Baianas de acarajé, historiadores e pesquisadores se reuniram na tarde da ultima quarta-feira (02), no Palacete das Artes (Graça), para o lançamento do projeto “A Bahia tem dendê! - Acarajé, patrimônio nacional do Brasil”. Promovido pela Biblioteca Virtual Consuelo Pondé (BVCP) – unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (FPC/SecultBa) – o evento celebrou os 10 anos da inscrição do ofício das baianas de acarajé no Livro dos Saberes do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, com uma roda de conversas e lançamento do site e e-book do projeto.
Abrindo as atividades, uma mesa de debate composta pelos pesquisadores Florismar Menezes Borges, Jaime Sodré e Vagner Rocha discutiu o trabalho das baianas de acarajé e sua representatividade histórica e cultural no país. “Não vamos discutir aqui a tradição, porque elas já têm. Não precisamos discutir a qualidade de seu produto, o Akará, não precisamos dizer que elas são um símbolo da Bahia. Mas a grande novidade que deve ser difundida e divulgada é esse empenho de mulheres negras para que o seu ofício fosse reconhecido e respeitado. Esse é o lado fantástico”, afirmou o historiador Jaime Sodré, que compartilhou com o público suas vivências com o acarajé desde a sua infância. “Eu sou dependente, viciado em acarajé. Eu quero contar pra vocês das minhas Baianas que passaram pela minha vida desde que eu era criancinha, e que me fizeram ser não só apreciador do produto, mas também me fizeram saber que elas são mais que guerreiras. A baiana é a nossa mãe”, disse Sodré.
Já a pesquisadora Florismar Menezes Borges trouxe um pouco de sua dissertação de mestrado e traçou um breve histórico do ofício desde as atividades de ganhadeira até se tornarem uma categoria organizada, mapeando os diversos tipos de vendedores de acarajé nas ruas de Salvador no inicio dos anos 2000. A pesquisadora também questionou a exploração da imagem das baianas de acarajé e a falta de benefícios para a categoria.
“Uma figura tão representativa da cultura baiana e brasileira, que é explorada servindo de cartão postal, porque não pode ter benefícios também por parte dos poderes públicos, que se beneficiam tanto com essa imagem?”, questionou a pesquisadora. Florismar Menezes Borges também apresentou imagens de sua pesquisa que mostram a comercialização do acarajé por “não baianas” e a industrialização do produto, embasando a discussão sobre preservação do ofício como patrimônio.
As falas dos pesquisadores foram alternadas pelos depoimentos das baianas Dulce Mary e Tânia Nery, que contaram suas experiências com o tabuleiro de acarajé e quitutes e frisaram a importância de a categoria se unir para se fortalecer. “A gente tá se expandindo, mas temos que nos unir para fazermos história. Eu sou muito feliz por ser baiana de acarajé, mas eu ficaria ainda mais feliz se a gente se unisse mais e se respeitasse mais, porque nós somos história”, disse a baiana Dulce Mary.
Tânia Nery frisou a importância de se ter orgulho da profissão. “Eu não me qualifico como uma vendedora ambulante, como tem lá no crachá que a gente pega para poder vender durante o carnaval. Eu me qualifico como uma empresária. Sou uma baiana de acarajé com muito orgulho. Já discuti com pessoas que me disseram ‘cadê o seu certificado? ’, ou ‘você tem formação em quê? ’. E aí eu respondo que simplesmente sou formada em mãe, mulher, guerreira e trabalhadora”, contou Tânia Nery.
Reafirmando as colocações de Florismar Menezes Borges e Tânia Nery, Vagner Rocha ressaltou o empoderamento feminino por trás do ato de mercar o acarajé. “Em uma sociedade machista como a nossa, uma mulher tomar coragem, naquela época, de sair às ruas com o seu tabuleiro na cabeça para vender o seu produto é uma coisa até difícil de imaginar. E perpetuar esse ofício por tantos anos revela um empoderamento feminino por trás desse ato de mercar o acarajé. E para que permanecem no ofício hoje, é uma questão de pertencimento, de se reconhecer como parte dessa cultura”, disse o pesquisador. Rocha ainda falou sobre religiosidade, os “baianos de acarajé”, e de temas como a industrialização do produto e a venda de massa pronta. “A gente tem que entender que o ofício se modernizou. As práticas modernas e tradicionais coexistem, mas não podemos perder de vista que essa resignificação tem que respeitar os aspectos culturais e religiosos envolvidos”, frisou Vagner Rocha.
O estudioso também fez questão de pontuar as maiores conquistas da categoria, entre elas, a criação do Dia das Baianas de Acarajé, e o registro do ofício como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. “Acho que essa conquista do reconhecimento do patrimônio é a mais emblemática, porque ultrapassou a Bahia e alcançou todo o Brasil”, afirmou Vagner Rocha.
Após a mesa de debates, a diretora da BVCP, Mariângela Nogueira, e a presidente do Conselho executivo da Associação Nacional das Baianas de Acarajé, Mingau, Receptivos e Similares (ABAM), Rita Santos, apresentaram e lançaram o site do projeto A Bahia tem dendê!, e o e-book sobre o ofício das baianas de acarajé. O site, desenvolvido dentro da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé, traz depoimentos das baianas sobre o modo de fazer e os significados culturais envolvidos no trabalho, além de além de mais de 60 textos, entre artigos, teses e dissertações de historiadores e pesquisadores do tema, e letras de cancioneiros brasileiros sobre o carajé e as baianas.
Ao final, Mariângela anunciou a entrega do site A Bahia tem dendê! para a ABAM. “Estamos passando o site para a ABAM. Esse site é para o uso de vocês. Se alguém quiser saber alguma coisa sobre as baianas, esse site é bastante informativo e formativo, mas queremos que vocês usem, escrevam, postem, comentem, participem. Mais que uma homenagem é um agradecimento a vocês”, anunciou Mariângela Nogueira.
“Isso que está acontecendo é um marco. Dez anos com todos os problemas e dificuldades, e nós estamos aqui. E ainda estaremos por mais dez, vinte anos, o que mostra a nossa força. Mostra que somos guerreira”, disse a presidente da ABAM, Rita Santos.
Também presente no evento, o chefe de gabinete da FPC, Ary da Mata, fechou a atividade falando da importância da ação. “A Fundação Pedro Calmon é uma fundação que existe em função da memória. E esse é um trabalho de memória. É a memória do nosso povo, a memória da nossa gente que precisamos trabalhar para preservar. Então esse evento de hoje está no cerne da Fundação Pedro Calmon”, concluiu Ary da Mata.
Sistema – As bibliotecas públicas integram o Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas, gerido pela Fundação Pedro Calmon – Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA). O Sistema é composto por seis bibliotecas públicas estaduais localizadas em Salvador, sendo uma delas, a de Extensão, com duas bibliotecas móveis, uma no município de Itaparica e uma biblioteca virtual especializada na história da Bahia (Biblioteca Virtual Consuelo Pondé), além de uma Casa de Cultura, no município de Lençóis. O Sistema também fornece consultoria técnica para mais de 400 bibliotecas públicas municipais, comunitárias e espaços de leitura, além de cursos de capacitação para os funcionários destas unidades.