Na semana passada, Rafael Fontes foi nomeado o novo diretor do Centro de Memória da Bahia, vinculada a Fundação Pedro Calmon, órgão da Secretaria de Cultura. Assim que assumiu o posto, Rafael respondeu algumas perguntas referentes ao seu projeto de gestão e as expectativas para este novo cargo, que considera ser um desafio interessante a proposta de “trabalhar com história e memória, de forma transversal com outros aspectos da cultura contemporânea”. Conheça um pouco mais sobre Rafael e seus planos para o CMB em 2016.
Rafael Fontes é natural do município de Irará, localizado no Território de Portal do Sertão e iniciou sua atuação política e cultural ainda na adolescência, trabalhando na Casa da Cultura de Irará. Em 2002 integrou o grupo fundador do Movimento Cultural Viva Irará e do Projeto Domingueiras. Ingressou na graduação em História no ano seguinte e em 2009, no Mestrado em História da UEFS, onde pesquisou sobre o “tornar-se comunista e intelectual” de jovens estudantes baianos da década de 1930 (Aristeu Nogueira, Armênio Guedes, Fernando Sant’Anna, Diógenes Arruda Câmara-pernambucano que estudava na Bahia-, Jacob Gorender, João Falcão e Mário Alves).
Assumiu entre 2010 e 2012 a gestão municipal de cultura de Irará e a diretoria da Associação dos Dirigentes Municipais de Cultura da Bahia (ADIMCBA). Em 2012, ingressou o quadro técnico da SECULT/Bahia, lotado na Diretoria de Territorialização da Cultura, onde participou da coordenação dos Sistemas de Cultura e de atividades com vistas as políticas culturais.
FPC - Quais são os planos para Centro de Memória da Bahia em 2016?
Rafael Fontes - O CMB é um espaço consolidado no desenvolvimento de políticas públicas para o campo da história da/na Bahia. Este trabalho foi construído pelas professoras Consuelo Novais Sampaio e Jacira Primo, que me antecederam na direção. Elas conseguiram definir e imprimir um perfil de trabalho e seriedade ao CMB que se tornou seu principal patrimônio, e minha chegada ao CMB será a continuidade do trabalho que elas implementaram. Desta forma, o CMB continuará a ser um espaço de referência para as pesquisas históricas da Bahia, mantendo suas atividades de disponibilização e aquisição de acervos privados de interesse público, assim como seus cursos e eventos, os quais são realizados com êxito.
FPC - Dentro desta continuidade de trabalho, é possível pensar em reconfigurações de metodologia de atuação?
Rafael Fontes - As mudanças que planejo para o CMB estão relacionadas à sua abrangência temática e territorial destes. Desta forma, pretendemos realizar colóquios e seminários dos mais abrangentes temas relacionados à história da Bahia, buscando ainda parcerias com universidades que possuam cursos de história, centros de pesquisa e documentação e cursos de pós-graduação, para que juntos possamos consolidar ainda mais o campo historiográfico baiano. 2016, portanto será um ano de articulação com os pesquisadores e as universidades baianas para que o CMB colabore e reflita sobre as suas pesquisas, promovendo um desenvolvimento mais abrangente e ampliando o debate sobre a história da Bahia.
Além disso, planejo uma reestruturação conceitual e museológica do Memorial dos Governadores, na qual, será enfatizada a produção de exposições temáticas sobre os governadores e suas gestões, além de refletir em seu acervo permanente as mais recentes pesquisas sobre a Bahia republicana. Consolidando-se, assim, como um importante espaço de formação histórica e educacional. Ainda neste sentido, pensamos na ampliação dos cursos livres oferecidos pelo CMB, temática e territorial. Acho que estes cursos devem ser ofertados sobre os mais diversos temas (gênero, política, economia, teoria, paleografia…), bem como disponibilizados em outras cidades, possibilitando a complementação da formação de estudiosos em todo o estado.
FPC - Quais serão as prioridades desta nova gestão?
Rafael Fontes - Penso no CMB em três frentes (refletindo as suas coordenações): ampla disponibilização do acervo, redesenho do Memorial dos Governadores e consolidação de uma rede de centros de pesquisa, documentação e memória pelo estado. Com esses três objetivos iniciais, penso poder contribuir para que o CMB continue sendo o espaço de referência que é, ampliando sua abrangência no estado e no campo historiográfico. Outra prioridade do CMB será a construção de instrumentos arquivísticos comuns e simultâneos com o Arquivo Público e o Sistema de Bibliotecas, bem como, uma relação umbilical com a Biblioteca Virtual Consuelo Pondé. Acredito que para um trabalho obter êxito, este deve ser coletivo, amplo, participativo e transparente.
Além disso, quero contar com setores da Fundação Pedro Calmon e da Secult, em geral, para desenvolvermos uma política de história da Bahia que não seja deste ou daquele seguimento historiográfico, ou específico de apenas uma região. É um desafio pensarmos numa política para um estado, mas quem seríamos nós sem os desafios?
FPC - O CMB possui diversos projetos em andamento ou sinalizados para 2016, como cursos, palestras e rotas. O que podemos adiantar deles para próximo ano?
Rafael Fontes - Continuarão a ser oferecidos e serão ampliados. Acredito que com o que estou chamado de “rede de centros de pesquisa, documentação e memória do estado” conseguiremos identificar e oferecer uma ampla gama de opções de cursos livres, ou seja, que não sejam restritos aos profissionais e estudantes de história, e que possam ser ofertados para além de Salvador.
O mesmo deverá ocorrer com as palestras, os seminários e os colóquios. Em relação aos seminários e colóquios estamos pensando em realizarmos, pelo menos, dois encontros temáticos por ano, convidando pesquisadores de referência no campo de história e áreas afins. O “Conversando com a sua História”, por exemplo, continuará a acontecer em Salvador, mas buscaremos realizar junto com uma universidade por mês fora da capital. Com relação aos temas que serão abordados em 2016, estamos em fase de planejamento e consolidação temática, e sua divulgação será realizada a seu tempo.
FPC - As celebrações pelo Dois de Julho é um dos pontos fortes do CMB. Elas também continuam tendo atenção especial na programação?
Rafael Fontes - Uma ação que foi iniciada nas festividades do Dois de Julho deste ano e que queremos ampliar são os Roteiros Históricos da Bahia, ainda não sei se esse é um nome definitivo, mas a ideia é identificarmos pesquisadores que possam produzir roteiros históricos, inicialmente sobre o Dois de Julho, e promovermos aulas públicas nos locais onde aconteceram os eventos históricos. Explicitando assim a relação da história com o local. Acho que num futuro breve poderemos fazer isto com vários outros temas como o cangaço, o trafico de escravos, rebeliões etc.
FPC - Como pretende ampliar o campo de atuação do Centro?
Rafael Fontes - Enfatizo novamente a construção de uma rede, ou seja, tornar o mais abrangente possível a participação de outros agentes na definição das políticas e ações do CMB. Esta rede deverá refletir as pesquisas acadêmicas e memorialísticas, as publicações sobre a nossa história e os demais setores e órgãos relacionados. Penso que quando nós contribuímos para a construção de uma política pública, esta deve ser transparente, abrangente e acessível. E assim sendo, todos os envolvidos em sua construção, são também responsáveis pela sua manutenção e ampliação. Este é o desafio que recebo Zulu (Diretor Geral da Fundação Pedro Calmon) ao aceitar o convite para a direção do CMB. Este é o nosso objetivo final.
FPC - Qual plano para driblar os contingenciamentos e atuar de forma qualificada no CMB?
Rafael Fontes - Os anos que estive no serviço público, seja municipal ou estadual, me ensinaram que nos contingenciamentos encontramos as saídas mais criativas e eficazes para a execução de nossas atribuições e projetos. Outra coisa que aprendi nestes anos é que os contingenciamentos são disciplinadores para o bom serviço publico. Não penso como “driblá-los”, e sim em atuar em atividades que projetem ações com responsabilidade, serenidade, profissionalismo e criatividade. Portanto, nós do CMB utilizaremos os próximos meses para construirmos um minucioso plano de ação, construirmos os termos de referência de todos os nossos projetos, orçarmos e verificarmos com a Direção Geral da Fundação Pedro Calmon a melhor forma de resolvermos o contingenciamento dos recursos para execução das ações do CMB. Isto faz parte do desafio de dirigir o CMB.