“É muito comum as pessoas falarem da contribuição africana na formação da cultura brasileira. Desde Gilberto Freire que a gente ouve essa falácia. Mas são raros os pesquisadores que vão mostrar a história dos conflitos, da luta que foi pra população negra, em afirmar e poder praticar livremente as suas manifestações culturais”, afirmou a mestra em História Social, Adriana Albert Dias na primeira aula do 5º módulo do Curso Ensino da História, na tarde da última terça-feira (03/11), na Biblioteca Pública do Estado (Barris). O módulo tem como tema “Cultura Afro-brasileira”, uma realização do Centro de Memória da Bahia (CMB) – unidade vinculada à Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (FPC/SecultBa).
Apresentando as diferenças entre batuque e samba, de que forma essas manifestações culturais aconteciam, Adriana Albert Dias discutiu as formas de repressão exercidas pelas classes dominantes da época. “As camadas dominantes oscilavam entre a tolerância e a repressão. Para alguns, essas festas eram um obstáculo para se estabelecer uma cultura européia no Brasil, já que a visão de civilização estava ligada aos costumes europeus, e as tradições negras eram consideradas bárbaras. E ainda tinha o fato de que durante as batucadas ocorriam muitos conflitos e rebeliões. Mas para outros membros dessa classe dominante da época, tolerar o batuque era uma forma de amenizar essas tensões”, esclareceu Dias.
A professora ainda disse que seu objetivo é desmistificar a idéia de que a contribuição da cultura negra para a formação da cultura brasileira se deu de maneira pacífica. “O objetivo do curso é mostrar esses obstáculos, e de que maneira essas populações negras, apesar de todo tipo de repressão e todas as tentativas de inferiorizar as suas práticas culturais, conseguiram resistir. Então eu espero que o curso desperte essas discussões, pra pensar que essa história da população negra não foi uma história de harmonia, e que a gente tem essa riqueza cultural brasileira graças a muito sangue, a muita repressão, e essa história de conflito precisa ser retomada”, concluiu a professora Adriana Albert Dias.
Para Dorismar Andrade do Espírito Santo, professora de um colégio de ensino médio de Salvador que participa do Curso Ensino da História há cerca de três anos, a aula vai contribuir para aprimorar as discussões com seus próprios alunos. “Já participei de vários módulos e já usei várias dicas e materiais que foram dados aqui pelos professores com os meus alunos, para diversificar a minha aula. Sair daquela coisa de quadro, piloto, e só livro didático, para trazer algo diferente a partir do que estou aprendendo aqui”, afirmou Dorismar Andrade do Espírito Santo, que ainda lembrou da importância de se discutir temas voltados para a cultura afro-brasileira durante todo o ano.
“A gente tem que se desvincular um pouco do pensamento de que temas voltados para a cultura africana têm que ser trabalhados somente em novembro. Esse é um tema transversal que dá pra você trabalhar em vários momentos do ano, sem necessariamente ter que focar só em novembro”, disse Dorismar Andrade do Espírito Santo.
As próximas aulas do 5º módulo do Curso Ensino da Histórias estão programadas para os dias 10, 17 e 24 de novembro, a partir das 13h, na Sala Kátia Mattoso, 3º andar da Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Barris).
CMB - O Centro de Memória da Bahia (CMB), unidade da Fundação Pedro Calmon/Secretaria de Cultura do Estado (FPC/SecultBA), tem como objetivo a difusão da história da Bahia, através da preservação e ordenação de arquivos privados e personalidades públicas, bem como a realização de exposições, seminários e cursos de formação gratuitos. Entre suas funções, é responsável pelo Memorial dos Governadores Republicanos da Bahia (MGRB), localizado no Palácio Rio Branco, no Centro Histórico de Salvador.