores. O porteiro, o segurança, as pessoas da limpeza, todos estão mediando seu contato com a biblioteca. Mas a melhor mediação de leitura que se possa proporcionar é trazer ao leitor a possibilidade da experiência do texto para além da leitura solitária, é dar a liberdade dele poder ser o leitor que quiser.
FPCEntrevista – Um dos méritos das Bibliotecas Parque é, justamente, o diálogo com a comunidade. Como pensar esse diálogo?
Vera Saboya – A gente desenvolveu programas conversando com pessoas de dentro e fora da comunidade. Tudo foi construído com muita troca de informação, algumas coisas incialmente nem foram bem recebidas, mas decidimos fazer a experiência mesmo assim. Temos essa liberdade em uma biblioteca, de experimentar. Quando se trabalha com a coisa pública, você não impõe suas convicções, você tem que ouvir muita gente e ainda perigar errar. Pode ser que a coerência que exista na opinião de várias pessoas, não tenha muito resultado. Tem que interessar ao público, não adianta fazer esforços hercúleos pra nada. Precisa ter diálogos com instituições do entorno, ampliar isso e manter. Quando não há diálogo ou ele é complicado, você precisa experimentar. Vai, testa, aplica, não deu certo, pára. Deu certo, continua e amplia. Numa biblioteca você pode fazer isso, você tem liberdade pra testar, experimentar.
FPCEntrevista – O que ficou de sua vasta experiência à frente da implementação destas Bibliotecas que são, hoje, modelos no país?
Vera Saboya – Eu tinha um pensamento antes da coisa pública de que pra recuperar o tempo perdido de uma criança ou adolescente sem acesso à Cultura, Arte, Literatura, era algo que demoraria aqueles anos que todos dizem que vai demorar.São sempre números desanimadores quando se fala em projetos de Educação, Cultura...não é verdade. Em um ano, você tem resultado, apenas faça. Se fizer, resolve. Fiz a coisa mais importante que eu podia ter feito em minha vida.
Gt Biblioteca dos Barris
Na visita, o GT que estuda um novo projeto para a Biblioteca dos Barris contou ainda com a presença do arquiteto Alexandre Prisco, que auxiliará nestes primeiros passos dados pela Fundação Pedro Calmon.
“É um espaço muito grande, inclusive de área ociosa, além de se encontrar em um ponto central da cidade e numa área acessível. Muita coisa precisa mudar, a biblioteca precisa se tornar uma área mais atrativa e acessível aos leitores. É importante trazer as pessoas para esse ambiente, seja para a leitura, seja para outras atividades. E a estrutura da Biblioteca permite essa flexibilidade”.
A partir destas visitas e diálogos, a Fundação Pedro Calmon dará continuidade ao trabalho do GT instituído, especialmente, para tratar deste novo projeto da Biblioteca dos Barris. O secretário de Cultura, Jorge Portugal recebeu Vera Saboya, o diretor geral da Fundação, Zulu Araújo e o GT em seu gabinete na manhã desta sexta (24).